Assédio: embate entre estrutura de poder e performatividade masculina

Era uma sexta-feira, dia de terapia, pós-almoço no chamado “prédio da gerência” na fábrica onde trabalho. Tinha acabado de comer uma deliciosa feijoada com aquele gostinho de esquenta do final de semana, sabe!? Minha chefe já tinha até ido embora, eu estava nas últimas tarefas do dia, só iria escovar meus dentes, seguir com as atividades e pegar o ônibus que sairia a uma hora depois.

Entrei no banheiro masculino, o qual demorei algumas semanas para me acostumar a utilizar – porque banheiros compartilhados não me deixam confortável – e começo meu ritual da escovação, que aprendi desde criança. Durante esse processo, o diretor da fábrica entra no banheiro e eu logo me recordo das histórias ruins de uma das pessoas mais importantes da fábrica. Ele estava ouvindo algum áudio sobre trabalho e eu aceno com a cabeça, cumprimentando com neutralidade. 

Depois dessa breve interação, dou a licença necessária para ele ir ao mictório. Após alguns segundos, percebi que o áudio havia acabado dando espaço para um silêncio preenchido brevemente pelo barulho da minha escovação, e isso por si só me deixava desconfortável. Por não estar ouvindo mais nada, tento observar pelo espelho alguma movimentação e a escova de dente recebe mais velocidade, para que eu conseguisse sair mais rápido dali. 

O desconforto se somava a algumas outras coisas também: uma noite mal dormida preenchida com pesadelos, o cansaço da semana, as atividades inacabadas, a blusa polo que eu estava, que estava mais curta do que o comum, e, claro, o fato de estar sendo incomodado por essa situação. Importante mencionar que o incômodo não se dava pelo modelo da camiseta, mas sim por ela estar curta no meu corpo. Curta a ponto de possivelmente mostrar minha cintura em um ambiente bastante heterocisnormativo, algo que um gay afeminado – como eu – usaria.

Depois de usar o banheiro, o diretor se aproxima da pia onde eu estava para poder sair e eu começo a racionalizar as alternativas para conseguir dar a passagem a ele. Caso eu me afastasse para a esquerda seria para ele ir à saída, caso eu me direcionasse para a direita seria para ele lavar as mãos após o uso do banheiro. Considerei, por motivos de higiene, a segunda alternativa e estava confiante e decidido em relação a essa ação. 

Ele se aproxima, eu me movo à direita, parando a escovação, até que sinto as duas mãos sobre a blusa polo, que já me deixava desconfortável naquele ambiente. As mãos posicionadas, sem a minha permissão, me deixaram imóvel e sem saber o que estava acontecendo. Naquele momento não consigo lembrar nem o lugar que eu estava olhando, estava tudo escuro para mim. Era o estagiário da fábrica, seu diretor e o silêncio do banheiro. Aquele homem que nunca tinha dirigido a palavra a mim estava com as duas mãos no meu corpo.

Esse movimento, que durou frações de segundos, foi somado à sua passagem atrás de mim. Achei que tinha acabado a situação, mas ao passar por mim, pude sentir a genitália dele. Ele conseguiu me violar mais uma vez. Lembro que, após a saída do homem do banheiro, eu olhei para o espelho e soltei “Não acredito”, frase que ecoou.

Depois disso o gosto de “esquenta do final de semana” já havia passado e foi substituído por aquele amargor de quando você escova os dentes e come algo depois. Saio do banheiro e fico me questionando repetidamente se aquilo realmente aconteceu, se foi proposital, se havia espaço para ele passar. Olho ao redor e minha chefe, com a qual tenho uma ótima relação, já tinha ido embora e o meu amigo de trabalho também. Estava sozinho. Mando uma mensagem breve ao meu namorado comentando sobre possivelmente ter sofrido um abuso. Preocupado, ele me envia diversas mensagens e eu sigo fazendo minhas atividades pendentes.

Mas então… O que fazer depois disso? Denunciar o abuso sexual do diretor casado da fábrica? Penso que não, uma denúncia desse gênero contra um homem de meia idade, com anos de empresa, que cultua a masculinidade, já teria um desfecho pronto. Finalizo minhas tarefas e vou responder as mensagens, deixo o meu parceiro mais despreocupado e comento com ele que talvez não tenha sido “nada demais” – eu ainda acreditava nisso. 

Ao relatar isso, diversas interpretações me vêm em relação ao assediador, ao homem que possivelmente reprime sua sexualidade e a deixa escapar invadindo, sem consentimento, outros corpos. Ele possui já alguns casos de importunações com mulheres e homens em seu “portfólio”, que são comentados na surdina, mas que não o excluem do lugar da masculinidade que ele se apega. Na medida que isso ocorre, corpos de gays jovens afeminados – e até mesmo sexualizados pela sociedade – são a válvula de escape para essa sexualidade reprimida. É, então, nesse momento que a liberdade se embate com a repressão.

Depois de ocupar minha cabeça com as tarefas, pego meu ônibus para casa e penso: “Se fosse um homem hetéro, ele faria isso?”. Tiro minhas conclusões, e o gosto delicioso de feijoada é preenchido pelo amargor de ter que voltar ao trabalho de novo na segunda-feira.

Naquele mesmo dia abro a caixa de pandora com minha terapeuta sobre outros abusos que vivi, revivo e tento compreender como isso me afeta. Na mesma noite vou a uma festa e fico desconfortável com qualquer toque, aproximação ou expressões corporais. Exemplo disso é que até o toque do meu namorado se tornava, naquele dia, áspero e desconfortável. Essa sexta me afetou e vai demorar para passar, assim como as outras violências. Como diz minha terapeuta: “Na próxima sessão a gente volta nisso”.

Deixe um comentário