
Eu estava na minha casa, em um momento feliz com minhas amigas, era uma festa comum do ambiente republicano. Foi quando chegou esse homem, mais velho, conhecido e que não está na universidade há alguns anos.
Ele chegou entrando, sem nem mesmo ter sido convidado, e falando com todas as pessoas. Eram papos estranhos, aproximação demais e insistência fora do normal quando ia dar em cima de alguma menina. Tudo isso foi se tornando um problema naquela noite. A presença não desejada e as importunações recorrentes me fizeram ir atrás dos colegas dele.
Eles afirmaram que também estavam desconfortáveis com a presença dele. No entanto, não podiam fazer nada, já que aquele homem ocupa um lugar alto na hierarquia da casa – que é como as repúblicas de Mariana e Ouro Preto se dividem, com uma ordem dos mais velhos para os mais novos na casa; e os mais velhos detêm mais respeito.
“Ele é ex-aluno, não podemos fazer nada.”
Mas, dependendo do lugar na hierarquia, é permitido assediar sem que ninguém fale nada? Você é sobre-humano? Não existe punição para ex-alunos? Pensei sobre essas questões durante muito tempo, mas vejo que elas ficam sem resposta diante das consequências para pessoas de república que assediam e importunam mulheres.
As consequências – desses crimes – não são tratadas com a seriedade que deveriam. A grande punição? No máximo, ser “catado” – que é a expulsão da casa. É preciso coragem para enfrentar esse modo de funcionamento próprio da bolha republicana, porém somos constantemente desestimuladas a agir. Seja porque são ex-alunos, mais velhos, ou simplesmente porque é difícil nadar contra essa correnteza forte e bem estruturada.
Nesse dia, ele foi embora da minha casa depois de ter assediado todas as pessoas que moravam aqui. Ficamos, desde então, aterrorizadas com a presença dele em qualquer lugar, e mesmo depois desse episódio, ele continua no mesmo lugar naquela parede de quadrinhos e fui obrigada a cumprimentá-lo com educação quando nos encontramos.
Relato anônimo
