A força dos relatos testemunhais contra as estruturas de violência em ‘Ela Disse’

As jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey foram premiadas com um Pulitzer de Serviço Público em 2018. Foto: Divulgação

Alerta de gatilho: Esse texto contém descrições de relatos de abuso sexual

Em 2017, uma série de manifestações online tomou conta do antigo Twitter. Mulheres de diferentes origens publicaram seus relatos de abuso sexual com a hashtag “Me Too”, fazendo referência ao movimento fundado pela ativista Tarana Burke em 2006 para combater os crescentes casos de violência sexual nas escolas. Traduzido para o português significa “Eu também”.

A escolha dos termos não é à toa: significa evidenciar a rede de abusos de que as mulheres são constantemente vítimas, e o silêncio que fortalece essa estrutura. A onda de hashtags tomou uma forma maior: se transformou em um movimento consolidado, presente em diferentes países, para combater violências sexuais a partir da coleta de relatos, entendendo que as vozes das vítimas jamais podem ser caladas.

Mas isso não aconteceu da noite para o dia. A participação de diferentes camadas da sociedade foi necessária, sobretudo das mulheres. Trabalhadoras, mães e até atrizes de Hollywood tiveram papel fundamental na formação do Me Too. Entre elas estavam as repórteres Jodi Kantor e Megan Twohey, que fizeram um importante furo de reportagem sobre as denúncias de abuso sexual cometidos por Harvey Weinstein, então produtor de cinema estadunidense.

Com a manchete “Harvey Weinstein pagou durante décadas para suas acusadoras de abuso sexual”, a reportagem recolhia denúncias de diferentes mulheres que relatavam as condutas sexuais criminosas de Weinstein contra elas, desde funcionárias de equipe até atrizes escaladas para seus filmes. Ao todo, houve mais de 80 denúncias públicas contra Weinstein e um total de 16 acusações judiciais. Em 2023, o ex-produtor foi condenado a uma pena de 16 anos em Los Angeles por conta do acúmulo de acusações de estupro.

O Histórico de violências cometidas pelo produtor

Em 1979, Harvey e seu irmão Bob Weinstein fundaram a Miramax Films, uma das maiores produtoras independentes do mundo. Vinte seis anos depois, eles deixaram a Miramax e deram início à The Weinstein Company. Em ambas as empresas, Weinstein participou da produção e distribuição de grandes sucessos, como Pulp Fiction, Shakespeare apaixonado e Django Livre. Com atuação em Hollywood, no auge de sua carreira, Weinstein era dono de uma fortuna bilionária de aproximadamente 240 milhões de dólares.

A relação de trabalho entre o produtor e as atrizes e funcionárias implicava uma hierarquia de poder. Weinstein poderia atuar decisivamente na carreira de atrizes e trabalhadoras da área, que sentiam que poderiam perder cargos e papéis importantes se denunciassem o produtor por suas atitudes abusivas se não cedessem a elas: “Não houve nenhuma menção explícita de que para ser a estrela de um daqueles filmes eu teria que dormir com ele. Mas estava subentendido”, relata a atriz Heather Graham sobre a vez em que Weinstein tentou forçá-la a fazer sexo.

Muitas atrizes hesitaram em ceder entrevistas para Jodi e Megan, entre elas, Gwyneth Paltrow. A atriz exerceu um papel importante na acusação contra Weinstein. De início, Gwyneth temeu denunciá-lo pois ele teve influência na sua carreira como artista, principalmente na conquista do papel em Shakespeare Apaixonado, que concedeu à atriz um Oscar. Após um tempo, ela revelou que ele a tocou sem seu consentimento e sugeriu que fizesse massagens nele. Ela se sentiu constrangida e horrorizada, principalmente por ser tão nova: à época, Gwyneth tinha 22 anos e Weinstein, 44.

A atriz não foi corajosa apenas por revelar as denúncias ao The New York Times, mas também por incentivar que outras mulheres expusessem os abusos que sofreram para conseguir justiça. Com isso, outras atrizes de Hollywood relataram casos parecidos: Weinstein as convidava para seu quarto de hotel para “discutir sobre assuntos de trabalho”, muitas vezes de roupão, sem nada por baixo. Em seguida, fazia insinuações sexuais e pedia insistentemente para lhe fazerem massagens. Nessas repetidas ocasiões, aconteceram diferentes abusos e assédio sexuais, incluindo estupros.

No processo da apuração, era preciso uma variedade de vozes para relatar. No entanto, a hesitação das fontes poderia se tornar um problema. Mesmo com as dificuldades, as repórteres incentivaram que as fontes dessem seus relatos para que isso não acontecesse com outras pessoas. Durante o processo de apuração, em contato com várias fontes, Jodi e Megan conseguiram criar uma rede que se habilitou a relatar, o que incluiu um conjunto de mulheres para denunciar Weinstein, como Angelina Jolie, Léa Seydoux e Ashley Judd. A casa de Gwyneth Paltrow serviu de ponto de encontro para discutir sobre os acontecimentos e gerar apoio às vítimas das violências de Weinstein.

O intenso e complexo trabalho de apuração das repórteres do NYT

Diante de tantas acusações, as repórteres Jodi e Megan tiveram um extenso trabalho a fazer. A investigação começara a partir de um tweet da atriz Rose McGowan em que ela relatava ter sido vítima de um estupro de um grande produtor de cinema, e nada havia sido feito. Após esse primeiro passo, muitos outros relatos foram encontrados durante a apuração das jornalistas. Algumas das mulheres vítimas de Weinstein tinham medo de denunciá-lo e sofrerem judicialmente, já que o produtor poderia processá-las por difamação ou havia obrigado-as ao silêncio por meio de  indenizações em acordos judiciais sigilosos.

Mesmo em meio às complexidades e dificuldades da apuração, Jodi e Megan entendiam a importância de publicar uma matéria como essa no NYT. A cobertura começou em 2016 e se estendeu até 2019, e tem rendido até os dias atuais frutos importantes na luta contra o silenciamento das vítimas de abuso sexual. Entre elas, a demissão de Harvey da Weinstein Company em 2017 e sua prisão em 2018. O impacto da publicação atravessou fronteiras, fazendo com que o mundo conhecesse as acusações contra ele e inspirasse mulheres a contarem suas histórias.

Em 2019, a dupla se juntou novamente para escrever, desta vez, um livro-reportagem. Intitulado “Ela disse”, o livro retrata os bastidores da pesquisa, produção e publicação da reportagem que expora os casos de violência sexual envolvendo Weinstein, além de Donald Trump e Brett Kavanaugh, juiz da Suprema Corte dos EUA. As repórteres realizaram um trabalho importante em meio ao cenário global de violências contra a mulher. Segundo a ONU, uma a cada três mulheres já foram vítimas de violência sexual ou física por parceiros ou pessoas desconhecidas. Esse dado demonstra que 840 milhões de mulheres no mundo todo já foram vítimas. Diante desse cenário, a urgência de ações de combate se tornam ainda maiores, e o jornalismo pode ser um aliado, como evidenciado no trabalho de Jodi e Megan.

O livro-reportagem demonstra o cuidado na apuração, respeitando o contexto de vida de cada vítima e a escolha de falar ou não. Ainda assim, as repórteres entendiam a importância de coletar uma série de relatos diferentes para publicar a matéria. Isso porque, frequentemente, mulheres são questionadas ao relatarem casos de abuso e assédio sexual, mesmo que esses acontecimentos sejam cada vez mais constantes. Normalmente, esse comportamento faz com que elas se sintam inseguras em denunciar, e não o fazem, principalmente por conta da impunidade aos agressores.

A falta de justiça em casos como esse contribui para impedir o combate devido ao problema, fazendo com que os casos de violência sejam cada vez mais frequentes. Mesmo em meio às dificuldades e obstáculos na coleta de relatos, o livro frisa a importância de fazê-lo para quebrar as correntes de silêncio e expor agressores. A partir do maior número de relatos coletados, uma rede coletiva de mulheres foi formada a em movimentos como o “MeToo” e a colaboração para a publicação da matéria do The New York Times. Os relatos coletivos são capazes, também, de formar redes de apoio para mulheres vítimas de violência, trazendo um maior acolhimento para poder lidar com o trauma.

 Ela Disse é um importante livro-reportagem que traz discussões para compreender as etapas do jornalismo investigativo junto com seus desafios. Jodi e Megan demonstram as complexidades jurídicas e factuais de uma apuração como essa, o que poderia causar possíveis riscos às vítimas. No livro, as repórteres relatam que as vítimas poderiam ser acusadas de difamação e sofrerem danos judiciais. O medo de relatar era frequente por parte das mulheres, que tinham medo de terem suas palavras descredibilizadas, como acontece com frequência nesse tipo de caso. Mesmo com os relatos, as jornalistas precisavam fazer uma apuração intensiva para checar as informações ditas a partir de documentos, muitas vezes, inacessíveis. Para além dessas dificuldades, Jodi e Megan também foram perseguidas por uma equipe de detetives contratada por Weinstein, que tentava sabotar a realização da matéria.

Ela Disse é uma obra que evidencia a força dos relatos testemunhais e a importância de cumprir a função de ampliar as vozes das vítimas a partir da prática jornalística. Com uma perspectiva de gênero, as autoras trazem discussões importantes sobre os papéis de gênero na sociedade e as desigualdades que eles geram. É um livro essencial para a formação de jornalistas em diferentes áreas.

Título original: She said – The true story of the Weinstein Scandal
Gênero: Não ficção, livro-reportagem
Número de páginas: 320
Editora: Penguin Press
Tradução: Companhia das Letras
Recomendação de leitura: A partir dos 16 anos
Justificativa: Relatos de abusos sexuais explícitos, violência e desigualdade social

Por Rafaella Aparecida

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram ontem, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

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