Quando pensamos na adolescência ou na jornada de amadurecimento por que passamos, certamente existem arrependimentos, lembranças boas, sentimentos dúbios ou um pouco de tudo isso junto. Este processo é, de fato, desafiador e cheio de momentos marcantes que vão formar quem somos/seremos enquanto pessoas adultas. É nesse período também que exploramos nossa sexualidade, nossos gostos pessoais e começamos a entender que lugar — político, inclusive — ocupamos no mundo.
Sem Coração (2024) trata desse período da vida de Tamara, interpretada por Maya de Vicq, da personagem “Sem Coração”, interpretada por Eduarda Samara, e um grupo de amigos no litoral de Alagoas. Dirigido por Nara Normande e Tião, o filme se passa em 1996 e é a extensão do curta-metragem homônimo de 2014. Ele traz algumas experiências conflituosas sobre amor, violência e realidade brasileira, sem tirar de vista a questão da sexualidade, já que desenvolve uma relação sáfica entre as duas personagens principais.
Em um passado não tão distante, mas o suficiente para não haver celulares naquele local — assim como em alguns locais do Brasil que, ainda hoje, não tem a presença destes aparelhos —, a narrativa nos transporta para as últimas férias de Tamara na vila pesqueira onde mora com sua família e amigos antes de se mudar para Brasília, onde vai estudar. A rotina era ir para praia, nadar, conversar entre si, invadir algumas casas desocupadas e assistir a fitas VHS pornográficas — um retrato bem jovem. Pensando nesse momento de intensa exploração das sexualidades, ainda inexperientes, o grupo de menos de 10 pessoas se masturba sem pudor, gasta o tempo falando sobre suas impressões do mundo e expectativas sobre a vida.
Como o lugar é pequeno, todos se conhecem e as realidades daquelas pessoas se chocam. Existe a diferença de classe, que é fundamental para entender algumas relações do longa — principalmente de uma das protagonistas, Tamara, que tem uma condição privilegiada em relação aos seus amigos —, a diferença de raça, que determina a maneira mais brutal como as pessoas pretas serão enxergadas, por exemplo. E, claro, existe a relação de gênero, pois o processo de amadurecimento das meninas é mais duro e até mesmo violento.
Quando Tamara avista uma jovem misteriosa com uma cicatriz no peito, um sentimento diferente cresce dentro dela, uma admiração sem nome começa a ganhar espaço. “Sem Coração”, como é conhecida por conta da cirurgia que fez quando mais nova, tem uma vida bem distante de sua colega, já que precisa trabalhar pescando para garantir a sobrevivência de sua família. Em um trecho do filme, fica subentendido que, para complementar a renda, ela transava com alguns meninos da região em troca de dinheiro.
As duas desenvolvem uma amizade e parceria que vai se transformando num desejo. Até que, por fim, elas se beijam, como concretização de suas vontades e representação da liberdade da juventude. Elas podem ser quem desejam por uma fração do tempo, na tarde em que se encontram na casa abandonada e véspera de uma separação, já que Tamara está deixando a vila em breve.
Mas é importante observar a distância de realidades das duas meninas, que habitam o mesmo local mas em mundos diferentes. Enquanto Tamara pode sair da vila para buscar boas condições de estudo com o apoio dos pais, “Sem Coração” enfrenta a dureza de trocar estudo por trabalho e não tem perspectivas de “mudar de vida”. É interessante pensar sobre a construção de feminilidade das duas, já que compartilham o mesmo gênero e idade, mas possuem responsabilidades e pesos diferentes de ser mulher. Até mesmo porque “Sem Coração” é uma menina preta e pobre, enquanto Tamara é branca e de classe média.
É impossível ignorar essas sensações, assim como é impossível ignorar a baleia encalhada na praia — feita em tamanho real pela direção de arte do filme —, que representa os medos, o ato de descobrir e explorar aquilo que, de tão grande, não sabemos como lidar. O filme explora a adolescência bem como essa fase complicada, repleta de ansiedade, medo do novo e receio do que está por vir. É o sentimento de querer fazer tudo mas se deparar com uma sociedade desigual, racista, machista e que poda alguns de nossos sonhos.
Sem Coração trata de um crescimento em conjunto, com suas diferenças demarcadas, mas em um movimento intenso de lidar com a nova fase da vida chegando. É perder a inocência infantil e começar a “sair do ninho”, pensando, claro, que alguns personagens possuem tempos diferentes, mais ou menos privilégios e até um certo nível de violência. A obra aborda desde o mais sensível até o mais duro, visitando, de maneira breve, diversos pontos da imensidão confusa que habita em nós no processo de crescer.
Tamara, Sem Coração e todo o grupo de amigos nos convidam a observar, e até olhar com mais carinho, para a adolescência. Elas nos lembram como é difícil, como dá medo e como é preciso mais compreensão nesse momento.
Para elaborar o texto, li algumas críticas que me ajudaram a construí-lo e entender alguns pontos do filme. São eles:
Críticas do AdoroCinema – Sem Coração
Sem Coração no Centro da Terra
‘Sem Coração’: Um poético estudo sobre as dores e descobertas do crescimento humano – Mídia NINJA
Serviço:
Título Original: Sem Coração
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: O filme aborda a juventude de forma consistente e próxima ao real, com altos e baixos.
Gênero: Amadurecimento; Drama; Ficção.
Por Lia Junqueira
