Substantivo feminino, em seu sentido literal, o termo “visibilidade” é o “caráter, condição, atributo do que é ou pode ser visível, ser percebido pelo sentido da vista”, segundo o dicionário Oxford Languages. Figurativamente, é a “condição de ser efetivamente percebido, conhecido”.
O Dia da Visibilidade Trans pretende trazer a lente de uma outra ideia de visibilidade, para além da forma como os corpos trans são vistos pela sociedade. A visibilidade que a comunidade trans tem não contempla sua existência, mas sim uma visibilidade que violenta e força esses corpos a resistirem todos os dias sob olhares baseados na repulsa e na abjeção.

É a partir da luta pelo reconhecimento da existência T que surge, no dia 29 de janeiro de 2004, com o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, do Ministério da Saúde, o Dia da Visibilidade Trans. A data propõe ao país — que mais mata pessoas trans no mundo — que enxergue esses corpos como dignos de existência, respeito, inclusão e direitos.
Divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025 traz dados que colocam — novamente —, pela 18ª vez, o Brasil como o país que mais mata a comunidade trans. De acordo com a ANTRA, apesar de um recuo de 34% em comparação a 2024, os casos de transfeminicídios apresentam uma subnotificação, dada a não gestão do Estado desses registros. Além disso, a base de dados é dependente da cobertura dos casos, que é, muitas vezes, transfóbica e não considera a identidade da comunidade — quando não completamente ausente.
A existência desses corpos causa abjeção. De acordo com a pesquisadora Julia Kristeva, o sentido da abjeção “perturba a identidade, o sistema, a ordem”, e essa ordem refere-se à heterossexualidade, à manutenção do cistema. É daí que surge a vontade compulsória de criar uma máquina social que marginaliza e violenta esses corpos.
No dossiê, a presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, apresenta que esse processo acontece a partir de um ciclo de violências e exclusões sociais. No documento, visualizamos uma série de agressões marcadas em diferentes esferas sociais da comunidade LGBTQIAPN+. Diferentes contextos de violências apresentados em 2025 retratam o cenário exposto por Bruna, cujo primeiro ato é a negação da participação trans no convívio público e social.
A partir da transfobia estrutural, formada pela ideia desse corpo abjeto, é feita a retirada desses corpos do convívio social, marginalizando-os. Somada à negligência do Estado e à violência cotidiana — verbal e física —, temos a sua desumanização e a naturalização das violências. Por fim, nos dossiês, reportagens e demais conteúdos que retratam as mortes da comunidade, aparece o transfeminicídio.
O cenário contado pelo dossiê não é promissor, apresentando uma projeção de perda de direitos com o aumento do discurso político antitrans, somado a pseudoteorias extremistas e transfóbicas. Outro fenômeno observado é o agrupamento dessas ideologias por entidades que institucionalizam discursos de ódio cis, como evidenciado no material divulgado em 2025 pela ANTRA, que nos mostra um projeto de restringir direitos trans — muitas vezes já reconhecidos.
A defesa da existência e da visibilidade pelas vidas travestis, com o objetivo de romper o circuito de violências, deve ser estruturada de maneira interseccional, considerando gênero, raça, sexualidade, classe, deficiência e geração. Em casos recentes, como o da atriz Bruna Marquezine, em que suas características latinas foram associadas ao que a sociedade enxerga como a performance de uma pessoa trans e a gatilhos para discursos transfóbicos, percebemos o papel transversal da pauta.
Outros casos no esporte mostram o papel expansivo e coercitivo com que os padrões da cisgeneridade agem na sociedade. Partindo de uma visão colonial, a transfobia estrutural sufoca outros sujeitos também marginalizados. Nosso papel, enquanto sociedade, é o de estimular movimentos de defesa da resistência desses corpos. Em 2025, um exemplo de força contrária à ideologia antitrans foi a intervenção “Protect the Dolls” (proteja as bonecas, em português).
Impulsionada por diversas personalidades, a chamada para a ação de “proteger as bonecas” vem da cultura ballroom da década de 1980. Dolls surgiu como um termo cunhado por pessoas transfemininas como afirmação de feminilidade e confiança inabalável. A intervenção nos convida e invoca a travar uma luta coletiva junto ao movimento trans, com o objetivo de romper o circuito transfóbico, compreendendo-o desde a sua base, e afirmar, cada vez mais, a existência desses corpos.
Por Gabriel Maciel
