Love, Death & Robots é uma antologia animada da Netflix que se propõe a explorar temas diversos como amor, morte e tecnologia, e frequentemente recai em representações diversas de gênero. Ao longo de suas temporadas, a série apresenta uma predominância de narrativas de temas variados, explorando novas formas de animação e de contar histórias, surpreendendo o público a cada lançamento.

Em sua quarta temporada, recentemente anunciada no catálogo da Netflix, vemos ‘Can’t stop’, que é uma espécie de videoclipe da banda Red Hot Chilli Peppers, ‘Minicontatos imediatos’, em que vemos uma invasão alienígena protagonizada por miniaturas, ‘Spider Rose’, vingança intergaláctica com direito à guerra e sobrevivência dentro do espaço, ‘Os Caras do 400’, um episódio de apocalipse meio distópico contra bebês gigantes, ‘A Outra coisa grande’ (spoiler: o gato é a mão da revolução das máquinas), ‘Gólgota’, outro episódio de invasão alienígena misturada com fanatismo religioso, ‘O grito do tiranossauro’, especialmente feito para zombar do youtubert Mr. Beast, ‘Como Zeke Entendeu a Religião’, sobre II Guerra Mundial e a igreja, ‘Dispositivos inteligentes, donos idiotas’, se eletrodomésticos pudessem falar, como seria? E, por fim, ‘Pois ele se move sorrateiramente’, que, para não dar muitos spoilers do plot, saibam que é sobre um gato e o djabo.
Desde a primeira temporada, episódios como ‘The Witness’ e ‘Beyond the Aquila Rift’ apresentam mulheres em situações de vulnerabilidade extrema, muitas vezes associadas à violência sexual ou à exploração do corpo feminino. Em ‘Jibaro’ (traduzido como Fazendeiro) temos a epítome desse sentimento, principalmente quando percebemos as inúmeras possibilidades de interpretação que a obra garante, transgredindo desde o óbvio até uma interpretação do colonialismo predatório espanhol. Essas representações, que na maioria das vezes são bem formalizadas e apresentadas, reforçam a presença feminina dentro de séries de ficção científica, porém amplificam a falta de mulheres dentro da criação de narrativas femininas, traduzidas em plots majoritariamente exploradores, tratando-as como objetos de desejo ou vítimas a serem salvas, sem aprofundar suas histórias ou complexidades emocionais.
Episódios:
(SPOILER) ‘Jibaro’ é um conto surreal, muito visualmente hipnótico sobre obsessão, ganância e destruição mútua. No episódio temos a história de uma “siren”, (uma criatura mítica que habita lagos e mares), e de um cavaleiro surdo. É o nono episódio da terceira temporada da série e seria uma reinterpretação sombria e ao mesmo tempo poética do mito da sereia, ambientada em uma floresta tropical que remete a Porto Rico, assim como o nome Jibaro, que é a palavra utilizada para camponeses/trabalhadores do campo. Dirigido por Alberto Mielgo, o episódio se destaca pela ausência de diálogos e pela narrativa visual intensa, explorando temas como ganância, comunicação (ou a falta dela) e a complexidade das relações humanas.
O episódio se passa em uma floresta tropical rica em ouro e cores, onde um grupo de conquistadores armados é dizimado pela sereia dourada; quando ela emite sons (uma espécie de canto), eles entram em transe e matam uns aos outros ao se jogarem nas águas ou colidirem violentamente. No entanto, o cavaleiro surdo (o “Jíbaro”) aparenta ser imune ao chamado hipnótico da sereia. Intrigada por sua sobrevivência, ela se aproxima, e a narrativa toma um rumo inesperado ao transformá-lo no alvo de sua obsessão. Essa atração mútua entre eles desencadeia uma espiral de violência e desejo, culminando em um desfecho trágico e simbólico. O encontro entre os dois é uma dança de violência, desejo e exploração, como uma metáfora poderosa para violência colonial, que acaba em um ataque e roubo por parte de Jibaro. Após despertar curiosidade e afeto na criatura, ele leva os ornamentos de ouro e abandona a sereia, que acorda ferida e despojada de seus bens, procurando uma maneira de se vingar.
Neste contexto, o cavaleiro surdo representa a exploração e a violência, contrastando com a figura da sereia, que busca proteção, conexão e compreensão. A interação entre eles reflete as complexas dinâmicas de poder, desejo e destruição, principalmente quando pensamos no contexto colonizador que a obra atravessa.
Com uma animação hiper-realista quase indistinguível de live-action, ‘Jibaro’ é amplamente considerado um dos melhores e mais impactantes episódios de toda a série Love, Death & Robots, tendo ganhado o Emmy de Melhor Curta de Animação no ano de 2022, e alcançado uma classificação de 8,1/10 no IMDb. Sua estética visual impressionante é resultado de uma articulação meticulosamente trabalhada da água, do sangue e da luz, com movimentos tão fluidos e expressivos que ultrapassam a necessidade de diálogos, utilizando da trilha sonora para construir toda a tensão e emoção com sons ambientais e música. Apesar de ser elogiado como uma verdadeira obra de arte, um dado sobre sua produção levanta um questionamento: das 167 pessoas na equipe, apenas 34 são mulheres, o que nos leva a perguntar quem, de fato, roteiriza as representações femininas nas animações?
Episódios como ‘Sonnie’s Edge’ e ‘Good Hunting’ apresentam mulheres que buscam vingança contra seus respectivos abusadores – o tradicional recurso narrativo do rape revenge. Embora essas histórias possam parecer empoderadoras à primeira vista, elas frequentemente utilizam a violência explícita como meio narrativo, sem questionar as estruturas de poder subjacentes. A sexualização das personagens femininas nesses contextos costuma ser vista como uma forma de reafirmar estereótipos de gênero. Em Sonnie’s vemos a protagonista sendo morta após pensar que encontrou amor em uma outra mulher. Sobre a produção do episódio? De 154 pessoas, apenas 33 são mulheres, e nenhuma participou da roteirização ou da direção.
Em ‘Good Hunting’, entre uma equipe de 105 pessoas, apenas 21 são mulheres, e o principal: vemos a nudez dos personagens o tempo todo, que se torna o fio condutor da trágica jornada da protagonista, que vai da força mítica da natureza, passando pela brutal objetificação do patriarcado industrial que destroi o seu corpo, até a poderosa e violenta retomada do controle através da tecnologia. Mas, até quando elas aparentam ser as protagonistas, a história nunca as representa totalmente, transformando-as em meras passageiras da trama, como se sempre houvesse algo mais importante que elas. A maioria das personagens femininas é moldada com base em estereótipos tradicionais (como o da mulher abusada), sem explorar a complexidade das experiências de gênero, resumindo-as a meras vítimas com sede de vingança, ou seja, elas não são nada além da vontade de matar.
Embora Love, Death & Robots ofereça uma variedade de estilos de animação e abordagens criativas, suas representações de gênero frequentemente reforçam normas patriarcais e limitam a diversidade de experiências femininas. E a questão vai além de apenas não abranger mulheres nas produções, é preciso observar que a presença feminina, embora necessária, não é suficiente para garantir a mudança. Se as próprias mulheres na equipe de criação perpetuarem uma visão machista, o resultado final continua a ser a falta de uma perspectiva gendrada genuinamente crítica nessas narrativas.
Por Sophia Helena Ribeiro
