
Mulheres contra o patriarcado no melhor estilo Kill Bill! Em Samurai de Olhos Azuis (Blue Eye Samurai), lançada em 2023 pela Netflix, vemos Mizu, protagonista da série, entre xoguns, samurais e batalhas sangrentas de katanas no Japão feudal, do século XVII, extremamente violento, machista e racista. A obra é de autoria de Michael Green (Logan, Blade Runner 2049) e Amber Noizumi.
Dentro de um contexto protecionista e extremamente xenófobo, o Japão feudal se torna palco da busca de vingança de Mizu contra seu pai, um homem branco vindo do Ocidente, que estuprou sua mãe e a abandonou grávida. Por ter nascido com traços japoneses e ocidentais, Mizu sofre segregação e até mesmo violências diversas das pessoas ao seu redor. Existem três pessoas “elegíveis” ao papel de pai, que estão escondidas dentro do território japonês, e é aí que sua busca começa.
Desde a infância, Mizu teve que se esconder, e principalmente esconder sua identidade (mulher) e seus traços estrangeiros para que não fosse morta. Sua aparência “ocidentalizada” a torna uma pária em uma sociedade xenofóbica e machista. Determinada a buscar justiça e ocultar sua verdadeira identidade, ela vive disfarçada de homem e se torna uma das espadachins mais habilidosas do país. As pessoas que tentaram protegê-la acabaram morrendo por isso, e seu desejo de vingança só se intensifica ao longo da narrativa. É notável que a história não se propõe a ser realista, e isso tende a enfurecer os espectadores homens, que assistem a narrativas impossíveis mas não conseguem entender quando é uma mulher vencendo todas as batalhas que luta, sobrevivendo a ferimentos mortais ou escalando uma montanha carregando um homem nas costas, etc.
Violência explícita, nudez e sexo sobem a idade indicada para 18+. As cenas variam entre as de sempre, de luta de espadachins genéricas, e momentos de combate exagerados mas bem coreografadas, como quando um lance de espada derruba quatro pessoas ao mesmo tempo. O gore está presente, o que não prejudica a experiência, mas é constantemente retratado, assim como a nudez, que aparece de forma breve ao longo da série.
A animação tem um visual impressionante inspirado no cinema samurai, como os filmes de Akira Kurosawa, com um tom maduro e violento semelhante a produções como a citada Kill Bill e a renomada série de animação Love, Death & Robots. Quem conhece a história de William Adams (Miura Anjin) – um samurai inglês que serviu no Japão no século XVII — , sabe que este foi a inspiração para John Blackthorne na recente estreia da série Xógum: a gloriosa saga do Japão, premiada com diversos Emmys e Globos de Ouro recentemente. Percebe-se esse padrão da mídia ocidental, que gosta de empurrar essas narrativas de White Savior. Como em “O Último Samurai” (2003) – que o protagonista é o Tom Cruise – a história foca mais na cultura samurai e em aspectos de filmes genéricos de ação do que em possíveis questões de gênero, classe ou raça.
“White savior complex” ou “complexo do salvador branco” refere-se a quando pessoas brancas sentem-se destinadas ou no direito de salvar, ajudar, ensinar e proteger pessoas não-brancas, o termo advém do Nigeriano-Americano, Teju Cole, originalmente denominado como “White Savior Industrial Complex (WSIC)”. Isso ocorreu em um contexto de criação de campanhas de financiamentos para projetos que não direcionavam o dinheiro arrecadado para o uso explicitado, Teju explicou que “os salvadores brancos dão suporte à brutalidade policial de manhã, fundam centros de caridade de tarde, e recebem premiações de noite”, fazendo alusão ao fato de que eles não se solidarizam pelas causas raciais verdadeiramente, e sim em um movimento de autoafirmação do próprio espaço de privilégio, o que acarreta em um falso entendimento de benevolência para com quem não usufrui dos mesmos “atributos e capacidades”, (ser branco). Muita da discussão vem do trabalho de missionários, como o que ocorre no Brasil com missões evangelizadoras de igrejas evangélicas que procuram expandir seu público oferecendo à comunidades carentes e/ou fragilizadas comida e estrutura em troca da conversão à religião, como as Adventistas, Metodistas, Luteranas, Batista, Anglicanas, Menonitas e Presbiterianas. A Missão Evangélica da Amazônia – MEVA, por exemplo – “é uma organização de direito privado, de natureza filantrópica, sem fins lucrativos, que atua com os povos tradicionais da Amazônia desde 1959.” Tendo como visão: “glorificar a Deus fazendo discípulos de Jesus Cristo e facilitando o surgimento de igrejas cristãs indígenas”. Também vemos o “Projeto Joshua”, que oferece um serviço de “cartografia para evangelizar o planeta”, nos EUA. Normalmente de natureza privada, esses promotores da paz encontram raízes em, por exemplo, tribos indígenas que precisam de ajuda humanitária, mas no fim acabam apenas explorando, manipulando, abusando e deliberadamente machucando aqueles que prometeram auxiliar. Eu emprego este termo no texto pois esse é um problema que não existe agora, e pode ser datado desde antes das grandes navegações, que inicia o século da colonização. Esse problema é tão recorrente que até hoje enfrentamos essa problemática, porém agora sabemos olhá-la com a nomenclatura correta.
A série, ao meu ver, tenta ir na contramão disso, e acaba combinando ação visceral, com dramas profundos e uma forte crítica social, abordando temas como racismo, misoginia e identidade de gênero em um Japão feudal extremamente violento e patriarcal. Gosto da tentativa de inovação, mas entendo que ainda falta muito para alcançarmos o patamar de uma boa representação midiática feminista de uma mulher coordenando esse papel.
É impressionante como há uma mistura de realismo, técnicas e estéticas de animação muito bonitas visualmente, que elevam o teor do conteúdo. Eu gosto muito mesmo da ambientação construída dentro da série e as técnicas desenvolvidas, como na parte da apresentação de teatro tradicional japonês, que, na vida real, utiliza fantoches para as caracterizações, o que foi primorosamente reproduzido na série.
Não é uma obra para crianças, então não deveria ser tratado como tal. Kill Bill, por exemplo, contém muitas cenas de morte, sangue e lutas, e foi explicitamente restringido por isso. Acredito que o mesmo movimento deva ser realizado com essa série, que, por causa do estilo animado, pode confundir pais e mães desatentos. As cenas de luta, como citado anteriormente, são inspiradas no cinema, com movimentos cinematográficos e combate bem coreografado, e praticamente todo o conteúdo da série é pensado para maiores de idade, os temas não são nada infantis.
Como em toda obra de ação com protagonistas mulheres, essa não foge ao estereótipo de que mulheres, por não poderem ser mais fortes, têm que ser mais inteligentes que os homens durante suas batalhas. Mizu é alta e esguia, e na série aparece em alguns momentos como incapaz de contar com a força bruta. Por exemplo, em um duelo, ela, ao enfrentar um samurai muito mais forte, só vence ao usar inteligência e velocidade para transformar o próprio peso do adversário contra ele. Assim como citei outros filmes inspirados em temas orientais, também gostaria de citar Mulan, por causa da semelhança com uma das cenas de Samurai de Olhos Azuis, que é o romance sugerido entre essas mulheres que estão travestidas/sendo lidas como homens e os homens guerreiros que perpetuam os estereótipos de gênero, como entre Mulan e Shang, assim como entre Mizu e Taigen. Na animação da Disney temos a insinuação disso, e até mesmo uma cena em que Shang parece enojado ao descobrir que Mulan na verdade era uma mulher, ao invés do guerreiro pelo qual começou a desenvolver uma relação de afeto. Mas isso é bem mais evidente em Samurai de Olhos Azuis, em que vemos claramente Taigen tendo uma ereção ao “brincar de lutinha” com Mizu, o que deixa ambos constrangidos, e Taigen, para acobertar o momento, diz que possivelmente ocorreu pela proximidade dos corpos e pela falta que sentia de Akemi.
“Assim é o mundo. Concede às mulheres um número fixo de caminhos: esposa decente ou prostituta indecente.”- Seki, personagem de Blue Eye Samurai.
Racismo e Identidade
Desde o início da série, entende-se que ser mulher naquela época significava ser tratada como propriedade. Mizu, como citado, precisa se passar por homem para se esconder das pessoas que querem matá-la, e também para poder ser levada a sério como samurai, título reservado somente aos homens daquela época. O enredo enfatiza como as mulheres tinham poucas opções além do casamento ou da servidão, e também faz uma referência à pungente divisão de classes que define e intersseccionaliza as vivências entre Mizu e Akemi, já que todos consideram a última mais afortunada do que todas as outras mulheres da série, pois ela tem o privilégio de ser filha de um homem rico, e portanto viver a vida de forma abastada. Porém, quando Mizu derrota Taigen, noivo de Akemi, em um duelo (não somente vencendo o inimigo, mas também humilhando-o), Akemi se vê abandonada pelo noivo que começa a buscar reaver sua honra em uma batalha contra Mizu. Durante esses acontecimentos, seu pai prometeu sua mão em casamento ao filho do Xogum, e é aí que começa a história de emancipação de Akemi.
Acho que a questão do machismo estrutural é bem explorada e abordada no plot que envolve a princesa Akemi, pois ela vê o próprio destino sendo traçado inúmeras vezes por homens que querem controlá-la. O que ela almeja é não ser um peão no xadrez da família real. A obra não mede esforços para mostrar que as mulheres podem estar no controle dos homens domando-os a partir de seus desejos, e é daí que surge a força principal da sexualidade feminina, tema que abordo também em minha análise sobre Eyes Wide Shut.
As mulheres sentem a sua exclusão mais cruelmente quando nascem em classes mais baixas, sendo tratadas sub humanamente, e por Akemi ser de família nobre, não acreditam que ela conseguirá sobreviver nos ambientes hostis que são formados nas cidades, principalmente nos prostíbulos, locais que ela passa a frequentar após sua fuga do castelo em que morava. Porém, como ela quer encontrar Mizu, vai até um bordel popular da cidade e começa a trabalhar lá, atendendo a pedidos extremos de fetiches masculinos.
Mizu também começa a entender esse outro lado da moeda de perto, quando passa a lidar com as histórias dessas personagens, visto que ela, ao ocultar sua identidade como mulher, não vive essas mesmas questões. Isso é demarcado quando uma das meninas do bordel, Kinuyo, uma pessoa com deficiência auditiva e de fala, é comprada por madame Kaji de seu pai abusivo. Kaji cuidou dela com gentileza e paciência, pois Kinuyo era uma menina extremamente fragilizada. Porém, o chefe Hamata a levou para tomá-la à força como esposa e continuar os abusos que já havia sofrido do pai. Para impedir que Kinuyo fosse sujeita a essas contínuas violências, Kaji contrata Mizu para secretamente matar Kinuyo, e assim não criar uma guerra com Hamata, que possui poder e influência dentro da cidade por controlar um exército de mil homens. Essa é uma das cenas mais revoltantes da série, pois como o tema é vingança, imaginamos que Kaji iria encomendar a morte dos soldados de Hamata, porém ela manda matar somente a vítima dessa estrutura opressiva, que é Kinuyo. O que é mais revoltante ainda, pois apesar disso, o assassinato dela é revelado, e Mizu vê-se perseguida e tem que eliminar todos os soldados de Hamata anyways.
Esse episódio é muito marcante, assim como quando Kaji aconselha a princesa Akemi que a única forma de reconquistar a autonomia sobre sua própria vida era controlando a vida de seu futuro marido, neste caso o filho do Xogum, laço firmado depois que seu pai a usou como moeda de troca por poder e influência. A sequência demarca esse espaço de controle masculino, ou seja, mesmo que uma mulher consiga sua independência, ela somente ocorrerá a partir da permissão/ajuda de um homem.

Vingança como motor da narrativa
Um episódio muito marcante da série é o que relata o passado de Mizu com o ponto crucial de sua mudança (a morte de sua mãe), em paralelo com um teatro tradicional da época, que conta a lenda de como surge um espírito Onryo, apelido de Mizu, um espírito sedento por vingança, parecido com um demônio.
Mizu, ao enfrentar essas inúmeras formas de preconceitos associados a sua aparência, passa a se entender como uma aberração/besta. Isso a torna alvo de hostilidade e desconfiança, e o único local em que ela é aceita é a casa de um senhor com deficiência visual, que funde katanas. Os outros entendem, erroneamente, que seus olhos azuis são ímãs de má sorte, e os generalizam como um mau sinal, ao correlacionarem-nos com os ocidentais. Um ponto importante é que, antes de sair em sua busca movida por ódio e dor, Mizu revela ao senhor que ela tem olhos azuis, mas não revela que é uma mulher empunhando uma espada.
Isso é muito simbólico, pois o homem parece entender o quesito da “impureza” à qual Mizu se refere ao falar de si mesma, desenvolvendo uma metáfora relacionada à construção de espadas e Mizu, já que para criar a lâmina utiliza-se uma liga, e não o metal puro. Esse amálgama pode conter algumas impurezas, pois são elas que mantêm a lâmina junta e não deixam o metal quebradiço. Esse entendimento entre as duas partes só existe para a sua aparência, não para o seu gênero, já que quando Mizu vai revelar isso, ele a interrompe e demonstra que não quer saber mais de seus segredos.
O objetivo da guerreira de caçar os três estrangeiros que podem ser seu pai biológico – e punir todos eles — só aumenta ao longo da série. Spoiler: o gancho para a próxima temporada deixou muita gente ansiosa para saber como será a colaboração entre Abijah Fowler (Kenneth Branagh) – um dos principais antagonistas da série, um ocidental com forte influência no Japão —- e Mizu para encontrar os outros candidatos à paternidade em Londres.
Apesar dos problemas enumerados aqui, acredito que também haja espaço para apreciar a obra. A história é intensa e bem construída. Gosto do uso da animação para construção desse universo, pois é um cinema criado do zero, que pode optar por inúmeras formas, cores, estilos, o que torna a animação mágica e fluida. As personagens, que vivem dramas profundos e realistas, estão inseridas em temas atuais como o feminismo e o racismo, mesmo se tratando de uma obra que representa o passado. A série também foi aclamada pela crítica e pelo público, sendo considerada uma das melhores animações da Netflix.
Serviço:
Título Original: Blue Eyes Samurai
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: O filme retrata violência explícita, nudez, gore, sexo, sangue e mortes.Além disso, trata de temas sensíveis como estupro.
Gênero: Animação/Ação
Por Sophia Helena Ribeiro
