Não foi ciúme: violência vicária e o crime de Itumbiara 

A violência vicária é uma forma de violência doméstica, psicológica e moral e pode impor penalidades ao agressor.

É comum mulheres se sentirem inseguras ao andar sozinhas por uma rua deserta, especialmente à noite. Por isso, costumamos pensar em formas de tornar o caminho mais seguro: uma roupa mais coberta, menos “feminina” talvez, caminhos seguros, apertar o passo e fechar o rosto. Mesmo que essas medidas não garantam segurança, é algo que faz parte do cotidiano de muitas mulheres. Mas o perigo não é apenas esse, ele mora mais perto. De 144,2 mil casos contabilizados de agressão contra a mulher, 116,8 mil ocorreram na casa das vítimas, o equivalente a 81% do total, segundo dados do Atlas da Violência de 2024, obtidos a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. É difícil definir um lugar que seja de segurança. 

Há algum tempo, notícias sobre agressão contra mulheres e feminicídios vêm emergindo na mídia e têm ganhando cobertura e notoriedade. Essas violências não são atuais,  já existiam antes de sequer serem criadas a Lei Maria da Penha, que trata sobre violência doméstica e familiar, e a Lei do Feminicídio. O que quero reiterar é que, por vezes, imaginamos o perigo em um beco escuro, mas ele pode estar em casa, não vindo de um homem doente ou de um “monstro”, como algo incomum e isolado na nossa sociedade.

Os crimes contra mulheres por razões de gênero são um problema social que nasce do machismo e da misoginia, da visão de que a mulher é uma propriedade e, por isso, qualquer coisa pode ser feita com seu corpo e sua vida. Por essa razão, essas violências não são atípicas; elas são estruturais e se repetem há muitos séculos. O feminicídio, que é a expressão mais extrema da violência contra a mulher, passa uma mensagem, a de que um homem (porque a maioria dos feminicidas é homem) pode fazer o que quiser com aquela mulher, inclusive, decidir o seu destino, como argumentam as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues no livro História de morte matada contada feito morte morrida.

Um caso que aconteceu recentemente e ganhou repercussão foi o do secretário de Governo de Itumbiara, em Goiás, Thales Naves Alves Machado, que atirou nos próprios filhos e, depois, tirou a própria vida. Os dois meninos, Benício, de 8 anos, e Miguel, de 12 anos, morreram. Antes de cometer o crime, Thales publicou uma carta em seu perfil no Instagram. No texto, ele indicava uma crise no casamento e uma possível relação extraconjugal da esposa. Ele pediu desculpas, usou várias referências religiosas e afirmou ser “intenso e verdadeiro” e que, por isso, não conseguiria viver com as lembranças que a mulher teria causado.

Este não é um caso de violência física direta contra a mulher ou uma tentativa de feminicídio, mas esse crime também passa uma mensagem, ligada à misoginia, para a sociedade. Crimes desse tipo são denominados violência vicária, que ocorre quando o agressor utiliza os filhos como instrumento para infligir sofrimento à mulher. Ele não tirou a vida dela, mas a condenou a viver o luto dos filhos e a enfrentar o julgamento social. Ao poupar a mulher e atacar os filhos, o agressor busca uma punição que, na lógica do controle, é pior que a morte: a destruição emocional de quem fica.

Mais que isso: coloca, claramente, a suposta culpa pelo infanticídio nos atos dela. É possível perceber, por comentários em postagens sobre o caso, que as pessoas também a culpabilizam e, às vezes, até sugerem que quem deveria ter sido assassinada era ela, por “merecer” uma punição por um alegado caso extraconjugal. 

As capturas de tela a seguir, tiradas da página de fofoca Choquei e da rede social X, antigo Twitter, exemplificam como esses espaços funcionam ao discutir certos temas. A Choquei publica conteúdos de forma exaustiva quando se trata se casos brutais e que estão em evidência no momento, utilizando músicas dramáticas e recursos que apelam ao emocional e não tensionam o fato, nesse caso o assassinato de duas crianças. 

Com o pretexto de apenas passar a informação, a página publica várias atualizações do caso e mantém nos comentários um espaço que fomenta o julgamento e linchamento moral. A Choquei, em sua conta com milhões de seguidores, foi criada em 2014 por Raphael Sousa Oliveira com o foco em postar notícias e fofocas, apesar de ele não ser jornalista. Com postagens quase em tempo real e explicações de contexto de forma curta, que resumem os fatos – como em um lead ou tweet para que não seja necessário ler uma notícia e sair da rede social –, a página se tornou a fonte de informação de muitos brasileiros. Para prender a atenção, utilizam chamadas sensacionalistas com palavras em caps lock, como “GRAVE”, “ALERTA”, “ATENÇÃO”, “EXCLUSIVO” ou “VEJA”, acompanhadas de emojis de sirene, criando um senso de urgência que prende a atenção e estimula o engajamento rápido.

Esse método de divulgar informações já gerou consequências irreversíveis, como no caso de Jéssica Vitória Canedo, que cometeu suicídio em 2023 após a página replicar fake news sobre sua vida pessoal. Na ocasião, a Choquei manteve o conteúdo no ar mesmo após alertas de que a notícia era falsa. Recentemente, em 18 de fevereiro de 2026, o perfil oficial da página no Instagram foi desativado, deixando os usuários apenas com a mensagem de “página não disponível”, sem um posicionamento oficial sobre o motivo da queda. No X as postagens continuam normalmente. 

Nesse caso de Itumbiara, a Choquei explorou detalhes do caso e expôs a vida íntima. Em meio aos posts sobre o crime, havia uma publicação com imagens feitas por detetive particular no momento em que a esposa estava com um homem. Como em postagens anteriores a mulher já estava sendo julgada nos comentários, a página viabiliza as críticas e, além disso, secundariza o assassinato das crianças, tirando-o do foco e ignorando o fato de o crime ter uma razão de gênero. A página ignora a dinâmica da violência vicária e foca nas ações da mulher, seja para tentar conferir uma justificativa para o crime, seja no que ela estava fazendo no momento, como a ida ao velório das crianças. Assim, o debate passa a ser o comportamento da sobrevivente.

Captura de tela de comentários em publicação da página Choquei, na qual havia imagens da esposa do secretário em um restaurante com um homem. Alguns comentários criticam a postura da página, mas a maioria, seja de homens ou de mulheres, é de julgamento.
Capturas de tela de interações na rede social X, nas quais usuários reagem à notícia do crime. Os comentários evidenciam a transferência de culpa para a mãe e a afirmação de que ela deveria ter sido a assassinada.
Há uma polarização no debate, mas a maioria dos comentários fazem juízo moral sobre a mulher.

Esses comentários expõem como a sociedade ainda interpreta que mulheres devem ser punidas por seus eventuais erros de maneiras brutais e fatais. Uma parcela dos usuários tenta sinalizar a complexidade do crime e a inocência da mãe, mas há uma forte resistência em reconhecer a misoginia como a gênese da violência.

Há muito tempo é comum, nas narrativas de casos de violência de gênero e de feminicídio, que o jornalismo ou o senso comum legitimem o crime, retirando a responsabilidade da ação do homem e vinculando a brutalidade à emoção. Em 1976, Doca Street assassinou Ângela Diniz e, na época, o argumento central era o de que ela o teria seduzido e provocado ciúmes. Utilizava-se a tese da “legítima defesa da honra” para justificar o crime. Em 2008, Lindemberg Alves sequestrou e assassinou Eloá Pimentel após o término do namoro. Em diversas matérias jornalísticas, o crime era tratado de forma banal e compreensível. Em 2010, Bruno Fernandes foi o mandante do assassinato de Eliza Samudio e, por vezes, foi retratado como um jogador que perdeu o futuro e a carreira por culpa de uma “mulher interesseira”. 

Esses são casos de feminicídio emblemáticos no Brasil e, em todos eles, foi construída uma narrativa de motivação emocional que teria levado esses homens ao extremo, como se tivessem sido “provocados” por atos de mulheres supostamente imorais: sedutoras, adúlteras, ingratas, interesseiras são os estereótipos que recaem sobre elas.. 

No caso de Itumbiara, ao se envolver com outra pessoa, a mulher “extrairia” do (ex?)marido o pior, dando, portanto, a ele razão e motivo para agir em resposta a esse desvio; é a partir dessa lógica que se tentam justificar os crimes. Mas é preciso reforçar que a violência doméstica não é uma resposta a um comportamento, mas uma ferramenta de controle. 

A culpa nunca é da vítima, e a dificuldade em romper ciclos de abuso é acentuada por esse julgamento social que podemos ver nas redes, por exemplo. O machismo e a misoginia não vitimam apenas mulheres. Ao tratar os filhos como extensões de sua posse ou instrumentos de vingança contra a esposa, o agressor demonstrou que essa lógica pode se sobrepor até aos laços de paternidade. Embora a violência vicária não seja tipificada com esse nome específico na Lei Maria da Penha, ela pode impor penalidades ao agressor por se enquadrar como uma forma de violência psicológica e moral.

Por Ana Luíza Rodrigues

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