Casamento às Cegas e a rivalidade feminina

Participantes do Casamento às Cegas: uma nova chance

A cultura dos reality shows ganha o Brasil de tempos em tempos, como acontece anualmente com o Big Brother Brasil ou A Fazenda. No entanto, esse gênero possui o segmento romântico – ou de “pegação” –, como De Férias com o Ex Brasil e Casamento às Cegas Brasil, em que a heteronormatividade compulsória, o machismo e a rivalidade feminina são pautas recorrentes em todas as edições. 

Na quarta, e mais recente, temporada de Casamento às Cegas, lançada pela Netflix em junho de 2024, o esquema é bem parecido com as anteriores: são 16 homens e 16 mulheres – com uma estrutura hétero e cisgênero, claro – que vão com a intenção de achar “o amor de suas vidas” somente pela voz, para que a aparência não interfira no chamado “experimento”. A ideia por si só é um tanto quanto irracional, mas todos concordam e se permitem viver essa grande jornada para encontrar sua “alma gêmea”. 

Com o passar da primeira fase, em que os casais têm apenas 10 minutos para trocar ideia, eles passam a conversar apenas com aqueles com que mais houve identificação, ou química, por mais tempo. Até esse ponto tudo são flores, mas, quando uma amiga passa o mesmo tempo com o cara que você estava a fim, tudo pode se tornar um grande caos nos bastidores. 

Divididas por gênero, as 16 pessoas encontram-se no lounge feminino e masculino para contar do date, sobre quem estão mais interessadas, beber – porque, nesse (como em outros) reality, o álcool parece guiar as dinâmicas – e conhecer umas às outras. O dos meninos é super divertido, descontraído e amigável, é quase como uma turma de escola que se reencontra mais velho e conta da vida para os amigos. 

Já o lounge feminino é mais tenso, parecendo que, a qualquer momento, uma delas pode cometer o crime de falar sobre o mesmo cara com interesse e tudo desandar. Assim que Renata Giaffredo fala de sua ligação com Patrick Ribeiro, Marília Pinheiro – que também estava conversando com o paulista – afirma que vai tirar satisfações com ele. Uma corrida pela conquista do coração de Patrick começa, enquanto ele, no lounge ao lado, disse ter confundido as duas, e mais: “Achei até que eram a mesma pessoa.” 

Nós, enquanto mulheres, fomos socializadas com a rivalidade feminina sendo naturalizada em nosso dia a dia, desde a comparação infantil de quem tem o melhor comportamento de “menininha”, até a idade adulta, em que enxergamos todas que estão ao nosso lado como possíveis rivais. Vale lembrar que isso não vale somente para desconhecidas ou aquelas que desejam a mesma pessoa que a gente, mas também para as comparações extremas que fazemos até com nossas amigas e irmãs. É como se todas as vitórias das mulheres fossem uma “mini-afronta” para as outras que estão por perto, e sempre queremos “nos superar” diante delas. 

O que precisamos estar atentas é: as pessoas que estamos saindo, namorando ou casando, alimentam essa visão e competitividade? Na maioria das vezes, sim, pois essa é a realidade que observamos desde a infância, como disse acima. Mas é necessário fazer o exercício de observar a outra com carinho, empatia e, no mínimo respeito, pensando na definição de sororidade, em que: Não é amar todas as mulheres, mas sim não odiar uma mulher por ser mulher, como afirma trecho do livro “Vamos juntas? – O Guia Da Sororidade Para Todas” de Babi Souza. 

Parece que, em programas como esses, é ainda mais fácil desgostar de alguma parceira, ou que algumas discussões são “forçadas” para fins de entretenimento – algo de que, pessoalmente, não duvido. No entanto, ao reforçar esse papel de mulheres megeras ou invejosas, estamos fomentando um discurso também machista, no qual não há amizade verdadeira entre sujeitos femininos, mas sim a busca incessante por um final feliz – e melhor – em relação à mulher ao lado. 

Quando falo de final feliz, não necessariamente o relaciono ao casamento, mas também com carreira acadêmica, maternidade, trabalho e todas as outras esferas possíveis de “competir”. Temos que, primeiro, entender os motivos para esse sentimento constante de competição – o sistema patriarcal pode nos ajudar a encontrar – e, depois, compreender a realidade das mulheres que estão ao nosso redor. 

Assim, é possível traçar novas possibilidades de relações femininas, com mais amizade, companheirismo e compaixão por aquelas que estão nessa caminhada cheia de percalços. 

Retirando o zoom: um programa que se abstém de discussões  

Não foram “somente” problemas entre mulheres que fizeram a quarta temporada de Casamento às Cegas ganhar notoriedade nos últimos tempos. O programa trouxe inúmeros debates importantes que devem ser feitos. 

Diante de várias problemáticas e confusões causadas por declarações machistas e gordofóbicas – como o episódio em que Alexandre Thomaz afirma ter gostado “de uma mulher que tem voz de gorda” –, Camila Queiroz e Klebber Toledo, casal que apresenta o reality, comentam sobre o “compromisso com a realidade”, em que são “pessoas reais, num experimento e relações reais” e eles não poderiam intervir. 

Mas até que ponto a realidade está sendo reforçada ou problematizada? De forma que, se há um preconceito – ou um crime – sendo registrado, é preciso explicá-lo e nomeá-lo. E, claro, responsabilizar as pessoas que cometeram tais atos. 

Em entrevista ao portal Metrópoles, Camila comenta: “Eu adoraria poder não mostrar isso [comentários machistas] para o Brasil. Acima de tudo, eles sabem que tem uma câmera apontada para a cara deles e que tudo que eles disserem está registrado. Eu acho que isso fica mais claro ainda como o retrato da nossa sociedade se mostra”. Nossa sociedade é racista, machista, LGBTQIA+fóbica, e muito mais, no entanto, ao deixar “a realidade” prevalecer, esses valores conservadores são reforçados junto. 

É preciso combatê-los com veemência, assim que acontecem, para que, dessa forma, possamos construir uma sociedade com mais equidade, respeito às diferenças – e ao próximo.

Serviço:

Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos
Justificativa: Cenas de sexo, consumo de bebida alcoólica, violência verbal e relato de estupro. Possui representações negativas sobre relacionamentos. 

Por Lia Junqueira.

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