Gendrar a defesa do diploma em jornalismo

A Federação Nacional dos (e das, des) Jornalistas (Fenaj), órgão máximo de representação profissional de jornalistas do Brasil, convoca nesta quarta-feira, 26 de agosto, uma mobilização nacional em torno da defesa do diploma em jornalismo para o exercício da atividade.

O DIA D pelo Diploma nasce de uma retomada da discussão pública sobre o tema, que está em pauta e é bandeira histórica da Fenaj e de outras entidades profissionais e acadêmicas. O assunto ganhou força desde que o Supremo Tribunal Federal, em 2009, derrubou a exigência legal do diploma em jornalismo para o exercício da atividade.

A discussão, renovada por declarações dos ministros do STF Flávio Dino e Alexandre de Moraes, é sempre uma oportunidade para entender porque o diploma de jornalismo é fundamental, como relembra a presidenta da Fenaj, Samira de Castro.

O Ariadnes nasce em um curso de Jornalismo no interior do Brasil, em um cenário complexo: Mariana, Ouro Preto e Itabirito não são considerados desertos de notícias e têm veículos jornalísticos profissionais e com credibilidade. Contudo, têm sido tomadas recentemente por conteúdos predatórios, violentos e antiéticos que se passam por jornalismo e cotidianamente violam direitos humanos e legislações nacionais, além de ocupar vagas de profissionais qualificados e preparados, por salários mais baixos.

Defender o diploma é, assim, buscar qualificar o ecossistema informacional da Região dos Inconfidentes e quem estuda para ser jornalista. Mais que isso: é impossível falar de jornalismo sem tensionar as dimensões de gênero e sexualidade, que são nosso norte de atuação. A não obrigatoriedade do diploma tem trazido impactos historicamente mais sentidos por mulheres, pessoas negras e sujeitos da comunidade LGBTQIAPN+.

Precarização: se jornalistas profissionais enfrentam a concorrência de pessoas sem formação ética, teórica, técnica, humanista, o mercado cria uma concorrência na qual quem sai perdendo é a trabalhadora e o trabalhador, submetidos a salários mais baixos. E, historicamente, a precarização impacta mais mulheres, que já recebem menos que homens.

Violência: em um cenário carregado de informações de baixo padrão, produzidas para engajamento e sem compromissos éticos, a confiança no jornalismo e o respeito à atividade diminuem, e profissionais ficam mais sujeitos a violências. Os dados mostram que jornalistas mulheres são especialmente suscetíveis a ataques misóginos.

Qualidade e sensibilidade: conteúdo produzido por pessoas sem nenhuma noção dos fundamentos da atividade jornalística ajuda a corroer a qualidade da informação e tem efeitos na cobertura de temas relacionados a direitos humanos e a grupos socialmente vulnerabilizados, ampliando estereótipos ou a invisibilização dessas questões.

Se compreendemos o jornalismo como uma profissão, é imprescindível que ele demande uma formação especializada, calcada em um conhecimento específico produzido sobre ele. A defesa do diploma é, portanto, também a defesa das jornalistas, do jornalismo e de nossas comunidades.

Porém, como apontam as participantes da mesa da rede Antonietas no SBPJor em redes, a cobrança do diploma não pode vir sozinha: precisamos questionar, também, que formação é essa em jornalismo? Uma formação majoritariamente branca, masculina, ocidental, que relega questões de gênero e sexualidade às margens – disciplinas eletivas, grupos de pesquisa – sem nunca compreendê-las como parte essencial do que estudantes precisam aprender.

Por Ariadnes

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