Quem pode falar na confraria dos homens? 


Na última segunda (09), tivemos uma experiência esclarecedora sobre o funcionamento das repúblicas tradicionais de Ouro Preto e muito do que essa cultura envolve. A audiência pública do Ministério Público Federal que era, inicialmente, sobre as repúblicas federais no contexto da política assistencial de moradia estudantil da UFOP, se transformou em uma reunião de homens, que foram defender suas experiências maravilhosas naquelas casas centenárias e a importância das repúblicas para a preservação do patrimônio histórico (as próprias moradias em que eles fazem a manutenção). 

É claro, existem os pontos positivos do sistema republicano. Quando apontamos as violências e os crimes recorrentes nesses espaços é pela gravidade dos fatos, não apenas uma generalização. É importante pensar que os afetos (fruto da recepção em uma nova cidade e forma de viver, longe da família e iniciando uma graduação, que, muitas vezes configura a primeira vez morando fora) e o contexto em que o “mundo” novo é apresentado moldam a forma de enxergar e vivenciar a vida ouropretana nas repúblicas (e a vida universitária em geral, mas cabe a ênfase na cidade de Ouro Preto, onde as 69 repúblicas federais estão localizadas). 

Quantas “casos isolados” de estupro, racismo, LGBTQIAPN+fobia, abuso de poder, assédio moral e sexual existem ao longo da história destas repúblicas? Em um ano? Já ouvi falar em vários no mesmo mês, mas fica para outro texto. E mesmo se for só um, já é o bastante para revolta e, claro, para que haja a devida punição e mudanças sejam feitas, pois muitos casos se tratam de atos criminosos. Porém, as “punições” nesses casos são diferentes. Primeiro porque há variações, como quando um “bicho” (nome utilizado de forma pejorativa para se referir aos calouros/pessoas novas na casa) faz algo considerado errado e seu castigo é virar um “lavrado”, um copo de cachaça. 

Uma das punições mais severas é ser “catado”/expulso da república na qual você estava “batalhando” pela vaga (mesmo tendo pago o aluguel, contribuído com a divisão de contas básicas e feito tarefas dentro da casa, mas, o mais importante, ter morado ali, você ainda não é morador*). No entanto, essa catação pode decorrer de diferentes motivos, como o fato de não comparecer aos compromissos da casa — como sociais e festas do mundo republicano — ou não realizar as atividades domésticas. 

Mas, pensa aqui com a gente, se as vagas nas moradias federais (que são aquelas em que a universidade custeia o aluguel ou detém a propriedade da casa) teriam de ser reservadas para as pessoas de acordo com critérios socioeconômicos, que muitas vezes precisam trabalhar para se manterem nas cidades, como suportar essa rotina totalmente dedicada à república? 

A conta não fecha. E não é para fechar mesmo, é para excluir. 

Existem inúmeros relatos — e regras claras, dentro dessas casas — de que quando você é “bicho”, você serve os outros; você abaixa a cabeça e aceita; você faz mais atividades que os outros moradores porque deseja ser escolhido; você não escolhe seu dia a dia, porque determinam até sua hora de acordar; você prioriza atividades republicanas em detrimento, inclusive, das aulas; e tantas outras coisas. Tudo isso com a premissa de aprender a cuidar da casa e criar um laço com o lugar. Daí eu me pergunto: quem consegue sustentar essa rotina? Pois é, um grupo seleto de pessoas. 

Alguns questionamentos levantados em uma das falas durante a audiência foram: “Como a necessidade de deixar meus horários de aula no quadro da casa auxilia na preservação desse patrimônio?” ou “Como virar cachaça na minha boca auxilia na preservação desse patrimônio”. E, para fechar, “como a obrigatoriedade de frequentar festas e dormir pouco tendo que ir para aula no dia seguinte cedo auxilia na preservação desse patrimônio?”. 

O que reforça duas coisas: a primeira é que o discurso preparado pela galera que estava na audiência para defender as repúblicas foi de que eles estavam ajudando a “preservar o patrimônio”, até porque são casas históricas, tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na tradicional Ouro Preto. Até aí pensamos: beleza, há algum sentido no discurso. Muitas casas estavam de fato em situação de abandono antes de serem incorporadas ao patrimônio da Ufop e, posteriormente, colocadas a serviço das repúblicas federais. 

Porém, o que me leva ao segundo ponto é a real razão para a audiência pública acontecer: “atual gestão das repúblicas federais vinculadas à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), no contexto da política assistencial de moradia estudantil e sua inserção na comunidade local”, segundo a matéria do MPF. O tema não era patrimônio, ainda que este importe. Ou seja, a mudança do foco nos discursos foi uma estratégia para defender as repúblicas ali presentes e, especialmente, para desviar o foco do que realmente importa: a inserção de estudantes pobres nas moradias públicas da universidade.

Nem todas as tradições devem ser preservadas. Nem toda regra ou lei é ética – embora devam ser respeitadas, cumpridas e questionadas nos fóruns adequados. Durante a audiência, muitos estudantes defenderam as repúblicas federais com base em normas, citando, por exemplo, que a casa é cedida pela universidade e segue a resolução CUNI 1540. Sim, é fundamental que se entenda que a conformidade com normas e regulamentos, embora legítima, não deve encerrar o debate, pois nem toda regra ou tradição é inquestionavelmente ética e digna de ser preservada sem críticas, especialmente quando o contexto é uma audiência pública para discutir os problemas desses espaços. Se as repúblicas são imóveis da UFOP, cedidos para moradia estudantil, é justo que o acesso a elas seja garantido a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Hoje, isso não acontece.

Há pouco tempo, para uma pessoa pobre estar na universidade era, quase sempre, irreal. A Lei de Cotas existe há apenas 13 anos e tem relação direta com essa exclusão histórica e estrutural. Ela reserva vagas para quem estudou em escola pública, para pessoas de baixa renda, por raça e também para pessoas com deficiência. Justamente para enfrentar os efeitos duradouros da escravidão e de outras formas de desigualdade. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, após 300 anos. Essas frases são usadas e repetidas muitas vezes, e é importante mexer nessa cicatriz aberta. Este país tem uma dívida, e falar sobre isso na cidade de Ouro Preto é simbólico.

O reitor Luciano Campos da Silva apresentou dados: hoje, 51,2% dos estudantes em universidades federais se identificam como negros, 70% são considerados de baixa renda. Contudo, nas repúblicas federais da UFOP, apenas 39% dos moradores são considerados de baixa renda. 

O racismo é uma marca na história do Brasil que está longe de acabar. Apesar dos avanços com as políticas públicas que trouxeram diversidade às universidades, pensar em um ambiente idealizado por e para pessoas brancas – e majoritariamente de classes médias ou altas –, sem problematizá-lo, não é certo. O que deveria acontecer diante de casos de racismo e outros crimes era a garantia de proteção, permanência e assistência aos estudantes negros e pobres.

Ao entrar nas repúblicas, nas casas históricas e olhar para os muitos quadrinhos de ex-moradores, é perceptível quem não são as pessoas que se formam ali. É simbólico — e perverso — imaginar uma pessoa negra que passa na universidade e chega a uma casa onde vai servir, trabalhar como “bicho” e ser submetida a uma lógica de hierarquia e humilhação.

Mas é tudo pela tradição! Assim não só o racismo, mas a homofobia, a misoginia e várias outras formas de violência e preconceito se tornam aceitáveis. 

As palmas e narrativas seletivas 

Durante a audiência, com o auditório lotado, temas como machismo, abuso, racismo e LGBTQIA+fobia chegaram a ser mencionados. Nessas horas, muitos presentes reagiram com expressões de tédio, como se esses assuntos fossem repetitivos, deslocados ou incômodos dentro daquele espaço. O fato de não estarem no foco “oficial” (assim como o patrimônio) da audiência serviu como justificativa para ignorá-los, como se discutir essas violências não fosse urgente. A postura foi de deslegitimar essas pautas, como se elas atrapalhassem a defesa da tradição e da história das casas — quando, na verdade, são questões centrais que atravessam a permanência estudantil e a vivência de muitos corpos dentro dessas repúblicas.

O que importa, para muitos, é a história da república se manter de pé. A que custo? A qualquer custo. Ao custo da exclusão, da ampliação de vulnerabilidades socioeconômicas, ao custo do escanteamento das violências, ao custo de quem é discriminado, expulso, violentado, por não se encaixar num sistema que funciona para alguns, mas de forma alguma para todas e todos. Afinal, todos os erros e crimes são sempre tratados como casos isolados — mesmo acontecendo, recorrentemente, nos mesmos espaços.

Enquanto mulheres, nos sentimos acuadas e amedrontadas por aquelas palmas incessantes e alongadas após as falas dos homens (todos cisgênero), em sua maioria brancos, hétero e, acima de tudo, republicanos. Eram muitos e eram fortes, ali unidos. Eles defendem o sistema e se defendem entre si, fazendo com que verdadeiras violências sejam vistas como “o jeitinho” deles, ou mais, que tudo isso seja legitimado por um sistema que, por exemplo, força as pessoas a beberem até caírem (ou até morrerem). 

Por mais que o camarada ao nosso lado na audiência reafirme que “ele bebeu porque quis!”, ao comentar com os amigos da república sobre o caso de xenofobia, trote violento e tentativa de abuso sexual contra um estudante maranhense ocorrido em 2022, a prática de beber grandes quantidades, mesmo sem concordar, e permancer calado é comum nessas casas, pois assim as pessoas são consideradas “bichos bons” e são escolhidas mais rapidamente. Esse mesmo camarada ainda demonstrou impaciência durante a fala do Diretório Central dos Estudantes (DCE) — coincidentemente, ou não, uma das poucas falas que criticava o sistema republicano, trazendo à tona diversos casos de violência desse ambiente, como abuso sexual, racismo, LGBTQIA+fóbia e outros.  

Rita Segato denuncia em seu livro La Guerra Contra las Mujeres (2016) a existência de uma confraria dos homens, uma organização mafiosa que se defende, se ajuda e funciona em prol da manutenção de seus privilégios e do sistema de dominação-exploração na qual nós, mulheres, e outros corpos desviantes vivemos. É importante ressaltar que um mesmo sistema é responsável pelas diversas violências destinadas às pessoas LGBTQIAPN+, negras, entre outros grupos que compõem as interseccionalidades e, por isso, são constantemente enxergadas como vidas “menos importantes”. 

Rita afirma que: “A estrutura funcional hierarquicamente disposta que o mandato de masculinidade origina é análogo à ordem da máfia; por esse tipo de violência, o poder é expresso, exibido e consolidado de forma truculenta perante os olhos do público”

Estávamos ali, no centro dessa reunião dos machos, olhando de perto para aqueles que nos violentaram mais uma vez (psicologicamente, simbolicamente). Eles afirmam que “esses casos são antigos, vocês estão presas nos anos 2000!” ou “isso é só uma generalização de um sistema muito lindo e unido”. Quando, na verdade, querem dizer: “Nós queremos a liberdade para continuar exercendo esse poder, essas violações contra todos que desejarmos e que isso fique bem camuflado nas tradições ouropretanas”. 

É importante dizer, mais uma vez, que o ponto principal da audiência não era a continuidade ou existência dessas moradias (até porque sabemos que elas vão continuar e têm relevância), mas sim a inserção de estudantes pobres nesses locais — que são, idealmente, destinados justamente para essas pessoas. No entanto, a entrada e permanência desse grupo é impossibilitada pelo sistema republicano federal, esse mesmo que acolhe pessoas com situação financeira amplamente confortável com a possibilidade de custear outros aluguéis. 

Isso faz com que, indiretamente, um perfil de pessoas seja estabelecido e aceito nesses locais (claro, com seus pequenos pontos de diversidade) e, mais uma vez, os homens brancos cisheteronormativos colham os frutos de seus privilégios e tomem a fala e narrativa diante de nossos olhos. Por essa razão, quando esses caras escutam críticas, por mais breves que sejam, eles se enfurecem e usam de seu poder para nos calar. Suas palmas têm destino certeiro: só aplaudem quem dança a mesma música; só concordam com um mesmo discurso; só funcionam num mesmo sistema. 

*Quando uma pessoa é “escolhida” acontece uma celebração surpresa, na qual geralmente os “bichos” são embebedados no rito de passagem para moradores. A decisão das escolhas é de quem está acima da hierarquia, selecionando quem acha apto para dar continuidade na história da casa. O tempo até tornar-se morador(a) é variado, pode ser a duração de um período da UFOP ou mais, chegando até a ano(s).

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