O que Três Graças revela sobre a maternidade adolescente e a misoginia da sociedade

Joélly Maria, Gerluce Maria das Graças e Lígia Maria compõem o núcleo familiar de mães solo da novela Três Graças. Foto: Divulgação

Após um final, diga-se de passagem, bem decepcionante do remake de Vale Tudo, a Globo possui um diamante a ser lapidado em suas mãos com a nova produção de Aguinaldo Silva, Três Graças, que tem a premissa de contar a história de três mulheres da mesma família — avó, mãe e filha, respectivamente — que ficaram grávidas na adolescência. Gerluce Maria das Graças integra uma família de mães solo: é filha de Lígia Maria e mãe de Joélly Maria, que, no início da trama, descobre uma gravidez aos 15 anos e, assim como a mãe e a avó, será uma mulher que criará sozinha sua criança.

Novamente retomando a antecessora de Três Graças, é muito bom ver novelas voltando a pautar assuntos sérios — como a gravidez na adolescência — com a importância que o tema exige, além de um encadeamento lógico, sem recorrer constantemente a publicidades. O autor teve a ideia da obra ao se deparar, em um posto de saúde, com diversas jovens grávidas e sozinhas. 

A cena presenciada pelo autor que desencadeou a história é muito comum, já que, segundo o Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma em cada 23 adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos se torna mãe a cada ano. Além disso, a gestação precoce possui forte relação com privação social, evasão escolar e ausência de políticas públicas eficazes, além de oferecer inúmeros riscos à gestante. Também é considerada uma gravidez de risco por ter, por exemplo, mais chances de pré-eclâmpsia, um distúrbio que aumenta a pressão arterial e força o parto prematuro; complicações no parto; infecção urinária ou vaginal da gestante. Além disso, quando a grávida tem menos de 45 quilos, pode haver impactos no peso do bebê. Por fim, levando em consideração o psicológico, existem chances muito grandes de a gestante desenvolver depressão pós-parto, já que ainda muito novas elas são inseridas num contexto de obrigações da maternidade que podem ser cruéis. 

Algumas pautas que já eram historicamente tratadas em novelas da Globo acabaram sendo colocadas de lado nos últimos tempos, e aquilo que vinha se tornando um progresso regrediu de várias formas, de acordo com recentes decisões tomadas pela emissora. A consequência disso foi justamente a perda de espaço para assuntos como gravidez na adolescência, trazida de volta agora com o dramaturgo.

Com essa ausência, vêm a desinformação e o desconhecimento da realidade.  Logo no anúncio do elenco de Três Graças, diversos comentários eram: “Você tá querendo que eu acredite que essa mulher vai ser avó?”. Algumas dessas reações se referem a Gerluce, personagem de Sophie Charlotte.

Reprodução / X-Twitter

As novelas sempre foram mecanismos de extrema importância para a comunidade brasileira e importantes para a construção de nossa identidade. Trazer realidades vividas por grande parte da sociedade sempre foi uma premissa das obras; entretanto, o crescente conservadorismo no país tenta, de muitas formas, mascarar essas realidades.

A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, entrevistada pelo portal de notícias Terra, explica que “o tabu de falar com adolescentes sobre sexo e sexualidade pode aumentar os casos de gravidez na adolescência, sim. Precisamos que professores e escolas abram mais espaço para esse diálogo com os pais, para ensiná-los a conversar com os filhos”. Sem esse diálogo aberto, que pode muitas vezes ser debatido em novelas, as adolescentes ficam vulneráveis a desinformação, julgamentos e pressões sociais, o que muitas vezes dificulta o acesso a escolhas conscientes sobre sua própria sexualidade e maternidade.

Outros comentários em redes sociais evidenciam a misoginia que as mulheres enfrentam cotidianamente, especialmente durante a gravidez, ainda mais quando ocorre na adolescência.

Reprodução / X- Twitter

Diante de uma cena construída de forma cuidadosa, que dá origem à premissa da novela, surgem falas como esta: “Não tem galantaria, deu porque quis”. Esse comentário escancara a misoginia, vinda de  homens que se consideram sempre críticos de maneira justa, mas que nunca culpabilizam o pai — que, diga-se de passagem, não passa de um playboy inconsequente que frequentemente também se coloca no lugar de vítima.

A história da família brasileira nasce na família patriarcal, ainda hoje impregnada desse modelo. Vivemos em um país que, em 2022, tinha 49,1% dos lares brasileiros chefiados por mulheres, segundo o Censo Demográfico do IBGE. Esse dado representa um aumento significativo em relação a 2010, quando o percentual era de 38,7%, e mostra uma aproximação entre a proporção de chefes de família mulheres e homens, já que homens são “novos demais, não dão conta”, enquanto as mulheres, além de serem expostas a riscos evidentes à saúde e, muitas vezes, se encontrarem sozinhas, acabam assumindo responsabilidades que, na prática, não deveriam recair apenas sobre elas.

A história de Joélly Maria segue a proposta de uma telenovela de qualidade e é reflexo de uma realidade que ainda atinge muitas adolescentes brasileiras. Ignorá-la é fechar os olhos para questões sociais urgentes. A obra, logo no seu início, já mostra uma grande construção, espero que Aguinaldo não nos decepcione.

Serviço:
Título original: Três Graças
Onde assistir: Globoplay
Gênero: Telenovela
Classificação: 12 anos (A12)
Classificação da autora: 12 anos (A12)
Justificativa: Pode conter cenas, temas ou linguagens não recomendados para menores dessa idade, embora não contenha conteúdo extremamente explícito.

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Por Marcela Pauline

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