
Ser adolescente e estar no meio termo de não ser mais uma criança mas também não ser ainda uma pessoa adulta é muito difícil, como todo momento de transição. O corpo e a mente passam por transformações e passar por esse processo sem apoio e acompanhamento de adultos pode ser perigoso, principalmente se a internet for o único lugar que dê a sensação de segurança e identificação. Assim, uma criança ou adolescente pode ter contato com discursos de ódio e conteúdos violentos ou até mesmo entrar em um grupo com adultos e outros adolescentes que reforçam ideologias extremistas, como a misoginia e a comunidade incel. É isso que vem acontecendo cada vez mais.
O que é incel? O termo em inglês é a junção das palavras Celibato Involuntário, Involuntary Celibate no original. É usado para se referir a homens heterossexuais frustrados sexualmente que responsabilizam as mulheres por essas frustrações. Na internet, atualmente a palavra incel aparece em muitas discussões acerca de violência e misoginia. Ela foi criada por uma mulher chamada Alana na década de 1990, quando desenvolveu o “Projeto de Celibato Involuntário” para discutir, com outros internautas, sentimentos de timidez e dificuldades sociais. Inicialmente, o termo descrevia pessoas que, independentemente do gênero, tinham dificuldades em estabelecer relacionamentos românticos. Com o tempo, sua definição mudou e passou a ser associada a comunidades predominantemente masculinas, muitas vezes ligadas à misoginia e discursos de ódio.
Outros conteúdos de misoginia promovidos pela machosfera vêm do movimento Red Pill. O nome, que significa “pílula vermelha” em inglês, surgiu no filme Matrix (1999), simbolizando o despertar para uma suposta realidade oculta. A partir da década de 2010, o conceito foi apropriado por comunidades virtuais, passando a representar ideias ligadas à masculinidade, críticas a valores progressistas e comportamentos sociais. No contexto atual, red pill é entendido como um movimento – ou conjunto de ideias – que se define como “realista” quanto às relações de gênero, embora reproduza visões misóginas e conservadoras.
Em março de 2025, a minissérie britânica da Netflix Adolescência trouxe toda essa temática à tona e gerou grande repercussão na internet. Na trama, Owen Cooper estreia brilhantemente como Jamie Miller, um adolescente de 13 anos que, logo nas primeiras cenas, é preso por assassinar uma colega de escola. Sua atuação impressiona pela intensidade, complexidade e camadas emocionais do personagem. Outro aspecto que chamou a atenção é a escolha da direção: os quatro episódios são filmados em plano-sequência, sem cortes, o que amplifica a tensão e o realismo da narrativa. Inspirada em casos reais ocorridos na Inglaterra – como revelou Stephen Graham, ator e co-criador da série –, a obra mergulha em uma realidade perturbadora, conduzida por atuações marcantes e uma estética que envolve o espectador do início ao fim.
Como dito, um adolescente matou uma colega. As informações de que Jamie assassinou Katie com várias facadas em um estacionamento de supermercado não são um spoiler. A série não é um suspense policial investigativo, mas sim um drama psicológico que chega a parecer documental e, no fim, deixa um gosto de desesperança. As motivações do crime envolvem a influência de discursos de ódio em fóruns online além do cyberbullying praticado por Kate contra o protagonista – ela mesma, uma vítima de divulgação de imagens íntimas sem consentimento. É ficção, mas retrata uma realidade tão próxima que muitas vezes não conseguimos enxergar. Ao longo da série, a pergunta que move a narrativa é: “Por que esse menino fez isso?”. E, no final, não há uma resposta única ou definitiva, pois trata-se de um conjunto de fatores que, em certos contextos, podem levar ao extremo.
Plataformas digitais
É basicamente impossível usar a internet hoje em dia sem estar presente em alguma plataforma digital, especialmente nas voltadas para interação social. Por isso, a produção da Netflix não apenas retrata o impacto da ausência de orientação e diálogo familiar, mas também levanta questionamentos sobre a responsabilidade das plataformas digitais e da sociedade na formação dos jovens.
Algum tempo antes da estreia da série, vi sendo bastante compartilhado no meu Instagram um post cuja imagem de capa trazia a frase: “Se você fosse um menino de 13 anos sem supervisão na internet, provavelmente você cresceria misógino”. Abaixo, em letras menores, lia-se: “Como educar homens que não odeiam mulheres?”. O conteúdo foi produzido pelo perfil Contente.vc, um veículo de comunicação que se baseia em dados e produz conteúdo autoral e investigativo, promovendo debates sobre temas contemporâneos em diálogo com a comunidade.
No carrossel, o perfil simula a timeline (For You) de um adolescente de 16 anos no TikTok. Mesmo após selecionar preferências aparentemente neutras, como estilo de vida, esportes e conteúdo motivacional, não demorou para que o algoritmo começasse a recomendar vídeos com piadas sobre feminicídio e discursos de ódio contra mulheres. Isso tudo sem que o perfil seguisse nenhuma conta.
A postagem foi republicada após o sucesso da série Adolescência e, no post, o Contente.vc explica como esses conteúdos chegam até os adolescentes e como conseguem recrutá-los. A pergunta final é direta e incômoda: você, que convive com adolescentes, tem percebido a guinada desses conteúdos rumo a discursos de ódio?
Com certeza misoginia na adolescência não é uma novidade que “nasceu agora” com o boom das redes sociais; meninos são alvos frequentes dessa ideologia historicamente, mas com certeza o fácil acesso de muitos conteúdos na internet agravam este problema.
Quem nunca colocou outra data de nascimento para conseguir criar uma conta em uma rede social? Atualmente, tenho 23 anos, mas, há pouco mais de 10 anos, quando ganhei um computador, queria uma conta no Facebook para participar das interações sociais à minha volta. O problema é que eu não tinha idade para isso, a maioria das plataformas define a idade mínima de uso em 13 anos. Mas isso nunca impediu ninguém de entrar: basta alterar alguns anos no calendário e o acesso está liberado. E é aí que começa o perigo. Embora seja proibido, não há nenhum tipo de verificação real da idade do usuário. Dessa forma, 60% das crianças que usam internet no Brasil têm conta em alguma rede social, segundo a Pesquisa Tic Kids Online Brasil 2024.
No episódio “Precisamos falar sobre ‘Adolescência’”, do podcast Café da Manhã, parceria da Folha de S.Paulo com o Spotify, há uma entrevista muito boa com a juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri. Nela, a juíza mostra que o problema também está no Brasil.
Vanessa também cita o exemplo de que, por lei, uma criança não pode comprar bebida alcoólica em um bar apenas dizendo que tem mais de 18 anos, mas na Internet, basta digitar isso para ter acesso a conteúdos impróprios, o que escancara a fragilidade dos mecanismos de controle nas plataformas digitais.
Ao entrar nas redes sociais, abre-se um mundo de conteúdos diferentes para acompanhar, isso para uma criança ou adolescente sem supervisão é uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Seja por cyberbullying, por conteúdos machistas e misóginos disfarçados de piada que naturalizam violência contra mulheres, pelo contato com influenciadores que compartilham discurso de ódio (adultos ou adolescentes) ou a fóruns com essa temática. Outro problema é o acesso à pornografia, que pode criar percepções erradas sobre sexualidade e consentimento.
Enfim, a falta de regulação das plataformas digitais tem uma grande responsabilidade na crescente onda de adolescentes violentos. O algoritmo promove violência e entrega conteúdo nocivo sem nenhuma supervisão ou legislação, além da ausência de um programa de filtragem para as idades, grande problema a ser enfrentado.
Pais, sociedade e o abismo geracional
Como dito, misoginia e machismo na adolescência de meninos não são fenômenos recentes. Muitas vezes, tudo começa dentro de casa, quando eles são repreendidos por chorar ou por expressar atitudes associadas à performance do gênero feminino, como demonstrar sentimentos, fragilidade ou sensibilidade. No livro A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor, bell hooks escreve que “o primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é contra as mulheres, mas contra si mesmos”, ao serem forçados a mutilar emocionalmente partes de sua identidade. A autora aponta que, caso essa repressão não seja bem-sucedida, os próprios homens patriarcais reforçarão essa violência emocional por meio de rituais de poder, atacando a autoestima daqueles que não se encaixam. Esse ciclo alimenta uma masculinidade frágil, que encontra nas redes um terreno fértil para a propagação de ideologias misóginas, justamente por oferecer uma falsa sensação de pertencimento e poder.
É em casa também que a falta de supervisão nas redes permite que adolescentes tenham acesso liberado aos discursos de ódio. No último episódio da série, em uma conversa triste entre o pai e a mãe de Jamie, ela diz que acreditava que o filho estava seguro no quarto mexendo no computador; às vezes ele ficava até tarde da noite, ela via a luz acesa e batia na porta para ele desligar, sem nunca ter a curiosidade de saber o que estava acontecendo. A juíza Vanessa também diz no podcast que “a internet é a rua”, onde os pais, ou responsáveis, não costumam deixar seus filhos sozinhos à noite ou conversando com algum estranho mais velho. Mas, por que na internet eles têm total liberdade? É importante dizer que checar e monitorar os celulares e as redes sociais dos filhos não é invasão de privacidade, é um meio de proteção e prevenção.
Para finalizar, outro aspecto chocante trazido na série é o enorme gap comunicacional entre pais e filhos. Os adolescentes não se sentem à vontade para se abrir ou pedir ajuda em casa, por isso acabam buscando conforto nas redes sociais, ambientes que, muitas vezes, acolhem suas angústias com discursos de ódio. É nesse contexto que muitos meninos entram em fóruns machistas, principalmente no Discord e no X (antigo Twitter), onde encontram validação para suas frustrações e começam a direcioná-las contra as mulheres. Assim, eles não conseguem acompanhar os avanços sociais e de direitos conquistados pelas mulheres e, ao se sentirem perdidos ou deixados para trás, tornam-se alvos fáceis de influenciadores de extrema direita. Estudos apontam que, apesar dos avanços para as mulheres nas últimas décadas, os meninos vêm enfrentando retrocessos significativos em áreas como educação, empregabilidade e saúde emocional, um cenário ainda mais crítico entre os jovens pobres. Sem referências positivas de masculinidade e sem espaço para diálogo, o caminho até a radicalização se torna cada vez mais curto.
Outro exemplo dessa lacuna comunicacional e geracional é a comunicação dos adolescentes na internet. Eu, com meus vinte e poucos anos, passo boa parte do meu dia nas redes sociais e sei sobre vários memes e gírias, mas não entendi nada e nunca tinha tido contato com a comunicação por emojis, mostrada no segundo episódio da série. Depois disso, fiquei pensando: e os pais dessas crianças? Se eu, com uma diferença de apenas 10 anos, já não consigo acompanhar esse tipo de comunicação, isso complica ainda mais a situação. Até os pais que supervisionam as contas dos filhos podem não entender as entrelinhas dessa comunicação, tornando ainda mais difícil o diálogo e o acompanhamento das dinâmicas digitais dos mais jovens.
Mas afinal, que emojis são esses? Trouxe alguns exemplos e explicações dessa linguagem da comunidade incel e red pill:
💊: Movimento Red Pill
Pode estar em um comentário acusando uma pessoa de ser Red Pill ou um chamado para apoiadores daquela ideia, as pessoas que “acordaram” sobre “a verdade” das questões de gênero
🧨 ou 💥: Red Pill explodindo
Quer dizer radicalização de ideias, que a pessoa “acordou” para as ideias da comunidade Incel
🔵: Pílula azul
Significa estado de ignorância, em uma realidade paralela que é agradável mas é falsa
🫘: Feijões
Se parece com um grão de café e vem de um meme do jogo Team Fortress 2, no qual a piada era comentar “mulheres☕” na intenção de dizer que todas são estúpidas e incompetentes.
💯: 80 por 20
Representa a regra de que 80% das mulheres sentem atração por 20% dos homens. Partindo daí, o único jeito de ter uma mulher é enganando-as, pois elas são oportunistas.
Corações coloridos:
❤️: Amor
💜: Tesuda (Desejo sexual)
🧡: Você vai ficar bem (Apoio entre amigos)
💛: Estou interessado. Você também? (Flerte inicial)
🩷: Carinho sem desejo sexual
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Na série, Kate, a menina que Jamie assassinou, comentava com vários desses emojis nas publicações dele, na intenção de chamá-lo de incel e dizer que ele não conseguiria ficar com nenhuma garota. As interações fazem a polícia pensar que eles eram amigos, mas só após a explicação de um adolescente as coisas ficam mais claras. É um assunto difícil, mas muito importante de ser debatido, pois tanto os meninos quanto as meninas são vítimas desses grupos apresentados no texto. Obviamente de formas diferentes.
Por Ana Rodrigues
Serviço
Título Original: Adolescence
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 12 anos (A12)
Classificação da autora: 12 anos (A12)
Justificativa: Aborda temas delicados e complexos, como feminicídio e bullying. Não tem cenas muito explícitas de violência ou de sexo e pode gerar discussões interessantes e importantes entre pais e filhos.
Gênero: Drama Psicológico
