Qual é o lugar do abuso sexual masculino? Caso Lyle e Erik Menendez

Quando um crime choca o país em 1989 e as investigações começam, os principais suspeitos são os próprios filhos do casal assassinado. Mas o que ninguém sabia sobre a família rica e importante de Los Angeles é que os meninos eram vítimas de abusos durante a vida inteira. Estamos falando do caso da família Menendez, que foi destaque nos anos 90 e voltou à tona agora em 2024 com o lançamento da série Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais da Netflix. 

Criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, a trama conta o percurso desde a morte de Jose (Javier Bardem) e Kitty Menendez (Chloë Sevigny), até o julgamento de seus filhos, Lyle (Nicholas Alexander Chavez) e Erik Menendez (Cooper Koch). Explora aspectos reais do caso, com base nas notícias e materiais jornalísticos e televisivos da época e misturando com ficção, o que dá uma certa leveza para a narrativa de true crime (crime real, na tradução).

Créditos: Os filhos e o pai em cena da série

Logo no primeiro episódio é possível enxergar a relação conflituosa que existia na família, com violência verbal e comportamentos explosivos dos meninos, Lyle e Erik — que, na época, tinham 21 e 18 anos respectivamente. Porém, é preciso fazer a ressalva de que a forma como eles são representados não é completamente fidedigna à realidade, claro. Até porque, após o lançamento da série, alguns parentes vieram a público dizer que “Esse não é o jeito do Lyle. Na verdade, ele nunca nem levantou a voz dessa maneira”, alega a tia dos irmãos em um vídeo do TikTok.  

Então, antes de qualquer coisa, é fundamental fazer a reflexão de que muitos dos acontecimentos, ou a forma como eles são reproduzidos, podem estar bem distante da forma com que eram de fato. Com fins ficcionais e televisivos, obviamente fica mais atrativo polarizar a situação — que já dividiu a população norte-americana no primeiro julgamento em 1993 —, colocando um irmão mais violento, briguento e o outro mais sensível, trazendo a dualidade entre o bem e o mal. No entanto, quando trata-se de crimes reais e ficção, os fatos têm muito mais profundidade do que os 9 episódios da série; existem vidas reais e pessoas que estão, até hoje, lutando por suas versões do crime. 

No artigo “A análise psicológica no True Crime: um estudo dos podcasts Modus Operandi e Assassinos em Série”, de Carlos Jáuregui e Luana Viana, é citado o interesse e consumo crescente por crimes reais no âmbito das mídias (seja podcast, como analisado no trabalho dos dois, séries ou filmes), e mais, como o público deseja entender essa “mente criminosa”. Os autores comentam sobre a criação de uma relação de atração/humanização e distanciamento/diferenciação, que estaria “ligada ao contexto sociocultural da sociedade   norte-americana, caracterizado por uma paranoia em relação a crimes violentos. Ao saber mais sobre esses personagens, o consumidor de True Crime experimentaria uma sensação de segurança, como se ter acesso aos meandros dessas mentes significasse também mais recursos para sobreviver aos perigos do mundo cão”. 

Com isso, entendemos que a relação criada entre o produto e o público tem o poder de elaborar, no imaginário das pessoas, como são esses serial killers (assassinos em série), de aproximar e dividir opiniões sobre os casos — há também quem tenha medo de que “inspirem” novos casos. No entanto, há uma diferença quando falamos de true crime representado por jornalistas e comunicadores e, por outro lado, aquele representado no audiovisual de forma ficcional. O que deve-se prestar atenção é: as representações fantasiosas desses personagens podem deturpar nossa visão do real e do que é criado para fins apenas de entretenimento. 

É evidente que Lyle e Erik da série têm muito do real, do que vivenciaram na época, de como eram fisicamente e dos traumas, porém, o que fica conflituoso é a construção violenta dos dois com as pessoas e uma possível relação “romântica” – incestuosa – entre os irmãos. Segundo relatos da família, os dois sempre foram tranquilos e carinhosos, sem qualquer demonstração de raiva extrema ou violência com outras pessoas ao redor. Sobre a possível tensão sexual, também é falsa e foi, inclusive, criada apenas para fins ficcionais, que dá um tom apelativo e sensacionalista para o programa. Em uma cena após o assassinato dos pais, os irmãos dão uma festa regada a álcool e drogas e dão um selinho, representando esse desejo entre os dois.

Além disso, existe a suposição de que Erik seria um homem gay — e é claro que não teria qualquer problema com sua orientação sexual —, porém, ele não é e isso foi utilizado pela promotoria contra ele, alegando que ele poderia “gostar” dos abusos e por isso até começou a gostar de homens. O que configura uma homofobia profunda, que iguala o amor a outros homens ao desejo por práticas sexuais perversas. 

Não são somente esses erros que a série retrata e, inclusive, a forma com que as imagens do momento da morte de Jose e Kitty são repetidas algumas boas vezes, trazendo esse trauma – e, claro, registros de muita violência –, só que de forma equivocada com a realidade. Os tiros, na série, são disparados de frente, atingindo rosto e desfigurando o casal, e, no caso real, foram de costas. Essas e outras questões me incomodam pessoalmente, fazendo os questionamentos: qual é o limite na representação de crimes no audiovisual e/ou de forma ficcional? É possível “adaptar” crimes reais sem que isso cause desconforto e traga de volta traumas ao presente? 

Os questionamentos ficam em aberto, talvez não haja uma resposta certa ou única, mas servem para estimular nossas reflexões sobre o tema. 

Os abusos sexuais subestimados e relativizados pela promotoria 

Após a prisão dos irmãos em 1990, depois de Erik confessar para seu psicólogo ter cometido o crime, eles contrataram advogadas de defesa, que começam os atendimentos com os dois. Leslie Abramson (Ari Graynor), nome conhecido em outros casos da mesma época em Los Angeles, e Jill Lansing (Jess Weixler) foram escolhidas pela família para representar o caso. 

Logo nas primeiras conversas que tiveram, Leslie questiona se houve algum acontecimento que pudesse mudar o tom do crime, como algum abuso ou violência dos pais com Lyle e Erik. No entanto, nesse momento os meninos temiam contar sobre o que viviam e hesitavam em falar qualquer coisa. Com o passar do tempo eles ganharam mais confiança nas duas profissionais e resolveram contar o que acontecia dentro da residência Menendez desde que o irmão mais velho tinha entre 6 e 7 anos de idade. 

O momento em que eles conseguem falar abertamente sobre os traumas individualmente e descrevem os estupros e abusos que sofreram, inclusive, com um episódio emocionante feito em um único plano, nos envolve ainda mais na trama. Um relato de abuso sexual infantil é impactante por si só, ainda mais quando é com um membro da família e, com isso, a defesa decide que este será o principal argumento utilizado por elas para alegar “legítima defesa”. 

Chega o momento do julgamento em 1993 e, como o caso ficou muito conhecido, havia cobertura midiática ostensiva sobre os irmãos, logo, criou-se uma atmosfera de programa televisivo com acompanhamento massivo. Sendo assim, as advogadas prepararam os dois com roupas em tons pastéis e até uso de óculos – mesmo sem que houvesse necessidade oftalmológica –, tudo para convencer a opinião pública de que eles não eram aqueles monstros terríveis. 

Lyle inicia os relatos e, seguido por Erik, eles expõem e denunciam tudo que viveram durante anos, entre lágrimas e com a presença de todas as violências muito latentes. Com depoimentos de outros familiares, que acreditavam e tinham provas a favor dos irmãos, como a carta que Andy, primo, recebeu em 1988. 

Carta original escrita por Erik Menendez enviada ao seu primo Andy em 1988

Nela, Erik relata as brigas da família, que tornavam-se insustentáveis ao longo do tempo e que os abusos “ainda estão acontecendo todo dia, mas estão ficando cada vez piores”, em referência ao que Jose fazia com ele e como o jovem sentia-se em meio a tudo. Este documento, porém, não alterou a percepção da acusação, que insistia na premeditação fria e violenta dos assassinatos com intuito de receber a herança estimada em 14 milhões de dólares.

O júri ficou dividido e o primeiro julgamento foi anulado, deixando a sensação de que “não foi suficiente tudo que relatamos aqui?!” nos irmãos. Porém, é preciso contextualizar um pouco de Los Angeles dos anos 90 e relembrar alguns crimes julgados que “não deram em nada”. Como o feminicídio de Dominique Dunne, em que o assassino, ex-namorado da vítima, não foi condenado, e o famigerado Caso O.J. Simpson, que assassinou sua ex-mulher, Nicole Brown Simpson, e seu amigo Ronald Goldman e também foi absolvido. 

Dominique Dunne em Poltergeist

Acredito que esses crimes numa mesma época contribuíram para que o Caso dos Irmãos Menendez “fosse diferente” ou que era preciso ter alguma condenação para que o tribunal não ficasse mal visto ante a opinião pública. Sendo assim, eles foram para o segundo julgamento e, dessa vez, sem câmeras e sem considerar os depoimentos que reiteram os abusos sofridos por Lyle e Erik. 

Era somente o depoimento de cada um dos dois para defesa e suas advogadas – em um julgamento bastante misógino, diga-se de passagem. As condições não eram tão boas, mas, ainda assim, os relatos foram muito comoventes. Porém, nessa altura o júri já estava irredutível e os irmãos foram condenados à prisão perpétua sem direito a liberdade condicional em 1996. 

Com esse desfecho e as alegações da promotoria de que “não existe abuso sexual masculino” ou “por que você não se defendeu”, fico pensando sobre este campo que estamos deixando subalternizado que é o abuso em meninos. Como lidar e retratar esses casos?

Na matéria “Estereótipos masculinos dificultam denúncia de abusos sexuais entre homens” do Jornal da USP, o psicólogo Lucas Mascarim da Silva afirma que os estereótipos de masculinidade dificultam nosso acesso aos casos e nos distanciam deles: “Existe o ideal da masculinidade hegemônica, que é o ideal tradicional do homem forte, que não passa por situações de degradação ou que, quando passa por elas, não abaixa a cabeça e lida sozinho com elas. Esses ideais não dão espaço para que haja o compartilhamento de vivências de sofrimento, adoecimento e fragilidade”. 

E isso pode ser observado não só na série televisiva de Ryan Murphy, mas também no julgamento dos irmãos, que são descredibilizados e quase que acusados de volta: “Como você, um homem, deixou isso acontecer? Então não deve ser ‘homem de verdade’”. Porém, esses fatores são bem mais profundos do que um só caso que nos choca na série, são milhares de homens e meninos abusados, que não conseguem romper com o ciclo de violência, que foram criados para ser “cabra macho” e carregam suas dores. 

O que devemos refletir, enquanto comunicadoras e comunicadores, é sobre a representação de casos assim e a produção de notícias, conteúdos, fotografias ou qualquer outro material. É essencial repensar as formas de escrita, as perguntas que direcionamos para essas pessoas e como vamos contar essa história. O abuso sexual masculino acontece e como lidamos com isso? Quais impressões criamos, na comunicação, sobre esse tipo de crime? 

É preciso pautar, problematizar e, ainda mais, contextualizar o sistema patriarcal que condena meninos ao silêncio que os tortura e gera consequências por toda sua vida.  

Outros textos sobre abuso masculino que são interessantes: 

Homen não chora: o abuso sexual contra meninos 

A compreensão crítica do abuso sexual doméstico contra meninos.  

Alegações de estupro ligam irmãos Menendez a Menudo: “Pode haver outras vítimas“ | CNN Brasil

Serviço:

Título Original: Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: A série retrata violência explícita e relatos de abuso sexual. 
Gênero: Crime real; Drama.   

Por Lia Junqueira

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