O ambiente republicano e as festas universitárias em Mariana e Ouro Preto em tese nos dão liberdade para ser quem somos e fazer o que desejamos, desde beijar quantas pessoas quisermos até performar a sexualidade e gênero com certa segurança nesses locais. Porém, algumas noções de consentimento parecem ficar confusas com as experiências que temos ao longo do tempo.
Principalmente para as meninas e mulheres — digo isso pois existem as recém-chegadas na universidade, com menos de 18 anos —, os homens aparentam não entender os limites impostos por elas, com seus corpos e sexualidade. Parece óbvio, mas é preciso dizer mais uma vez que uma mulher dançando, por exemplo, não é um convite para qualquer pessoa invadir esse espaço.
Não é porque uma pessoa está dançando livremente que ela, primeiro, deseja a companhia de alguém e, depois, que ela está “se oferecendo”. Muitas vezes a dança tem como único objetivo ela mesma e a diversão. No entanto, os parâmetros do consentimento e do desejo ficam deturpados com tamanha liberdade experienciada pelos jovens ufopianos*, no sentido de entenderem que têm “passe livre” com todas as pessoas, o que não é verdade.
Ao chegar a uma festa, ou rock*, é comum observar pessoas flertando, claro, mas também são comuns as cenas em que homens insistem de forma incisiva — e até violenta — para ficar com as mulheres. Ou mesmo afirmarem que são “amigos” e “é só um beijo, o que tem demais?”. O que tem é a falta de vontade, simples. Quando falamos da autonomia nesse ambiente, é, inclusive, a autonomia de dizer não.
Sobre a sexualidade, outra obviedade precisa ser dita: se uma mulher é lésbica, ela não vai beijar um homem apenas por ele ser “amigo”. E, na verdade, esse motivo é suficiente para um amigo não pedir para ficar com uma mulher lésbica, certo? Essas percepções básicas aparentam ficar de lado nessas ocasiões.
Sinto que existe quase uma obrigatoriedade de viver “intensamente”, beijando, frequentando festas e bebendo em grande quantidade. Mas é importante lembrar que fazer ou não essas escolhas cabe somente a nós, que sabemos nossos limites e nos conhecemos, ninguém mais pode limitar nossa liberdade. Infelizmente, ainda é preciso dizer mais de uma vez, ou até mesmo gritarmos, para sermos ouvidas.
A cultura em que estamos inseridas nos coloca em uma situação contraditória, diz que temos toda a liberdade, mas essa liberdade é utilizada contra nós, mulheres. É como se fôssemos tão livres que não pudéssemos dizer não. É essencial que possamos entender e enxergar esses acontecimentos como crimes, o que eles são, e que não demos continuidade a práticas como essas.
Muito se fala sobre a independência, mas é indispensável que essa independência seja integral e não nos aprisione nas mãos de homens que se dizem “evoluídos” mas não respeitam nosso próprio corpo. Estejamos atentas por nós e por aquelas que estão ao nosso redor.
*Jovens que estudam na Universidade Federal de Ouro Preto
*Como as festas de república são chamadas em Mariana e Ouro Preto
