
No dia 13/12 a deputada federal Duda Salabert (PDT – MG) participou de uma aula magna do curso de Economia no auditório do Instituto de Ciência Sociais e Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
O tema da aula foi “Economia + Educação: metas para o desenvolvimento”. Duda é formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e tem mais de 20 anos de experiência como professora de Teoria Literária.
Participaram da conversa as professoras Giule da Mata, do Departamento de Ciências Sociais, e Paula Miranda, do Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o aluno de Economia da UFOP Pedro Pereira.
Duda começou a aula falando de suas vivências pessoais e profissionais. Disse que ser uma mulher trans perpassa sua trajetória e por isso ela enfatiza dados e informações sobre a situação de travestis e transsexuais no Brasil. Ela conta que essas pessoas não são vistas como humanas e não têm direitos básicos, como banheiros, nome e identidade. Por isso, ela luta por esse grupo.
Ao falar da comunidade trans, repetiu várias vezes que “A categoria de humanidade no Brasil nunca foi dada. Sempre esteve em disputa”. Ela utilizou como exemplo a história dos negros, que durante muito tempo da história do Brasil não eram considerados humanos. Mas a deputada também deu uma ponta de esperança, pois disse acreditar que um dia essa situação pode, sim, mudar.
Como o tema da aula abordava educação e economia, Duda enfatizou a importância dos investimentos públicos do ensino básico ao ensino superior. Como um projeto do qual ela participa para garantir água potável para 200 escolas de Minas Gerais e o investimento para a criação do Primeiro Centro de Testagem de Vacina no Brasil na UFMG. Outro exemplo são cotas para pessoas trans e travestis nas universidades, que é uma pauta que está ganhando certa visibilidade agora. “Educação não é gasto, é investimento”, pontuou a deputada.
Duda também repetiu algumas vezes a pergunta: “O que você faz com seus privilégios?”. A partir daí ela contou que, quando trabalhava como professora, tirou 300 reais que sobrava do salário e investiu para criar um pré-vestibular para travestis, mas com a falta de demanda percebeu que muitas não eram formadas nem mesmo no Ensino Fundamental. Duda citou a pesquisa feita pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, que demonstra que 91% das travestis e transexuais entrevistadas não concluíram o ensino médio, por isso Duda criou um grupo de Ensino para Jovens Adultos (EJA), focado nas travestis.
Com o projeto e investimento, conseguiram que uma aluna travesti ingressasse na universidade, mas ela logo saiu. Pois mesmo já tendo vivido em situações muito difíceis, a estudante não conseguiu se manter no ambiente universitário. Se sentia “muito burra, feia e a pior pessoa do mundo”. A deputada frisou que desde o início as universidades brasileiras não foram pensadas para todos, sempre foram pensadas para elite.
Durante a aula, outros temas foram política, educação em tempo integral, meritocracia – que não existe, especialmente para pessoas trans – e a extrema violência de uma mulher trans disputar eleições federais. A aula magna de Duda Salabert trouxe à tona a urgência de ações concretas para a inclusão de pessoas trans nas universidades brasileiras. Na UFOP, por exemplo, ainda não existem cotas específicas para essa população, o que evidencia uma negação de direitos e uma lacuna que precisa ser preenchida. Entretanto, é importante ressaltar que cotas, por si só, não são suficientes. Para garantir a permanência de estudantes trans, é essencial que existam políticas de assistência, como moradia, alimentação, apoio psicológico e financeiro, criando condições reais para que possam estudar com dignidade e se sintam pertencentes àquele ambiente.
O caso da aluna travesti que abandonou a universidade por falta de apoio reforça como as instituições ainda não estão preparadas para acolher plenamente a diversidade. Não basta abrir as portas; é preciso oferecer suporte contínuo. Que a reflexão levantada por Duda — “O que você faz com os seus privilégios?” — inspire a UFOP e outras universidades a repensarem seus compromissos com a equidade e a justiça social.
Ana Luiza Rodrigues
