Quando uma menina é assassinada, o que a imprensa escolhe contar? 

Essa pesquisa começou a partir de um questionamento da professora Karina Gomes Barbosa (UFOP), que já investigava temas relacionados a gênero, infância e violência, com foco principalmente nas coberturas jornalísticas de crimes contra mulheres. Em um dado momento, Karina deslocou seu olhar para a cobertura de infantofeminicídios, refletindo sobre como a mídia aborda, ou silencia, esse tipo de violência. 

Dessa inquietação resultou o artigo “De simulações desumanizadoras a fabulações críticas: reparar violências jornalísticas à ‘Menina sem Nome’”, escrito com Adriana Santana (UFPE). Neste trabalho, as autoras analisam a forma como reportagem do Fantástico, programa da Rede Globo, e telejornais da NETV, em 2023, relembraram o caso do assassinato de uma menina não identificada, ocorrido em 1970, em Recife. Problematizam as narrativas desumanizadoras que marcam parte do jornalismo e propuseram caminhos críticos de reparação simbólica, como a fabulação crítica, na qual deram o nome Maria à menina:Provavelmente, ela se chamava Maria, o nome mais comum em Pernambuco na década de seu nascimento (1960), segundo o projeto Nomes do Brasil, do IBGE” (p. 16).

A partir daí, se iniciou a minha pesquisa de Iniciação Científica, intitulada “Perspectivas críticas sobre a mídia: um olhar gendrado, decolonial e ético sobre o caso Miriam Brandão”. Esta pesquisa, financiada com bolsa do CNPq, buscou investigar a cobertura jornalística do sequestro e assassinato de Miriam Oppenheimer Leão Brandão, de 5 anos, ocorrido em 1992, em Belo Horizonte (MG).

O estudo se insere em uma linha de investigação que analisa como o jornalismo historicamente materializa o feminicídio de meninas, incluindo pesquisas anteriores sobre casos como o de Maria, em Recife. Também leva em consideração os infantofeminicídios como o de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, de 8 anos, assassinada em 1973, em Vitória (ES), e o de Ana Lídia Braga, de 8 anos, assassinada em 1970, em Brasília. 

Nos interessou compreender os modos pelos quais o jornalismo representa esses crimes, a fim de propor uma reflexão crítica, ética, com perspectiva de gênero e infância, sobre a cobertura midiática. Suas histórias permanecem presentes no imaginário nacional, ressurgindo periodicamente como fantasmagoria. Ao mesmo tempo, a santificação de algumas dessas meninas as retira do humano, influenciando a forma como esses crimes são compreendidos, e reforçando a necessidade de uma postura ética no jornalismo que compreenda, critique e proponha ações transformadoras.

Chamada na capa do EM no dia 08 de janeiro de 1993, essa é a segunda vez que o rosto de Miriam aparece no jornal.

Em março deste ano, eu e a professora Karina fomos até a Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, em Belo Horizonte, para acessar arquivos digitalizados do jornal Estado de Minas, do período de 1992 e 1993, época em que aconteceu o sequestro, assassinato e os julgamentos dos acusados do caso Miriam Brandão. 

Foto de Miriam Brandão retirada do site do Ministério Público do Estado de Minas Gerais

O caso analisado 

Na manhã do dia 22 de dezembro de 1992, no bairro Dona Clara, região da Pampulha em BH, Miriam Brandão foi sequestrada enquanto dormia em sua casa. Na época, ela tinha 5 anos e morava com o pai, Volney Brandão, a mãe, Jocélia Brandão, e o irmão, Pedro Henrique, de 8 anos. Após 16 dias de investigação, a polícia localizou os sequestradores: os irmãos William Gontijo Ferreira, de 23 anos, e Wellington Gontijo Ferreira, 22, e uma cúmplice, Rosemeire Pinheiro da Silva, namorada de William, que trabalhava na farmácia da família Brandão. 

O crime foi motivado pela percepção de que a família possuía boas condições financeiras; segundo os relatos, os irmãos planejaram o sequestro com o objetivo de obter dinheiro para quitar dívidas relacionadas a uma rinha de galos. Eles pediram 150 mil dólares de resgate, valor que foi arrecadado pela família, mas não pago. Durante o período, os sequestradores permaneceram em um local próximo à residência da vítima. Ao longo dos dias, a família, as autoridades e a imprensa mantiveram a esperança de que Miriam retornaria com vida. No entanto, conforme relato dos próprios criminosos, a criança foi assassinada no segundo dia de cativeiro, por chorar muito. 

No dia 23 de dezembro William asfixiou e em seguida esquartejou e carbonizou o corpo de Miriam. Quando a polícia encontrou o sequestrador, havia no local do crime apenas 150 gramas de cinzas e dois dentes. Essas informações são constantemente reiteradas e relembradas nas matérias jornalísticas. 

Durante a pesquisa, refletimos sobre a possibilidade de compreender o caso como um feminicídio, o que se mostrou difícil diante da ausência do corpo. O caso do assassinato de Miriam Brandão é emblemático por isso, pois impede a verificação de abuso sexual ou das condições de tratamento durante o sequestro. A única versão disponível é a narrada pelos sequestradores. Apesar disso, a análise comparativa com outros assassinatos de meninas já citados aqui revela que o gênero é um marcador central para compreender essas violências, sendo determinante na brutalidade dos crimes.

O crime de feminicídio é o assassinato de uma mulher por razões da condição de gênero. Essas razões são entendidas quando envolvem violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Exemplos ajudam a identificar tais situações, como agressões que visam especificamente o corpo feminino, facadas nos seios ou na região da virilha; a raspagem forçada do cabelo, como forma de humilhação pública; ou ainda atos de vingança motivados por recusa de relacionamentos e pelo controle sobre a vida da mulher. Esses elementos demonstram que a violência vai além da intenção de matar, carregando um significado simbólico e de dominação que expõe a raiz misógina do feminicídio.

As coberturas jornalísticas 

A pesquisa de Iniciação Científica começou em setembro de 2024 e se encerrou em agosto de 2025. Nesse período estudamos matérias tanto da época em que o crime aconteceu, nos anos 90, quanto podcast e reportagem audiovisual de 2024, produzidos 30 anos após o crime. Essas análises e os resultados parciais foram submetidos e apresentados em congressos de comunicação e jornalismo, possibilitando discussão e aprimoramento das análises.

Em agosto, o artigo “Gênero, infância e violência: os assassinatos de Ana Lídia Braga e Miriam Brandão no Correio Braziliense e Estado de Minas”, foi apresentado no XV Encontro Nacional de História da Mídia (Alcar), escrito com Ana Beatriz Nogueira Justino (bolsista de IC – PIP-Ufop) e a professora Karina Gomes Barbosa. Em setembro, apresentei o artigo “Gênero e infância no podcast “Crimes que Abalaram Minas Gerais” sobre o caso Miriam Brandão”, na Intercom Nacional no IJ – Jornalismo, e o artigo “Ana Lídia Braga e Miriam Brandão: sensacionalismo, moralidade e simulações no jornalismo audiovisual”, foi aceito para apresentação no JPJor, em novembro, na UEPG.

Para tabular e analisar as matérias do Estado de Minas nos baseamos na Análise de Cobertura Jornalística (ACJ), proposta por Gislene Silva e Flávia Maia (2011), que busca compreender a cobertura como configuração social de acontecimentos a partir de estratégias de apuração, composição e disposição da notícia. O protocolo foi adaptado para incluir uma camada analítica de gênero e infância, orientando a leitura crítica das narrativas midiáticas e das hierarquizações de vidas que se produzem no noticiário. Essa adaptação foi desenvolvida nas atividades do Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades ao qual essa pesquisa se vincula, e que vem sendo incorporada às metodologias do grupo, como em artigo sobre coberturas de violências de gênero no ambiente universitário. 

Por fim, apresento de forma resumida alguns resultados desta pesquisa. Eles indicam que o jornal Estado de Minas fez uma cobertura jornalística intensa, especialmente nas datas próximas ao desaparecimento e o assassinato de Miriam. Tivemos acesso a 38 matérias sobre o caso no Estado de Minas, de dezembro de 1992 a março de 1993. Dessas, 18 saíram na capa e apenas 9 tinham imagens. Miriam, no entanto, apareceu em foto duas vezes, na primeira menção ao caso e ainda sem ter seu nome no título: “Filha de médico é sequestrada em BH” e quando encontraram William (primeira imagem neste texto).

Em dezembro de 1992, mês do sequestro, o caso saiu em seis capas das oito edições analisadas. Já em janeiro de 1993, quando seu corpo foi encontrado, foram 25 matérias publicadas, 9 aparecendo na capa. Nos meses seguintes (fevereiro e março), o número caiu para 14 matérias, e só 2 chegaram à capa.

O foco do jornal estava muito mais nos acusados, nos familiares e nos detalhes técnicos da investigação do que na própria Miriam, o que reforça sua invisibilização. Além disso, a cobertura dividia espaço o tempo todo com outro caso de grande repercussão nacional, o assassinato de Daniela Perez, e também com os debates sobre a pena de morte puxados pelo então presidente Itamar Franco e tendo Jocélia Brandão e Glória Perez, mães de Miriam e Daniela, respectivamente, como protagonistas.

Nuvem de palavras gerada no Manus a partir dos resultados da pesquisa, indicando os modos com a imprensa nomeou Miriam

O nome de Miriam foi escrito errado durante toda a cobertura, o que revela descaso e é outro reforço à invisibilização. Ao mesmo tempo, o jornal insistia em chamá-la de “garotinha” e usar outros termos que representam fragilidade, além de destacar a brutalidade do crime de forma sensacionalista, como se o impacto estivesse mais na crueldade do ato do que na vida interrompida de uma criança,  como sujeito de direitos. O jornalismo reduziu Miriam a um corpo violentado, ignorando sua existência e as dimensões estruturais do crime. Em vez de contextualização ou mesmo de estatísticas, sua memória foi transformada em espetáculo pela repetição da violência. 

Uma surpresa ao longo da pesquisa foi não encontrarmos o caso do assassinato de Miriam em efemérides de um, cinco ou 10 anos. Após as notícias sobre os julgamentos e as penas dos condenados, a menina deixou de ser lembrada no Estado de Minas.

Assinaturas das matérias analisadas: das 32 publicações analisadas, apenas 4 foram assinadas.

A ausência de autoria sugere menor especialização e aprofundamento da cobertura, reforçando um enquadramento restrito ao viés criminal e silenciando discussões mais amplas sobre gênero, infância e violência estrutural.

As outras coberturas analisadas, da Record Minas em 2024, incluindo um podcast e uma reportagem audiovisual da série Crimes que Abalaram Minas Gerais, mostram que, mesmo décadas depois, o tratamento do caso ainda segue a lógica criminal e sensacionalista. A memória de Miriam é explorada para gerar impacto emocional, evocando como poderia ter sido sua vida interrompida há 30 anos, mas sem qualquer menção à legislação que, em 1994, tornou estupro e homicídio qualificado crimes inafiançáveis e passíveis de punição mais rigorosa (Lei 8.930/1994), defendida por figuras como Jocélia e Glória.

Em 1992, a ausência de uma cobertura com perspectiva de gênero e infância pode ser explicada pelo formato hard news e pela inexistência da Lei nº 13.104/2015, que tipifica o feminicídio. Mesmo assim, é possível perceber que casos como o de Miriam não eram isolados, ao olhar para a editora “Polícia” do EM enquanto procuramos notícias na Biblioteca Pública. 

Montagem com recortes de algumas noticias na editoria “Polícia” no Estado de Minas em janeiro de 1993. No título “Esta é a desconhecida estuprada e assassinada” a matéria contém a foto do corpo no IML, com a legenda “As sardas se destacam no rosto da mulher ainda não-identificada”.

Como aponta Judith Butler em Quadros de Guerra: Vidas Passíveis de Luto e Carlos Alberto de Carvalho em O jornalismo, ator social colonizado e colonizador, as escolhas jornalísticas sobre quem merece atenção refletem desigualdades sociais; Miriam, sendo uma menina branca, com família estruturada e condições financeiras mais favoráveis, teve seu caso noticiado. Ainda assim, sua memória se dilui com o tempo, pois sem um contexto midiático de injustiça social e mistério, já que os acusados foram julgados e condenados, a menina foi gradualmente esquecida.

Quando Miriam foi assassinada, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estava em vigor, já propondo a compreensão da criança como sujeitos de direitos e incentivando novas formas de noticiar violações contra esses grupos. Essa abordagem, porém, não fica aparente na cobertura do EM, bastante centrada nos adultos – nos pais e nos criminosos – e relegando Miriam a mero “objeto” da violência, importante apenas na medida de sua fragilidade infantofeminina.

Este olhar evidencia como o jornalismo contribui para a construção de narrativas seletivas sobre violência contra meninas e mulheres, reforçando padrões de visibilidade que priorizam certas vidas em detrimento de outras. A pesquisa mostra que refletir sobre essas escolhas é fundamental para compreender os limites e possibilidades da cobertura midiática, visando a importância de incluir e considerar as interseccionalidades das vítimas e o papel da imprensa na promoção de debates mais amplos sobre justiça, direitos humanos e memória social.

Por Ana Rodrigues

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