
Ia o final da década de 1980 e eu, como várias garotas, assistíamos a Jem e as Hologramas na TV aberta. Para mim, sempre foi um desenho revolucionário, porque não havia lutas e músculos masculinos em display. Tudo era embalado por música pop e as personagens femininas trocavam de roupa (e que figurino! – descobri, adulta, que os looks eram inspirados na alta costura da época).
Corta para 2025 e minha filha me convenceu a assistir a Guerreiras do K-Pop na Netflix com ela. Com todas as diferenças, a animação tem algumas das qualidades que há quatro décadas encantaram aquela menina (inclusive os figurinos incríveis e as músicas). Guerreiras… até tem batalhas (porque as três protegem o mundo contra demônios), que são, porém, trabalhadas narrativa e visualmente sem explorar violência extrema, longe da masculinidade viril e à beira do humor.
Se há 40 anos (completados no último dia 6 de outubro) Jem e sua trupe integravam uma estratégia mercadológica de consumo audiovisual relacionada à emergência da MTV e dos videoclipes, o trio formado por Rumi, Mira e Zoey mostra como a hegemonia das heroínas princesas, brancas, apaixonadas e passivas definitivamente ficou para trás – numa linha traçável de Mulan e que se intensifica nos últimos anos com Red, Raya e o Último Dragão, A Caminho da Lua, Cada um na sua Casa, Encanto, Caçadores de Trolls, O príncipe dragão, Contos de Arcadia, Carmen Sandiego, She-ra e as princesas do poder, Avatar, Jurassic World, A Casa Coruja e mais um monte de coisa.

São animações diversas entre si, mas com a busca comum pela fuga das narrativas adocicadas e ocidentalizadas dos contos de fada. Comerciais, sim, mas muito mais preocupadas com aventura, autoconhecimento, autoaceitação, empoderamento e imagens diversas de meninos e meninas – uma diversidade que também diz respeito ao soft power oriental; meninas latinas, indígenas, africanas, árabes ainda estão amplamente fora do quadro.
Algo mais salta aos olhos desde Jem, passando por grande parte desse conjunto, e que também é muito forte em Guerreiras do K-Pop. Tratam-se de animações sobre a amizade, mais especialmente sobre a amizade feminina. É um tema que, por sua vez, está presente no audiovisual infantojuvenil desde o início da década de 1980, com animações como My Little Pony, correndo em paralelo aos mundos masculinos criados pela Mattel e pela Hasbro (co-produtora de Jem), com He-man e a She-ra original, Gi Joe, Transformers e afins.
É verdade que animações protagonizadas por meninas-não-princesas sempre tiveram um lugar no audiovisual, mas não tão proeminente quanto agora: Três espiãs demais, Kim Possible, As meninas superpoderosas, Winx, Miraculous são exemplos bem executados.
Certamente os pequenos pôneis e os ursinhos carinhosos geraram (e geram – basta entrar na loja de chocolates…) fatia considerável de produtos, brinquedos e outros vendáveis para alimentar a máquina capitalista. Mas, dentro da cultura da mídia, oferecem outras visualidades ao público.
O aspecto mais marcante de Jem e Guerreiras é colocar meninas à frente de narrativas altamente empoderadas, que reforçam os laços entre as amigas. Adriana Cavarero trata as amizades femininas como espaços narrativos em que mulheres e meninas trocam histórias de vida, tendo em vista que suas experiências nunca foram narradas no palco, na esfera pública; esse sempre foi o espaço dos heróis.

Cavarero destaca que, enquanto amizades masculinas falam de coisas – carros, viagens, shakes, coaches, esportes, cervejas, mulheres (a lista é de minha lavra) – as amizades entre mulheres narram suas vidas. Essa narração inscreve a vida feminina na materialidade do acontecido, de algo que se passou no mundo. Além disso, permite que a narradora elabore a sucessão de eventos únicos que constitui uma vida com um fio narrativo; um sentido que, inexistente no viver, é conferido pelo ato de tecer uma trama do vivido.
Jem falava também de um aspecto muito comum na cultura patriarcal: a rivalidade feminina – ainda que construída por homens corporativos. Nem isso há na animação de 2025. E daí vem a maior força de produtos culturais como Guerreiras do K-Pop, à parte a relação muito atual com a moda. Para além do apuro técnico da animação, das músicas extremamente bem elaboradas e executadas (têm sido chamadas de chiclete), da representação engraçadíssima da boy band rival demoníaca (os Saja Boys) e da jornada de formação da protagonista, Rumi, trata-se de uma animação sobre a importância da amizade, de confiar as narrativas de nossas vidas umas às outras.
Guerreiras do K-Pop é atualmente o filme mais visto da história da Netflix. Nenhum produto audiovisual chega a essa marca tendo sido visto apenas por meninas e mulheres, ou seja: a animação, que tradicionalmente seria encaixotada como “chick flick”, “desenho de menina” ou de “mulherzinha”, alcançou um público extremamente abrangente. Prova, assim, que o protagonismo feminino, o protagonismo de garotas, a amizade feminina, é uma narrativa para todos os públicos.
Por Karina Gomes Barbosa
Jem e as Hologramas
Título original: Jem (Jem and the Holograms)
Onde assistir: há diversos episódios no Youtube
Gênero: série animada musical infantojuvenil
Temas: amizade feminina, música, tecnologia, rivalidade feminina, namoro
Classificação: Livre
Nossa classificação: Livre
Guerreiras do K-pop
Título original: KPop Demon Hunters
Onde assistir: Netflix
Gênero: longa de animação musical infantojuvenil
Temas: amizade feminina, música, demônios, autocuidado, flerte
Classificação: 10
Nossa classificação: Livre
Justificativa: a representação de violência da animação é fantasiosa e engraçada, sem nenhuma cena inadequada para crianças. Certamente as qualidades do filme valem a pena para crianças e adultos.
