*Aviso de gatilho: este texto contém relatos de violência sexual
Um casal que sonha em ter filhos, uma família importante do Rio de Janeiro e uma sequência de crimes e violências contra a mulher. Esta poderia ser, facilmente, a descrição da primeira novela brasileira da Netflix, Pedaço de Mim. Com uma pegada dramática parecida com outras tramas que já conhecemos, a produção consegue nos prender durante 17 episódios de quase uma hora cada e nos conduzir, sem perder o fio da meada, por 18 anos da vida da família Rosenthal e Azevedo.
A série consegue trazer para o debate público um tema latente; o estupro e outras violências contra as mulheres, de forma complexa — assim como a vida real. Mas não perde a densidade das relações e decisões humanas, que passam por erros, acertos e dúvidas, claro. Sobretudo em um caso raro de superfecundação heteroparental — quando dois óvulos do mesmo ciclo menstrual são fecundados por espermatozoides de homens diferentes —, como o que aconteceu com Liana Azevedo (Juliana Paes). Na prática, isso faz com que uma mulher fique grávida de gêmeos bivitelinos de dois pais diferentes, e logo na sequência explico como tudo aconteceu.
Quem dá vida aos personagens principais são Juliana Paes (Liana Azevedo), Vladimir Brichta (Tomás Rosenthal) e Felipe Abib (Oscar Oliveira), que interpretam um trio repleto de conflitos e, principalmente, crimes. O lançamento, de julho de 2024, é uma parceria da Netflix com a produtora A Fábrica; a criação e roteiro são de Ângela Chaves com colaboração de Guilherme Vasconcelos, Laura Rissin e Marina Luísa Silva, tem direção de Vicente Barcellos, Clara Kutner e Maria Clara Abreu.
A intenção do texto não é fazer um resumo da série, claro, e, por isso, indico a quem está lendo que assista se quiser ir mais a fundo na história. Aqui, vou recortar a vivência da Liana, personagem que é violentada durante toda a série, então alguns detalhes não vão estar presentes de propósito.
A invasão do outro
Passar por uma crise no casamento após tentativas frustradas de engravidar foi determinante para Tomás, marido de Liana, sair de casa e se envolver com outra mulher. Em um dia de raiva e frustração, mais do que merecidas, ela vai a uma festa com Débora (Martha Nowill), companheira de longa data, no bar de Oscar, irmão da amiga. Chegando lá elas bebem, se divertem e dançam, até que Liana é drogada e uma terrível confusão mental começa.
Débora foi embora mais cedo e seu irmão prometeu cuidar da amiga, que estava sozinha com ele – e, nessa altura, completamente incapaz de responder por si. Quando eles pedem um táxi para o apartamento de Liana, ele tenta se aproximar para um beijo, mas ela nega, se despede e agradece ao conhecido por tê-la acompanhado até em casa. Ela encosta a porta e vai se deitar, já que está sonolenta e longe de seu estado normal de consciência.
Oscar entra de volta, vai até o quarto, vê que ela está dormindo e inicia um estupro. Ela pede para não continuar, afirma que não quer e mesmo assim ele continua. É interessante como a construção da série não exibe, logo, as cenas da violência, porque é como se estivéssemos acompanhando as memórias de Liana. Na manhã seguinte ela acorda com uma sensação estranha, que é mais do que ressaca. Ela tem alguns flashes e começa a se lembrar do que havia acontecido na noite anterior.
Os sentimentos de angústia, medo, nojo, repulsa e tudo aquilo que vem em alguma situação de violação do nosso corpo tomam aquele dia inteiro, e vão durar para sempre em sua vida. Após uma tentativa de se sentir limpa com um banho, ela retorna ao quarto e vê uma camisinha jogada embaixo da cama, que não estava usada, mas apenas aberta. Ou seja, ela não só havia sido estuprada como também teria o risco de infecções sexualmente transmissíveis e gravidez – mas isso ainda não passava por sua cabeça nesse momento.
É importante ressaltar aqui, que a grande maioria de casos de estupro*, outras violências contra mulher e feminicídios são realizadas por familiares (como companheiros, namorados, pais, padrastos, etc.) e outros conhecidos. Ou seja, esses casos ocorrem pelas mãos de pessoas que estão em nosso dia a dia, pessoas que são convidadas para entrar em nossas casas ou residem nelas. Por isso, não podemos jamais culpabilizar quem sofreu, pois muitas vezes essa mulher – ou criança – não sabe que precisa “se proteger” de quem está ao seu lado.
Algum tempo depois, Liana começa a sentir os primeiros enjoos e, logo em seguida, confirma: está grávida – vale destacar aqui que ela manteve relações com seu marido, Tomás, na mesma semana que foi estuprada. Ao iniciar o pré-natal, ela descobre o caso de superfecundação heteroparental e o que era um sonho torna-se um pesadelo na vida dessa mulher, que, até este ponto, não havia relatado a violência para ninguém. O processo de entendimento e aceitação de gerar uma criança fruto de um abuso é representado de forma intensa pela personagem, com o misto de angústia constante e desejo pela maternidade que idealizou.
O que não é falado não se materializa
Algo que me deixou extremamente inquieta enquanto assistia à série foram as violências perpetradas durante todo o período no qual acompanhamos a trajetória dessa família. São 18 anos em que Liana sente-se culpada por existir, por ter sofrido um estupro, por estar em um casamento abusivo e, pior, não admitir para si mesma o que aconteceu e carregar tudo isso de forma quase que individual. Até mesmo as amizades femininas próximas da personagem e sua mãe acabam se afastando e/ou descredibilizando seus sentimentos, fazendo com que ela fique com toda carga.
Quando acontece o momento do parto na casa de campo do casal, por exemplo, o filho de Tomás nasce primeiro e recebe toda assistência do pai. No entanto, enquanto a outra criança ainda está no processo, o homem sai do ambiente e deixa Liana sozinha parindo naquele local completamente despreparado, mais uma vez transferindo apenas para ela a responsabilidade. Importante lembrar que a série é ambientada a partir de 2006, então acredito que muitos acontecimentos buscam retratar práticas e o cotidiano da época, como tradições e uma visão de mundo do início dos anos 2000.
Com o passar dos anos, é possível enxergar um arco dos personagens, que despertam/são despertadas para novos pontos de vista esclarecedores sobre o que aconteceu no passado, e outros, como a família Rosenthal, que são tomados pela onda de conservadorismo – observado também na vida real. No entanto, algo que perpassa todos os capítulos é o lugar da mulher constantemente como objeto, da mulher desumanizada e que habita um lugar de submissão em relação ao outro.
Mayara Bichir vai descrever em sua tese “A dominação na constituição psíquica das mulheres: subjugação e resistência” como as mulheres são “negadas de seu estatuto de sujeito”, em relação a tudo. E mais, como as violências contra este grupo promovem submissão por meio da experiência traumática, que “fragmenta o eu” e as deixa em um constante sentimento de insegurança. Sendo assim, Pedaço de Mim, reforça não somente Liana enquanto objeto, como coisa, no qual ela vivencia os acontecimentos apresentados como naturais, mas também num papel de feminilidade submissa e refém da dominação masculina.
Somente no décimo sexto, e penúltimo episódio, ela afirma ter sido estuprada e reconhece o que viveu, afirmando o fato para si mesma e, conseguindo assim, romper o ciclo de violações que sofria há anos. Isso, em especial, junto com uma amiga e cunhada que deu apoio e força, a médica Silvia Rosenthal (Paloma Duarte), que constitui um lugar de potência feminina essencial para trazer informação, debate e até uma certa libertação para Liana.
Costumam nos dizer que a culpa é feminina, nasce com a gente. Mas, ela é, na verdade, construída todos os dias e nós, do outro lado, tentamos nos desvencilhar desse sentimento criado para nos aprisionar.
*Você pode conferir mais informações e materiais sobre este assunto aqui:
Violência sexual – Dossiê Violência contra as Mulheres
A explosão da violência sexual no Brasil
Brasil registra um crime de estupro a cada seis minutos em 2023
Serviço:
Título Original: Pedaço de Mim
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: A série retrata violência explícita e abuso sexual.
Gênero: Drama.
Por Lia Junqueira
