Clarice sob um olhar gendrado: a realidade misógina representada na série

Na imagem, a protagonista - Clarice Starling - está no centro da foto, mas olhando para algo ou alguém em outra direção. Ela é branca, tem o cabelo castanho liso, e veste uma jaqueta do FBI.
Créditos da imagem: cena do filme

Clarice é uma série norte-americana, lançada em 2021 e dirigida por Alex Kurtzman e Jenny Lumet. Com 13 episódios – de aproximadamente 43 minutos cada – o seriado trata sobre a vida profissional e emocional de Clarice Starling (Rebecca Breeds), uma agente do FBI. A personagem é considerada especialista em capturar assassinos em série, como fez com “Buffalo Bill” (Ted Levine), em O Silêncio dos Inocentes, e com Nils Hagen (Peter McRobbie).

Mas, antes de contar sobre Clarice, é importante contextualizar sobre o filme que inspirou a série: O Silêncio dos Inocentes. O longa, de 113 minutos, lançado em 1991 e também norte-americano, enquadra-se nos gêneros de suspense, drama e terror. Foi dirigido por Jonathan Demme e estrelado por Jodie Foster, que interpretou o papel de Clarice na produção. 

No filme, Clarice investiga o serial killer “Buffalo Bill”, que sequestra, arranca a pele das mulheres e as assassina. Mas, para investigar a fundo, ela entra em contato com o Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), um assassino canibal em série, para compreender como funciona a mente de um psicopata e ficar mais próxima de solucionar o caso. A trama ganhou os prêmios do Oscar em cinco categorias: Melhor filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado.

Depois disso, devido aos direitos autorais sobre os personagens protagonistas terem sido separados em diferentes estúdios,  a continuação do longa seguiu caminhos distintos: Hannibal em uma série, e Clarice, em outra. Nela, a personagem lida com diversos traumas adquiridos no caso do “Buffalo Bill”, uma vez que foi uma das vítimas e foi colocada em uma situação de vulnerabilidade diante do serial killer. 

Em sequência, devido ao seu grande desempenho profissional, ela é escolhida pela procuradora-geral dos Estados Unidos, Ruth Martin (Jayne Atkinson), para a próxima missão: descobrir quem está por trás de três feminicídios cometidos de forma semelhante. Mas, apesar de seu sucesso referente à resolução dos casos, o comandante da força tarefa, Paul Krendler, a questiona frequentemente em relação ao seu trabalho e condição psíquica. 

Além disso, na maioria das vezes, isso é feito em frente ao resto da equipe, o que implica em outras questões como assédio, humilhação e constrangimento. Ainda, a protagonista passa por diversas situações de exclusão de gênero, visto que – embora seja a agente responsável pelo caso – não há uniformes para o seu tamanho, apenas para os homens. 

Infelizmente, esse contexto não é restrito à série. Fora da ficção, devido ao machismo enraizado na sociedade, no mercado de trabalho, as mulheres enfrentam várias situações de desigualdade de gênero, são constantemente diminuídas em público e vítimas de diversos tipos de assédio: sexual, moral e constitucional.

Isso é perceptível, por exemplo, no ramo do jornalismo, em que, de acordo com os dados da Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas – apenas 13% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres nas redações. Tal discrepância é consequência de uma sociedade misógina, que enxerga as mulheres como inferiores aos homens, no sentido intelectual, físico e moral: são vistas como vulneráveis, como serventes que devem viver restritas à esfera doméstica.

Além disso, dentro e fora do mercado de trabalho, as mulheres são objetificadas e sexualizadas. Isto é, são vistas com uma função estritamente sexual: a de satisfazer aos homens. Não à toa, segundo dados da revista Veja, 18% das mulheres já foi vítima de assédio sexual no trabalho, enquanto a porcentagem dos homens é 5 vezes menor (3,4%).

Mas, voltando ao filme, no caso dos três feminicídios, Clarice segue suas investigações e descobre um ponto em comum: as mulheres assassinadas tinham feito parte de um teste clínico medicinal para um remédio chamado Reprisol. O dono da empresa que fabrica esse medicamento, Nils Hagen, sabia que o composto causava malformações nos fetos das gestantes e, visando o lucro, continuou a vender.

Ainda, o feminicida mantinha mulheres traficadas em cativeiro e as violentava sexualmente, pois queria ter um outro filho saudável, mas seus genes não permitiam. Foi quando mandou raptar Clarice, que com sua inteligência e profissionalismo, conseguiu sair da situação e, junto com sua equipe, libertar as mulheres. 

Só no estágio final do filme é que Paul Krendler demonstra sua satisfação e respeito em relação ao desempenho de Clarice. Ou seja, a protagonista teve que se esforçar – bem mais que seus colegas homens – para mostrar seu bom serviço e capacidade de lidar com crimes. Mas, é importante ressaltar que, dentro da série, a personagem tem vários privilégios em razão de corresponder ao padrão de beleza feminino: branca, magra, olhos azuis e cabelo liso. 

Já Ardelia (Devyn A. Tyler), sua melhor amiga e colega de trabalho, por ser negra, sofre preconceito de gênero e de raça e, por isso, teve que lutar ainda mais para ascender na carreira, conseguir reconhecimento, e chegar a um cargo de equidade com Clarice. Infelizmente, é mais uma das representações em que a série foi fiel ao que ocorre na realidade: mulheres negras, em relação às brancas, têm que enfrentar mais barreiras de discriminação para crescer em todos os sentidos.

Por Maria Clara Soares

Serviço

Título original: Clarice

Onde assistir: Prime Video

Classificação indicativa: 16 anos (A16)

Classificação da autora: 16 anos (A16)

Justificativa: Cenas de violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores. 

Gênero: Drama e Suspense

Deixe um comentário