
“Perverso e delicioso” (Wittmann, 2017), A Criada é um filme de 2016, dirigido por Park Chan-Wook e interpretado pelas protagonistas Kim Min-Hee (Hideko) e Tae-ri Kim (Sook-Hee). A produção trata de uma história complexa, repleta de reviravoltas, surpresas e vinganças. Fujiwara (Jung-woo Ha) é um golpista, que tenta se passar por conde para conquistar a condessa Hideko, herdeira de um grande patrimônio familiar. Então, ele contrata Sook-Hee para se passar por criada de Hideko e fazê-la se apaixonar pelo suposto conde; assim, ele poderá se casar com a herdeira, ficar com sua fortuna e interná-la em um hospício.
Mas, não é bem assim que a trama se desenrola… Ao longo do filme, uma paixão entre as personagens vai surgindo, o que muda todos os planos. A primeira cena em que as duas se conhecem é quando Hideko supostamente tem um pesadelo e grita em busca de socorro. Sook-Hee, então, vai até seu quarto para acalmá-la e se deita com ela. Em outra cena, na qual Sook-Hee é apresentada formalmente à condessa, ela se pega desconcertada diante de sua beleza e tem o seguinte pensamento (revelado somente a quem assiste): “Mas que inferno! O conde deveria ter dito que ela era tão bonita, estou completamente desconcertada”. Em seguida, Hideko pergunta a ela se gostou da casa e, antes da resposta da criada, complementa: “Sabia que o Sol quase não entra aqui? O meu tio não permite… Os raios de Sol desbotam os livros. Ninguém gosta de lugares tão sombrios”, já trazendo um sentimento de compaixão à personagem.
No início, apesar dos sentimentos de empatia e paixão já estarem crescendo, Sook-Hee tenta se concentrar em seu papel: fazer Hideko se apaixonar pelo conde. Afinal, ele lhe prometeu dinheiro e joias, e isso mudaria sua realidade financeira. Por isso, logo depois das apresentações formais, ela diz à condessa que Fujiwara (o conde) fala muito bem dela, que “toda noite na cama ele pensa em seu rosto”. A condessa finge acreditar, mas não pergunta muitos detalhes. Ao longo da trama, Sook-Hee faz vários comentários desse tipo, como “suas unhas dos pés crescem mais rápido quando vê o conde” ou “desde que o conde chegou, suas bochechas estão mais coradas” e, muitas vezes, irrita a condessa, que claramente não está apaixonada por Fujiwara.
O filme é repleto de cenas eróticas, envolventes e calorosas. A primeira delas consiste em Sook-Hee raspando um dos dentes de Hideko com os dedos, após ela reclamar que estava afiado demais e cortando. Neste momento, Hideko está tomando banho em uma banheira e, em volta dela, há produtos de banho como óleos e hidratantes, que deixam a cena mais composta e detalhista. Ela está nua e seu olhar e da criada se cruzam, ao mesmo tempo em que o enquadramento da câmera se movimenta e desce para os seios da condessa, representando o olhar de Sook-Hee.

Em outra passagem, o recurso utilizado pela produção é semelhante: quando Sook-Hee tira o vestido de Hideko, o enquadramento desce e se movimenta para suas costas, representando, novamente, o olhar da criada. Ali, a intimidade das personagens vai sendo construída e em cenas seguintes, Sook-Hee começa a ficar desestabilizada quando vê aproximações entre condessa e Fujiwara. Paralelamente, a primeira cena de sexo entre as protagonistas ocorre sob o contexto que a condessa pergunta a Sook-Hee a respeito do que “os homens querem” depois do casamento (referindo-se à noite de núpcias) e alegando que ela é muito ingênua e inexperiente para saber. A criada, então, comovida (e interessada), dispõe-se a mostrar, na prática, “o que os homens querem”.
Ao se beijarem, Hideko se sente tomada de emoção e excitação, e pergunta: “Essa é a sensação?”, enquanto Sook-Hee, para não sair da personagem e justificar as seguintes ações sexuais, responde: “É isso que você vai sentir pelo conde”. Na sequência, as personagens fazem sexo, explorando mutuamente seus corpos e prazeres, ao mesmo tempo, narrando e acrescentando suas percepções, como no momento em que a criada, ao fazer sexo oral em Hideko, diz: “É tão quente, úmido, macio e fascinantemente lindo”. Sobre essas cenas, em uma entrevista à Folha de São Paulo, o diretor afirma que tentou, ao máximo, se afastar de objetificar os corpos das mulheres. Não à toa, nas passagens em que as personagens faziam sexo, segundo o site Adorocinema, Park Chan-Wook proibiu a presença de homens no set, inclusive ele mesmo, e construiu um ambiente “com pouca iluminação, velas, música e vinho para facilitar o relaxamento das envolvidas” (Leone, 2023).
Tal afirmação do diretor remete ao que conversamos na mostra Toda nudez será castigada, no dia 16/08, sobre nem toda imagem sexual ou erotizada ser objetificada. “Objetificar implica transformar em objeto, retirar a agência. A ideia de que um corpo erótico seja sempre objetificado implica na crença de que nenhum pessoa, nunca, tenha algum desejo que perpasse seu corpo. Implica, mesmo, até no julgamento moral sobre fetiches” (Wittmann, 2022). Isto é, taxar toda e qualquer cena de sexo como objetificada, além de beirar o conservadorismo, restringe a possibilidade de incômodo que o filme é capaz de nos gerar, além de limitar a representatividade da multiplicidade de desejos e erotismos. Neste sentido, Isabel Wittmann, em Reflexões sobre sexo e nudez no cinema (2022), afirma: “É claro que podemos problematizar a erotização da violência sexual, o olhar masculino e a objetificação. Podemos questionar para o prazer de quem as imagens são criadas, que desejos elas representam, quais discursos extraímos delas” e, ainda, complementa que “extirpar toda e qualquer presença desses elementos entendidos como incômodos de toda arte é como jogar o bebê fora com a água do banho”.
Esse debate é extremamente importante, uma vez que, segundo uma pesquisa conduzida pela UCLA, os jovens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) preferem que não haja cenas de sexo nos filmes, veem como “desnecessário”. O que nos leva a questionar: o que define o que é necessário ou não nas produções audiovisuais? Por que a representação dos desejos e fetiches estão sendo vistas como de menor importância, a ponto de serem generalizadas como negativas? Wittmann (2022), acrescenta: “Eu não quero menos cenas de sexo só porque uma parte das que vemos hoje são “problemáticas” ou desinteressantes. Eu quero mais, feitas por gente mais diversa, com outros olhares (feministas e queer, entre outros)”.
Em A Criada, por exemplo, o diretor cumpre com maestria o papel que tinha proposto: as cenas de sexo são intensas, brincam com a fronteira entre o implícito e o explícito, envolvem quem assiste e, ainda, são cenas bem construídas com todo um enredo por trás. Ao contrário do que pensa o discurso conservador, as cenas que apresentam objetificação sexual da mulher não necessariamente precisam envolver nudez, como acontece em A Criada. Hideko é vista como símbolo sexual, não nas cenas de sexo, mas ao ler livros pornográficos para homens ricos, para que eles – ao observarem a condessa lendo passagens sexuais – fiquem envolvidos com a narrativa erótica e comprem os livros de seu tio.
Mas, voltando à narrativa da produção, as personagens – gradualmente – ficam mais íntimas não só sexual, mas emocionalmente, como fica explícito quando Hideko diz: “Eu poderia ter sido feliz se tivesse você aqui comigo”. Nessa passagem, Sook-Hee desvia de sua afirmação e diz que ela irá amar o conde e, por isso, deveria se casar com ele. Hideko rebate com a fala “mesmo se eu dissesse que amo outra pessoa, você iria querer que eu me casasse com ele?” e, diante da confirmação da criada, Hideko se irrita e a empurra com agressividade. Afinal, ela esperava que Sook-Hee declarasse seu amor por ela, e que não lhe deixasse casar-se com outra pessoa.
O conde e a condessa, enfim, se casam. Depois disso, é hora de executar a segunda parte do plano: internar Hideko no hospício. Mas, neste momento, quem é vista como louca e entregue à internação é Sook-Hee – e aí está o 1° plot twist da produção. Mas, posteriormente, fica claro que era tudo armação das protagonistas (2° plot twist) que, em dado momento, revelam uma à outra que o conde desejava enganar ambas. Diante disso, elas se unem para derrotá-lo. A criada, então, foge do hospício e a condessa envenena a bebida de Fujiwara, para que ele passe mal, seja capturado e levado ao tio de Hideko para ser torturado.
Hideko e Sook-Hee, finalmente, conseguem fugir e o longa termina com uma cena de sexo das protagonistas (que, pessoalmente, achei linda), em que elas dão beijos calorosos e passam a sensação de ternura e alívio, por terem conseguido ficar juntas. Esse final não só é positivo para trazer representatividade às lésbicas nas produções audiovisuais (uma vez que, como citei na crítica sobre The World to Come, a maioria delas nos mata ou nos dá um fim trágico), como para trazer uma resposta à sociedade machista e heterocentrada, que, como bem afirma Tânia Navarro Swain, enxerga mulheres lésbicas como sozinhas, desacompanhadas, vulneráveis e reféns da própria sorte (Swain, 2000, p.11).
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Ah-ga-ssi
Onde assistir: Não está disponível em nenhuma plataforma
Classificação indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: A narrativa é complexa de ser compreendida, com cenas de sexo e violência.
Gênero: Drama e romance
