As consequências da liberdade feminina em “Persépolis”

Imagem: Montagem de Ana Beatriz Justino sobre imagens de divulgação

“Vinte anos depois, continua sendo uma leitura urgente e necessária.” Kirkus Reviews. Para algumas pessoas, Persépolis é uma antiga cidade persa que tem suas ruínas no Irã. Para os leitores, Persépolis é a história de uma menina iraniana cheia de personalidade. No livro, Marjane Satrapi conta, em formato de quadrinhos, a história da sua vida sendo uma menina e mulher iraniana no meio de tantas transformações em seu país, desde a revolução islâmica até sua mudança definitiva para a França, um intervalo de 14 anos.

Desde as primeiras páginas entendemos que a criação da protagonista foi bem liberal, ela estudou em um liceu francês até se formar no ensino médio e seus pais sempre a incentivaram a ler livros para conhecer o mundo, desde revolucionários do Irã até Karl Marx. Os conhecimentos adquiridos por essa criação moldam sua personalidade e deram a ela desejos não possíveis de realização em seu país natal. No capítulo “A viagem”, após ver um anúncio do governo na televisão que diz que as universidades do país serão fechadas por imoralidade, ela se entristece ao saber que perderá a oportunidade de se tornar uma nova Marie Curie.

Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

No início do livro, a autora explica que quando o regime foi implantado ela ficou dividida pois, apesar de ser religiosa, ela e seus pais eram bem modernos. Sua religiosidade era tanta que ela queria ser uma profeta nas primeiras 25 páginas do livro. Isso muda com o tempo, mas é interessante pensar em como seria a vida se Deus fosse considerado uma mulher. Estaríamos passando por certas dificuldades? Ou se o Alcorão, livro sagrado muçulmano, fosse traduzido com uma ótica feminista?

No artigo  “Tradição e transgressão em Persépolis, de Marjane Satrapi”, Laisa Marra, doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG, diz que o regime islâmico é baseado no livro religioso Alcorão e que, a partir dele é possível várias interpretações sobre direitos femininos que são utilizados por ativistas feministas. 

Também é a partir de uma compreensão dele, que é permitido que as mulheres se divorciem no Irã, desde que o esposo esteja de acordo com isso no momento do casamento. Essa é uma experiência contada no livro. Alguns anos após retornar da Europa a protagonista se apaixona e se casa, mas seu pai impõe como obrigação que o noivo dela seja de acordo com o divórcio.

Durante uma entrevista para a divulgação do filme de mesmo nome, uma adaptação da história retratada na graphic novel, Marjane diz que não queria que aquilo fosse uma afirmação sociológica, política ou histórica. Mas ser mulher é ser também um corpo político, um corpo social que sofre mais que um corpo considerado masculino. Para além de ser uma mulher, a autora vem de um país considerado subdesenvolvido e lugar apenas de terroristas, desconsiderando as muitas vivências que podem existir junto com uma teocracia. Esse é o principal motivo pelo qual ela decidiu escrever o livro, para contar outras vivências sobre seu país.

Durante a infância, vindo de uma família revolucionária, a jovem Satrapi é cercada por diferentes formas de opressão, desde reprimendas intelectuais até reprimendas físicas. Seu tio Anuch foi preso e morto pelo regime e, antes disso, o livro conta que a mãe da autora, após ser fotografada em um protesto, muda seu visual e se esconde por um tempo para evitar reprimendas do governo.

O livro é cercado de violências de gênero como forma de punição, tanto antes quanto depois que a protagonista vai para Europa. A principal e mais marcante é o caso da jovem Nilufar, que é procurada por todo lado por ser comunista e se esconde na casa de um falsificador de passaporte. Dois dias depois do encontro da autora com a jovem ativista, Nilufar é presa e executada. Algumas páginas depois a mãe de Marjane conta que, antes de ser morta, Nilufar foi estuprada. Segundo as leis, não é permitido matar uma virgem, então eles a casam com qualquer um que passa a ter permissão de estuprá-la. 

Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

Primeira ida à Europa e seu retorno ao Irã

Os pais de Marjane decidem enviá-la à Áustria depois de sua expulsão da escola. Durante esse período de sua vida ela conhece mais da cultura ocidental. Anarquismo, uso de drogas e culturas diferentes da sua, tudo isso com 14 anos. Os choques com a cultura ocidental foram muitos. Ela descobriu mais sobre liberdade sexual, pois na Áustria ela não seria punida por transar com alguém antes do casamento. Teve dois namorados e mudou de aparência mais de uma vez. 

A protagonista foi para um país estranho próximo da puberdade e passou por mudanças físicas muito confusas para alguém tão jovem passar sozinha. Os problemas com identidade também se intensificaram, problemas que muitas garotas nessa fase passam, porém para a protagonista o buraco se torna mais profundo. Antes de se mudar, sua avó diz que ela tinha que ser fiel a si mesma. Ela mente sua nacionalidade por vergonha e como uma tentativa de ser aceita socialmente. Isso acaba com ela por pouco tempo. A autora começa a se entender melhor como uma mulher iraniana depois desse acontecimento.

Os quatro anos passados na Áustria foram de pequenos e grandes ataques xenofóbicos. Desde comentários em seu primeiro alojamento até ser acusada de roubo em seu último alojamento. Em um dos quadrinhos é possível ver xenofobia e racismo, Marjane tem a pele clara e os cabelos lisos e se pergunta se seus “amigos” ocidentais estariam com ela se ela fosse um “menino moreno de cabelo enrolado”.

Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

Ao voltar para o Irã, outro problema além da culpa começa a assombrar a garota, os padrões culturais. No tempo em que esteve na Áustria, eram diferentes dos padrões do Irã. Marjane Satrapi se adaptou, tanto no estilo, quanto no jeito de agir, e as culturas diferentes foram um embate. Quando retornou, os comportamentos que ela reproduzia na Europa se diferenciam no Irã.

E, para deixar a situação um pouco mais complicada, por passar uma parte de sua vida num país ocidental, sua personalidade e forma de encarar o mundo foram adquirindo nuances diferentes. Algumas amigas de infância, apesar de parecerem mais modernas, julgam a protagonista por fazer sexo com seu namorado antes do casamento, uma prática que é considerada crime no Irã, e isso a deixa muito incomodada.

Durante os anos em que retorna ao seu país natal, além de se casar, a protagonista começa a frequentar a universidade, ela cursa comunicação visual. Em um determinado momento do curso os alunos são chamados para uma conferência com o tema “A conduta moral e religiosa” na qual as mulheres foram instruídas a usar lenços maiores, roupas menos largas, entre outras condutas morais. Ao final da reunião, Marjane se opõe e diz sua opinião, por que ela como mulher tem que seguir regras de conduta moral enquanto seus irmãos homens podem andar pela universidade com qualquer tipo de cabelo e com roupas mais marcadas que as mulheres ali presentes? Ela é chamada para a comissão islâmica e, depois da bronca, para sua surpresa é convidada a desenhar uniformes que atendam as alunas do curso.

As transgressões não pararam por aí. Segundo a autora, os detalhes eram os responsáveis pela convocação das mulheres no comitê islamico por serem consideradas imorais, inclusive ela quase foi presa por usar meias vermelhas. Durante todo o livro é possível observar como a vida das mulheres iranianas é cercada de violências impostas pela religião. Marjane passa por assédios e escuta relato de amigas em que a vida da mulher é baseada em estar casada e, se essa mulher demonstra um pouco mais de liberdade, ela é tratada como prostituta e pode ser até presa.

Em uma crítica no site Dana intitulada “Persépolis A (difícil) arte de crescer” O livro é comparado ao impacto de “O Diário de Anne Frank” e “O Diário de Zlata”, obras não ficcionais e autobiográficas que contam a vida de meninas que cresceram em um ambiente de opressão e guerra. Colocar a obra de Marjane Satrapi nessa posição dá visibilidade ao que aconteceu no Irã e entra para a história como uma narrativa lembrada para não se repetir. E, para além, mostra uma perspectiva do Irã diferente da perspectiva ocidentalizada, ajudando a representatividade de mulheres e meninas iranianas que não são muito representadas pela mídia.

A graphic novel Persepolis consegue trazer para os leitores uma perspectiva do Irã diferente daquela retratada em filmes hollywoodianos de ação e dos jornais, exatamente o que era a principal intenção da autora. Em alguns momentos é desesperador ler o que Marjane Satrapi ouviu, viu ou viveu no Irã, tanto pela situação de guerra quanto por ser mulher. Com certeza a avó da autora está orgulhosa dela, onde quer que esteja.

Por Ana Beatriz Justino

Serviço

Título original: Persépolis Completo

Autora: Marjane Satrapi

Tradução: Paulo Werneck 

Editora: Quadrinhos na cia

Número de páginas: 352

Classificação indicativa: 12 anos (apresenta violência, conteúdo sexual e drogas)

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