O audiovisual sustenta o peso do #MeToo?

Duas mulheres brancas, de cabelos castanhos compridos lisos, conversam. Uma delas está de perfil, tem franja, usa camisa sem manga cinza e está sentada em uma mesa. A outra está sentada na cadeira, com blusa de manga curta azul, e segura um celular.
As atrizes Carey Mulligan e Zoe Kazan em Ela Disse. Divulgação

Em setembro deste ano, mulheres do Reino Unido reagiram com revolta à decisão da Promotoria britânica de interromper o andamento de duas acusações de abuso sexual contra Harvey Weinstein no país. O caso do ex-produtor de cinema de Hollywood foi, entre 2016 e 2017, um dos maiores combustíveis do movimento #MeToo (#EuTambém), em que mulheres vieram a público, nas redes sociais ou na Justiça, denunciar violações contra homens poderosos da mídia dos EUA, entre os quais R. Kelly, Kevin Spacey e Bill Crosby, e de outros setores, como esporte, finanças e política.

Rowena Chiu, que acusou Weinstein de tentativa de estupro em 1998, no Festival de cinema de Veneza, quando era assistente dele, disse ao jornal The Guardian que, uma década depois, ela e outras mulheres ainda estão aqui, ao contrário de quem pensava que o #MeToo seria um movimento passageiro e apesar da decisão da Justiça britânica.

De fato, o #MeToo continua aqui, junto com as mulheres que tiveram coragem de denunciar – e com as que tiveram a coragem de sobreviver. Continua, também, no audiovisual – com resultados bastante distintos no cinema e na TV. Em 2019, o filme O Escândalo (Bombshell), “baseado em fatos reais”, narrou os casos de violência de gênero do ex-CEO da Fox News Roger Ailes de modo honesto, mas tímido.

A foto mostra três mulheres brancas de pé em um espaço fechado, em plano americano. A primeira tem cabelos curtos loiros, usa vestido azul e está com cara de furiosa. A segunda tem cabelos lisos nos ombros e usa vestido rosa. A terceira tem cabelos longos, lisos e loiros, e usa vestido preto com detalhes vermelhos.
Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie em O escândalo. Divulgação.

Três anos depois, Ela Disse (She said) mergulha na investigação do jornal The New York Times que primeiro expôs Weinstein. O filme é baseado no excelente livro jornalístico de mesmo nome, escrito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey. É também honesto, bem feito e bem atuado – mas igualmente não avança até onde poderia, apesar de uma ótima representação do processo jornalístico.

Na TV, o badalado The Morning Show trouxe o assédio sexual em uma emissora como premissa. A primeira temporada orbitou em torno das revelações dos crimes de Mitch Kessler (Steve Carell, perfeito), âncora de um conhecido jornalístico matutino, e do terremoto das implicações nas vidas de quem ele abusou – e de quem o acobertou ou foi conivente por décadas.

Mas veio a pandemia e, claramente, a série se perdeu na segunda temporada. Em vez de permanecer com o problema (emprestado de Donna Haraway), enfrentá-lo, a narrativa desvia o olhar. Mitch morre sem ser adequadamente responsabilizado, à parte o ostracismo milionário numa villa italiana e uma entrevista/mea culpa.

A imagem mostra uma mulher e um homem sentados em bancada de telejornal. Ela tem cabelos castanhos claros lisos e olhos verdes e usa camisa preta. Ele tem cabelos acinzentados, usa óculos, terno e tem barba por fazer.
Jennifer Aniston e Steve Carell em cena de The Morning Show. Divulgação.

A terceira temporada, levada ao ar em 2023 na Apple TV+, tenta manter o assunto à tona, com as consequências dos atos de Mitch pairando sobre a redação e o assédio sexual no ambiente de trabalho à espreita. A estratégia é bem sucedida em alguns episódios; em outros, nem tanto. Mas a série consegue, ao menos, propor algum tipo de interseccionalidade à representação.

E temos Emily em Paris. Que parece, desde a estreia em 2020 na Netflix, um lugar pouquíssimo propício para discutir um assunto denso, triste, difícil e pantanoso como assédio sexual. Na quarta temporada, lançada entre agosto e setembro deste ano, a personagem Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu), dona da agência publicitária de luxo em que Emily (Lily Collins) trabalha, revela a uma jornalista que o dono de um conglomerado de moda a assediara na juventude, com modus operandi que se repete ainda no presente.

Sylvie demora a decidir se revelar como sobrevivente, talvez ciente do peso que ocupar publicamente essa posição carrega. Ou carregaria. Em Emily, o assunto rende uma conversa aqui, outra ali, num episódio, e nenhuma outra grande consequência.

O tema desaparece da série como uma coleção passada, uma subtrama para salpicar de profundidade a rasíssima narrativa da produção. O Balance ton porc, equivalente francês do lema #MeToo, sequer é mencionado na brevíssima aparição do assédio como tema, ou acessório narrativo descartável, moda passageira.

Enquanto o audiovisual tenta elaborar minimamente um movimento importante desta onda feminista, parece claro que, até aqui, a ficção total não tem dado conta de sustentar o peso e os impactos da discussão. As produções próximas de casos reais têm sido mais capazes de situar a discussão – mas ainda estão longe, muito longe, de alcançar o lugar de onde Rowena Chiu e outras centenas, milhares de sobreviventes falam. Para um filme, uma série de TV, é fácil partir. Para elas, é o que permanece.

Por Karina Gomes Barbosa

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