A Professora de Piano: o amor precisa ser reconfortante?

Quarto filme da mostra O Amor é Filme, aqui do Ariadnes, A Professora de Piano nos traz um enredo nada reconfortante para contar a história de Erika, uma mulher solitária que vive com uma mãe extremamente controladora. Interpretada pela atriz francesa Isabelle Huppert, a personagem é uma professora de piano no Conservatório de Viena, tem uma relação com sua mãe baseada no controle e se atrai pelo jovem Walter Klemmer, um aluno prodígio, bom pianista, sedutor e querido por todos. Dirigida e roteirizada por Michael Haneke, em 2001, a história envereda pelas teias da sexualidade desviante, da relação entre mãe e filha e da atração entre professora e aluno.

Duas pessoas se abraçam intensamente no chão de um ambiente com paredes brancas revestidas de azulejos e divisórias que lembram um banheiro coletivo. Uma delas está ajoelhada, de costas para a câmera, vestindo blusa preta, calça jeans azul e sapatos claros. A outra, com cabelos castanhos e blusa escura, envolve os ombros da primeira com os braços, mantendo os olhos fechados durante o abraço. Uma das pernas da pessoa ajoelhada aparece levantada para trás, transmitindo a intensidade e a espontaneidade do encontro.
Erika e Walter se beijam no banheiro. A fotografia é capa do DVD do filme. Foto: Divulgação/CNN

A pianista e o aluno se conhecem em um concerto. Erika é mais reservada, carrega consigo uma frustração por ter se tornado professora e está acompanhada por sua mãe. Walter, por sua vez, fica fascinado por aquela mulher – quem não ficaria?, Isabelle Huppert é lindíssima – e tenta chamar sua atenção. O primeiro contato é um resumo da relação desse casal complexo, ambos refletindo suas expectativas em relação ao outro: ela ama a liberdade de Walter, pois não a tem, e ele se sente atraído pela mulher reservada e mais velha, tão boa no piano quanto ele; a parte que mais ama em si. A relação a dois acaba mediada pelo desconforto de uma atração “maluca”, pela mãe controladora e por um olhar normativo que buscamos explorar nesta crítica.

O desconforto e o “outro”

O filme de Haneke nos empurra no abismo desconfortante da protagonista, que provoca torções em noções normativas que compartilhamos sobre o amor e o sexo. Reconhecemos que a pianista não se encaixa em uma cartilha de feminilidade hegemônica: ela é uma mulher próxima aos 40 anos que não é mãe, nem esposa romântica e nem uma autoridade acadêmica que acolhe com afeto maternal os alunos. E, ao habitar uma sexualidade sadomasoquista e fragmentada, Erika acaba se tornando o “Outro” absoluto. Ela é aquela que transgride as ordens do gênero feminino e do pacto normativo entre corpo, afeto e reprodução. Isso nos leva aos questionamentos de Butler, no prefácio da obra Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade, que também nos orienta em outras inquietações no decorrer desta crítica. Afinal, quem constrói o “Outro” e o “sujeito” ideal? E a relação binária entre “homens” e “mulheres”? Quem regulamenta a estabilidade desses termos? O que acontece com o indivíduo e com a categoria de gênero quando a heterosexualidade normativa é “quebrada/desfeita”?

À medida que a narrativa avança, nos deparamos com Walter na figura do “sujeito masculino” que confronta Erika, o “Outro feminino”, por conta do lugar que ela ocupa ao revelar suas preferências heterodoxas; entre elas o peeping toms, ou conhecido voyeur, que espia pessoas em segredo e sem o consentimento delas, em momentos íntimos. O conflito dessa relação está em uma carta entregue a ele, detalhando de forma minuciosa o que ela deseja que aconteça entre os dois durante o sexo. A protagonista, assim, desestabiliza a configuração de poder que constrói a relação binária entre homem e mulher: Walter se aproxima de Erika esperando encontrar a reciprocidade de um romance tradicional – com desenvolvimento afetivo do casal heterosexual, com cortejos do homem para a mulher e com a recepção feminina passiva -, que ali não existe. Ao contrário, ela exige o domínio e o controle da cena erótica, sem a busca da aprovação ou validação do olhar masculino em cena. Ao se espantar e recusar ir ao encontro do desejo dela, vemos a fragilidade da heteronormatividade de Walter que, diante uma mulher que recusa a subserviência do desejo, perde a posição de “dominador natural”.

Dois personagens estão diante de um piano preto em um ambiente interno iluminado por luz natural. À direita, uma pessoa de cabelos loiros curtos, vestindo uma blusa preta, está sentada diante do instrumento e mantém as mãos sobre as teclas tocando piano. Ao lado, uma mulher de cabelos castanhos na altura dos ombros, usando camisa bege e cardigã vermelho, aponta para as partituras apoiadas na estante do instrumento. Ao fundo, há uma parede branca, uma janela com cortinas claras e cadeiras de madeira.
Walter espera uma relação nos padrões heteronormativos tradicionais e não encontra em Erika. Foto: CNN/Divulgação.

É nesse descompasso que acompanhamos Walter recorrer a diversas estratégias para tentar restabelecer a ordem abalada, enquanto, paralelamente, Erika busca negociar sua subjetividade dentro dos moldes do romance tradicional. Essas tentativas fracassam quando o desejo de Erika não encontra a aceitação de Walter, que a empurra novamente para o lugar do “Outro”, impossibilitando que a dissidência erótica coexista na relação heterosexual dos dois. Ao perceber que a normatividade não pode ser reerguida, o aluno se consolida como o detentor do olhar normativo sobre a professora, projetando nela as expectativas de uma feminilidade hegemônica e de um romance nos moldes tradicionais da heterosexualidade, apesar da diferença de idade e de poder.

O olhar normativo

Quando Erika lhe entrega a carta, que sugere romper o desejo heteronormativo dos dois, Walter é confrontado pelo “Outro” que não se curva diante a normalidade, o que lhe faz reagir através de uma posição de dominador “natural”. Ele vai até a casa dela e a espanca enquanto fala “não era isso que você queria?”, repetindo as palavras que ela lhe escreveu. Em uma cena perturbadora e longa, ele estupra Erika e vai embora. Butler compreende que para o sujeito masculino do desejo, a presença inesperada do “objeto” feminino que contesta a autoridade masculina provoca um verdadeiro escândalo – maior até do que os crimes e violências praticadas por ele. Afinal, a dependência radical em relação a esse “Outro” feminino expõe o caráter ilusório da sua própria autonomia.

Erika, então, deixa de ser alguém “amável” ou desejável nos moldes convencionais e se torna uma mulher pecadora, suja e indigna do seu próprio consentimento. Aqui, como explica a autora, a análise genealógica – da origem, da linhagem e da evolução das famílias ao longo de gerações – toma o gênero e suas dinâmicas nas relações como foco. Como a professora já havia perdido a estabilidade diante a noção do “feminino” (não ser mãe, não ser uma esposa ideal e não ser acolhedora ou maternal), acompanhamos ela negar a feminilidade mais uma vez diante a relação com Walter ao fracassar na tentativa de se encaixar nas expectativas do homem. E na finalidade de retomar a norma, ele pune Erika usando seu poder como arma de violência moral e sexual.

Quando assistimos ao filme, não nos confirmam se aquela prática sexual foi consentida ou não. Existem práticas no BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo) em que palavras de “sim” ou “não” não são usadas para dar consentimento em atividades sexuais que rompem os moldes normativos. Porém, em cena, eles parecem não existir. Essa falta de determinação sobre o consentimento da professora e a violência punitiva exercida por Walter abrem espaço para questionamentos sobre a vivência erótica de Erika, que encontra conexões na estrutura de controle e opressão vivenciadas no seu lar. Para além do olhar normativo masculino, a construção de um corpo “prisioneiro”, do voyeurismo e do masoquismo, se vinculam à relação com a mãe. Dessa forma, a busca pelo prazer por meio da observação silenciosa, da dor e da punição se revelam como sintoma de uma subjetividade profundamente interditada pela repressão do desejo.

O controle doméstico e a agência do próprio corpo

Na relação com sua mãe, Erika não pode comprar roupas que deseja e nem chegar tarde em casa, quando essas pequenas transgressões ocorrem, são resolvidas com discussões e agressões físicas. Nesta crítica, não vamos colocar a “causa” e a “culpa” da sexualidade desviante de Erika na individualidade da figura materna opressora; buscamos compreender o espaço doméstico compartilhado por ambas como um reflexo das próprias redes de disciplinaridade social. Essa recusa em atribuir a “origem” da sexualidade de Erika à mãe, alinhada à genealogia de Butler, nos leva, na verdade, ao efeito prático dos discursos de opressão sobre as mulheres, que possuem uma matriz reguladora mais ampla.

Mulher de cabelos castanhos presos para trás aparece em primeiro plano, olhando diretamente para a câmera com expressão séria e semblante contemplativo. Ela veste um sobretudo bege sobre uma camisa branca e uma gravata escura. A personagem está posicionada atrás de grades verticais de metal cinza, que atravessam o enquadramento e dividem visualmente seu rosto e corpo. Ao fundo, há uma rua, árvores, uma área gramada, veículos estacionados e edifícios, compondo um cenário urbano.
Foto: CNN/Divulgação

Sob essa perspectiva, vemos que o ambiente doméstico atua com pequenas interdições cotidianas a fim de manter os rituais constantes de vigia. Ele é o território imediato que mantém uma tutela infantilizada sobre a protagonista, privando-a de uma autonomia e intimidade. Como a convivência no lar é sufocante e destituída de toda a privacidade, a vivência erótica de Erika é empurrada para longe do olhar materno que tudo vigia, atuando em uma espécie de clandestinidade do voyeurismo em cinemas pornográficos e drive-ins e das práticas de masoquismo.

Uma voyeur é aquela que sente prazer em observar outras pessoas fazendo sexo; caracteristica de Erika que é aprofundada quando ela espiona um casal no drive-in e quase é descoberta. Ao fazê-lo, Erika subverte o olhar ativo de desejo que, historicamente, foi reservado apenas para o sujeito masculino, invertendo a dinâmica tradicional na qual a mulher é o objeto que deve ser contemplado. Esse olhar à distância atua como um gesto de autonomia de Erika, em que ela está fora do alcance de um olhar disciplinador e exerce um prazer que não busca a validação ou aprovação de terceiros.

A outra característica da sexualidade de Erika é o masoquismo, em que o seu prazer está na dor infligida pelo seu consentimento. As sequências em que essa preferência sexual aparece são sensíveis, com uma sutileza e beleza perturbadoras. O longa traz a cena do banheiro: ela se tranca no espaço reservado e, com uma lâmina de barbear, realiza um corte na região da genitália. A cena é gravada sem muito alarde, com uma calma ritualística dos gestos da protagonista, indicando a automutilação como algo contemplativo e solitário. A cena não dá certeza se Erika se corta em busca de prazer ou para se punir.

Em um contexto onde a autonomia de Erika é constantemente confiscada, a dor auto infligida é mais uma busca de agência sobre o próprio corpo; é a personagem delimitando as fronteiras do seu próprio “eu” e o único espaço que lhe resta. A ambiguidade sobre o consentimento permanece até a cena final do filme, após a agressão de Walter. Erika comparece ao concerto em que ela tocará, esperando vê-lo. Contudo, quando ele chega, age com frieza e indiferença, como se nada tivesse acontecido. Diante do fracasso de restabelecer qualquer pacto afetivo, Erika golpeia o próprio peito com uma faca e abandona o local de apresentação.

Ao automutilar-se de modo mais radical e renunciar a participação no concerto, a protagonista nega uma última vez os papéis sociais que são esperados de si: o de artista virtuosa, o de objeto do desejo masculino de Walter ou o de vítima passiva. O ato final de ferir a si mesma e de se retirar da cena sela a inconformidade e o colapso da ilusão da heteronormatividade de modo perturbador para nós, telespectadores. A trajetória de Erika expõe a tragédia de uma subjetividade dissidente que, ao tensionar os códigos de gênero e sexualidade, encontra na marca do próprio corpo a última forma de resistência.

Por Ana Beatriz Justino e Natalia Lima Amaral

Serviço:

A Professora de Piano

Título Original: La pianiste

Onde Assistir: Telecine

Gênero: Romance/Erótica

Duração: 2h 11m (131min)

Tema: Drama, suspense

Classificação Indicativa: 18 anos (A18)

Classificação das autoras: 18 anos (A18)

Justificativa: Apresenta cenas de violência, sexo e automutilação explicitos.

Referências

Butler, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

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