
Eu cuidei da minha mãe e do meu pai por 10 anos. Nasci em 1963, numa família de classe média em Belo Horizonte. Minha filha tinha uns 11 anos e meu rapaz uns 7 quando minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer. Eu já tinha convivido com meu sogro tendo a mesma doença e agora ela estava ali, ainda mais pertinho de mim. A mulher que me criou estava começando com os sintomas e, depois de um tempo, eu e meus irmãos decidimos que não era uma boa ideia deixar dois idosos sozinhos dentro de casa. Começamos a revezar quem iria dormir com eles.
A partir daí, toda quinta-feira eu saía de casa, na região metropolitana de Belo Horizonte, e dirigia até a casa dos meus pais para dormir com eles. A rotina era sempre a mesma: arrumar a casa, dar os remédios certos, fazer comida, dar banho e vestir roupa, isso sem contar com a atenção que dois idosos precisavam. Além disso, continuava minha rotina de trabalho normalmente, continuei lecionando História.
Há uns seis anos, meus filhos estavam com uns 15 anos, minha mais velha, e 11 anos meu caçula. Minha mãe começou a precisar de cuidados mais intensos, sua mobilidade estava pior, ela se lembrava cada vez menos de mim e dos meus irmãos, estava cada vez mais agressiva e comendo menos. Redobramos os cuidados. Antes, eu ia apenas na quinta, que era minha folga, passava o dia cuidando deles, dormia e voltava para minha casa na manhã de sexta-feira. Passei a revezar os fins de semana com meu irmão. Um fim de semana sim e um não eu estava lá! Recriando a rotina de toda quinta.
Em 2022, meu irmão Zé, que revezava os fins de semana de cuidado comigo, faleceu. Passei por uma fase meio estranha, fiquei tão triste que cheguei a perder uns 10 quilos, dava para ver em meu físico que minha cabeça não estava bem. Meu irmão era meu parceiro de luta e eu passei também a ser responsável por limpar o apartamento em que ele morava sozinho.
Em 2023, em um dia que eu estava de plantão na casa dos meus pais, minha mãe sofreu uma queda e quebrou o fêmur. Eu a levei ao hospital naquele dia, e quanta culpa eu senti. Ela operou e colocou prótese. O que me lembro mais foi a sentença do médico: ele disse que ela não passaria de um ano.
Depois do incidente a colocamos na fisioterapia, na esperança que ela saísse da cadeira de rodas. Ela não aguentou a fisioterapia, ficou na cadeira de rodas e pirou cada vez mais. O Alzheimer tirou dela a fala e a prótese, o andar. O corpo não aceitou muito bem o objeto estranho e a partir daí ela entrou e saiu do hospital, até ficar lá porque o corpo não aguentava mais.
Dormi com ela praticamente todas as noites no hospital. Eu a representava legalmente lá e meus irmãos afirmavam não poder revezar comigo. Eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite. Quando saía do serviço noturno ia para o hospital, dormia e acordava às 4h20 da manhã para trabalhar na minha cidade. Por nove meses foi assim. Fiquei com ela o tempo todo.
Na madrugada em que ela se foi, eu não estava presente. Foi um dos únicos dias em que eu não estava. Tinha levado minha filha para a cidade onde ela estudava. Recebi o telefonema e voltei. Cuidei dela até o fim, do jeito que pude.
Agora eu cuido do meu pai. Ele tem 100 anos de pura energia! Cuidar dele é mais fácil, ele também requer cuidados, mas consegue se locomover sozinho, ainda fala e brinca, apesar de ratear a memória de vez em quando. Minha rotina com ele continua quase a mesma, às quintas eu saio de casa às 5 da manhã, passo o dia com meu pai e volto para casa na sexta para trabalhar de manhã.
Eu não tenho nenhuma intenção de colocar meu pai em um asilo. Para mim não justifica que eles tenham cuidado de mim por tantos anos e eu não cuide deles. O meu cuidado com eles é a forma de retribuir o amor que eles me deram a vida toda.
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A mãe de quem passou por essa história é minha avó. E esse relato, apesar de parecer ser de uma filha, é o relato do meu pai. Foi ele quem passou por essa rotina de cuidado por quase 10 anos. Relatar assim coloca a gente para pensar que, se fosse uma mulher passando por essa situação seria normalizado, pois todas têm que cuidar, já que o cuidado é criado e feito em sua maioria por mulheres. Minha avó teve seis filhos homens, então o cuidado recaiu sobre eles. Meu pai sabe passar, cozinhar, costurar… e cuidar dos meus avós.
Mas ele é um em um milhão. Segundo dados do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, 92,1% das pessoas que cuidavam de parentes idosos eram mulheres. O ato de cuidar é imposto às mulheres desde novas – atire a primeira pedra quem de nós nunca ganhou um jogo de panelinhas ou uma bonequinha para cuidar? O cuidado com os idosos não é diferente: se falamos de cuidado, o gênero que cuida é feminino.
Porém, os homens também são capazes de praticar o cuidado, com os mais velhos, com crianças. Meu pai é um exemplo dessa possibilidade. Claro, ele não é perfeito, o escutei dizer algumas vezes que, já que não tinham uma irmã, eles precisavam cuidar dos pais. Se minha vó tivesse uma filha, provavelmente a rotina que descrevi seria dela.
E, mesmo que meu pai escolhesse contratar alguém para cuidar dos meus avós, seria uma mulher. Essa afirmação vem do entendimento da economia do cuidado. Cargos de cuidado, como babás, cuidador de idosos e cuidados com a casa (o chamado trabalho doméstico) são exercidos, em sua maioria, por mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, executada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) e pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), 93,9% das participantes eram mulheres, e dessas, 69,9% eram mulheres negras.
O trabalho de cuidado é desvalorizado em relação a outras ocupações, além de ser pouco comentado. Em 2024, o Governo Federal instituiu a Política Nacional de Cuidados, que tem como um dos objetivos enfrentar a precarização do trabalho e “promover o conhecimento, a redução e a redistribuição do trabalho não remunerado do cuidado, realizado primordialmente pelas mulheres”. Já que além de ser um trabalho feminino invisível, é desvalorizado na remuneração. O cuidar também é uma tarefa.
