“Garotas mortas” como essência da cultura do ódio que nos assassina

Com título cru e impactante, adentramos na leitura de um tema tão difícil: o feminicídio, que, em suma, é o assassinato de mulheres por razaão de seu gênero. O livro em formato de jornalismo literário relata três casos de feminicídio – sem solução – de jovens: Andrea Danne, de 19 anos; Maria Luísa Quevedo, de 15; e Sarita Mundín, de 20. Elas foram mortas em suas cidades de origem, respectivamente, San José, Presidencia Roque Sáenz Peña e Villa Nueva. 

Essas histórias são narradas de forma cuidadosa e especialmente tocante, contendo toda a subjetividade dos interiores da Argentina dos anos 80 e das vivências de Selva Almada, de onde origina-se a autora e as vítimas. Além disso, conta com o olhar dela como mulher e também vítima de preconceito.

A luta pelo direito de ficarmos vivas é coletiva. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Os casos investigados no livro assemelham-se mesmo que de longe. Eles são iguais em meio a tantas diferenças pois tratam-se de meninas muito jovens assassinadas única e exclusivamente por serem meninas. Cada um com sua particularidade, como Andrea, que foi encontrada em sua própria cama, sem sinais de maiores violências, senão seu peito repleto de sangue. Ou Maria Luísa, estuprada, estrangulada e deixada em um terreno baldio. E Sarita, que desapareceu sem rastros e nunca houve comprovação real de sua morte, pois não há corpo

O desenrolar do longo trabalho de Almada resulta na sensibilidade de casos pessoais, viagens de apuração, relatos e imagens difíceis de serem vistas. Ele traça muito bem toda a linha entre a tradição regional da violência contra a mulher – com a presença de outros casos sem resolução e que continuam acontecendo –, a normalização do abuso sexual infantil e feminino como forma de arrecadar dinheiro e a impunidade masculina na crista da onda dessa sociedade. 

Ambientação dos crimes

 O feminicídio é um crime que se dá como realidade há séculos; ele já foi maquiado como paixão, ciúmes ou crime passional e demorou a ser entendido como uma estrutura de ódio contra nós, mulheres. Muitas Andreas, Maria Luísas, Saritas e tantas outras perderam suas vidas com crimes “episódicos” e também ficaram sem solução. Nesse sentido, o livro relata, por meio de uma escrita pessoal, e diria até mesmo intimista ao compartilhar sua própria jornada, a trajetória de investigação e narração de feminicídios ocorridos na década de 80 na Argentina mas que continuam tão atuais. 

Selva Almada, escritora argentina e graduada em Literatura, realiza com maestria a função de contar os acontecimentos com um olhar holístico e narrado na perspectiva de gênero e política. Ela elabora os onze capítulos com a tentativa de compreender os casos presente por toda criação, tanto pelas respostas daqueles crimes, sem solução até o momento, quanto da barbárie que a acompanha pessoalmente por toda a sua vida, da violência contra a mulher e a autorização social de tudo isso. 

Garotas mortas é destroçador, inquietante e belo – no sentido da produção – pois há nele algo que se destaca: o caráter pessoal e representado quase como um diálogo, compartilhando aqueles medos, angústias e o peso de ser mulher na sociedade, seja ela qual for. O interior da Argentina, onde se originam os crimes, mostra-se rapidamente não aquele lugar pacato e harmônico, mas um local onde o abuso de crianças é normalizado por conta da questão financeira e os crimes contras as mulheres não são investigados ou minimamente aprofundados; quem dirá encontram um culpado. 

Nesse cenário, muito bem descrito, causa-me um incômodo forte ao pensar na infância e vida adulta dessas mulheres, como local constante de incerteza e sem saber se seriam as próximas vítimas de crimes insolucionáveis. E, pior, torná-los episódicos, no sentido de não traçar um modelo estrutural, uma questão muito maior do que somente uma vida perdida, mas o feminicídio como crime quase que inerente àquela sociedade adoecida. Na contramão de tudo isso, Garotas mortas nos traz o desconforto da configuração do mundo, com palavras sensíveis e com prática jornalística capaz de escutar o lado das vítimas com atenção, afinal, como ser neutra em relação à brutalidade?

A postura questionadora feminista adotada aqui integra e humaniza as mulheres de forma fundamental, ainda mais porque elas são colocadas em local de vulnerabilidade e fragilidade emocional, financeira e social, mostrando sua realidade e atenta às pautas mais profundas de cada uma. A autora busca inserir o feminicídio em um contexto de violência estrutural contra mulheres e, ao mesmo tempo, realiza a tarefa de dar dignidade a essas vidas individualmente.

Almada busca por respostas por meio de uma vidente, a “Senhora” – na tentativa de contato com as meninas – e por meio de familiares e amigos, mas nunca em tom de culpabilização delas, como fizeram outros veículos na época. Ao relatar, em meio ao processo de redemocratização da Argentina, com perspectiva de gênero, a escritora lidou com reportagens escritas de formas distorcidas e, muitas vezes, em entonação de fofoca com intuito de gerar movimento nas pequenas cidades. 

Essas abordagens são comuns na mídia, colocando a violência misógina como um acontecimento desconexo em relação ao todo e situada no noticiário policial como “mais um crime brutal” e só. No entanto, o ódio contra o feminino enraizado e realimentado todos os dias é razão suficiente para não só ir adiante com as investigações, mas também para colocar como linha do tempo todas essas garotas mortas unidas e ligadas. 

A perspectiva de gênero, adotada pela escritora argentina, faz exatamente esse movimento de não só escutar outras mulheres com responsabilidade e vontade de entender aqueles homicídios sem respostas, mas ver semelhança entre eles e conseguir colocá-los como um problema inteiro e não só das cidades de San José, Presidencia Roque Sáenz Peña ou Villa Nueva. 

Ao contrário do jornalismo policialesco, Garotas mortas não quer encontrar um culpado para dar fim à história de horrores e sim deseja problematizar a norma social – vista como tradição – do feminicídio como prática simplesmente impune e aceita. No vai e volta das páginas é possível se perder entre as três garotas principais e os outros tantos casos expostos, mas a ideia inicial está presente: a banalização da violação dos direitos básicos das mulheres não pode mais acontecer. Não há possibilidade de normalizar a barbárie e isso Selva Almada expõe muito claramente. 

O livro destoa das notícias clássicas da época e situa muito bem qual é o contexto, são assassinatos em razão de gênero. Materializando-se como manual de sensibilidade e ética jornalística no contato com fontes, nas escutas respeitosas e informadas, e sem dúvida, da humanização dessas meninas, que mesmo separadas por décadas do contexto da escrita, puderam ter suas subjetividades respeitadas e obedecidas. 

Almada nos dá caminhos possíveis para mudança

Soa repetitivo mas é preciso gritar tantas outras vezes e continuar gritando por Andrea, Maria Luísa, Sarita e todas aquelas que continuam sendo mortas novamente, pois como a autora relata: estar vivA é apenas uma questão de sorte. Não é sobre a “personalidade forte”, estar no lugar errado, vestindo roupas “indevidas” ou qualquer outras justificativa idiota para os feminicídios ao redor do mundo. 

Todas nós temos relatos infelizes, doloridos e indesejáveis a qualquer mulher, mas ao captar e noticiar com outros olhares, mais humanizados e éticos, pode ser que alguma trajetória seja alterada. O jornalismo com perspectiva de gênero de Selva Almada retrata toda essa angústia de tanto tempo, mas que mesmo assim, não caiu no esquecimento. Há sim uma hora de deixar ir e descansar das vítimas, como nas últimas páginas a autora se despede das meninas por intermédio da “Senhora”, mas ela não é o ponto final da estrutura montada no livro. 

Ele excede, explode e extrapola a si mesmo em diversos âmbitos, deixando a memória respeitosa e o legado dessa estrutura que urge mudança. Os sinônimos acima representam também esse ímpeto de incômodo pressionando o peito a todo momento, por mais que não haja conclusão certeira, Garotas mortas me traz, como mulher e jornalista, a força de vontade de fazer diferente. 

Serviço:
Título original: Raparigas mortas 
Gênero: jornalismo literário; casos reais; crime.
Editora: Todavia (tradução de Sérgio Molina)
Nossa classificação: 18 anos (A18)
Justificativa: O livro trata de temas sensíveis como feminicídio, estupro e outras violências contra as mulheres.

*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Por Lia Junqueira

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