Por uma cobertura ética de transfeminicídios e outras violências contra a população T

Diante da ausência de formação específica nos cursos de Jornalismo, a oficina do projeto Ariadnes busca capacitar estudantes e profissionais para uma cobertura mais ética e sensível de transfeminicídios e outras violências contra a população trans.

Nos dias 30 de janeiro e 6 de fevereiro, aconteceram, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), duas oficinas de formação sobre cobertura jornalística de transfeminicídios e outras violências contra a população trans. Promovida pelo Projeto Ariadnes e ministrada pela jornalista e mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Isabela Vilela, tivemos cerca de 50 estudantes participando das discussões sobre como cobrir de forma ética violências contra a população trans. 

Noticiar algo tão difícil como transfeminicídio – e outras violações dos direitos dessas pessoas – pode apresentar desafios e dúvidas, o que é comum e suscetível de acontecer em outras áreas. No entanto, o que observamos é a falta de humanização quando trata-se justamente desses sujeitos, que já (sobre)vivem e são colocados em lugares de extrema vulnerabilidade. Por isso, a oficina busca explicar as origens do preconceito direcionado para essas pessoas, pensando em como a mídia construiu sua imagem e como a reforça de maneira violenta. 

Uma vez que as pessoas trans existem no mundo, elas são ora extremamente violentadas, ora sexualizadas, mas, o que é “regra” é o ódio por esse grupo, que constitui o que Isabela vai entender como uma caça às bruxas contemporânea – que inclusive está muito bem descrito em seu trabalho de conclusão de curso. Dessa maneira, as coberturas que observamos reproduzem essa visão estigmatizada, que desumaniza e produz ainda mais transfobia em alguns casos. Mas como a gente faz para mudar isso?

O primeiro passo é uma apuração bem feita e informada, checada, para que dados importantes não se percam – como nome completo e idade correta –, pois, quando falamos de violência contra pessoas trans é fundamental o reconhecimento delas enquanto pessoas. Pode parecer “básico” falar disso, mas é um erro terrível, que revitimiza e produz mais violências para esses corpos já ‘machucados’. O próximo passo é chamar o crime pelo nome correto; transfeminicídio, feminicídio, violência doméstica, violência patrimonial, etc. Sempre pensando em um contexto, em deixar claro para quem está lendo e bem explicado, os motivos desse acontecimento e como pode se relacionar com outros fatores, tipo raça, gênero e classe. Além disso, é importante pensar em dados da região ou mesmo do estado/país, para que não fique um acontecimento isolado. 

Para além da violência e/ou transfeminicídio, é preciso trazer a pessoa, colocá-la na matéria ou reportagem enquanto ser humano, que tem gostos, emprego, família, uma vida completa. A reumanização é uma das chaves dessas coberturas, em que imagens, vídeos e texto devem colaborar para um fazer ético, de acordo com os direitos humanos – que foram negados anteriormente a essa pessoa. 

Durante os dois dias de realização da oficina, foi bastante positivo o interesse demonstrado por quem estava presente, em que dúvidas e percepções foram colocadas de maneira aberta, num diálogo horizontal, como troca de saberes e experiências. Isabela propôs duas atividades, uma para analisar uma notícia já pronta e outra para refazê-la a partir do que foi explicado no momento de capacitação. Ambas as propostas foram essenciais para colocar em prática os ensinamentos e olhar para aquelas coberturas com olhar mais atento, em alerta para não reproduzir violências ou mesmo aumentá-las. 

Ao final das oficinas, o projeto soltou um formulário com comentários e impressões da oficina, e foi interessante perceber a partir dessas falas o  reconhecimento da necessidade de mudança na cobertura e de um determinado imaginário que é violento com pessoas trans.  

Um desafio que nós, do Ariadnes, sempre comentamos e refletimos é a pouca – ou quase nenhuma – participação masculina em nossas ações, sejam oficinas, mostras de cinema ou quaisquer outras propostas. Observamos uma mudança tímida, com a inscrição de mais homens, mas ainda pouca pensando que é preciso implicação desse grupo, justamente para promover a mudança necessária e urgente nas coberturas, violências e formas de atuação dos comunicadores. 

Algumas indicações de Isabela você pode conferir aqui:

Associação Nacional de Travestis e Transsexuais – ANTRA

Glossário ANTRA – para entender os nomes e termos.

Pesquisas e anuários da violência da ANTRA – fundamentais para acompanhar, citar e servir de alerta, já que o Brasil é, pelo 17° ano seguido, o país que mais mata pessoas trans no mundo.

Jornalismo: Transmídia Jornalismo

Artigo: Um olhar sobre feminicídio e a necessidade do reconhecimento legal frente ao assassinato de travestis e mulheres trans

Livros: O parque das irmãs magnificas – Camilla Sosa Villada

Não vão nos matar agora – Jota Mombaça

Influencers: @mandycandy @jotamombaca @erikahilton @profaleticia_

Turma do dia 31/01/2025
Turma do dia 06/02/2025

Por Ana Rodrigues e Lia Junqueira

Deixe um comentário