Como começar algo bonito com a certeza do seu fim?

Iniciaria esse texto de outra forma. Havia rascunhado parágrafos acerca da ideia cristã de benção e também da experiência de desenvolver-se no mundo enquanto criança viada. Mas essa escrita foi brutalmente interrompida pela realidade. Escrevo agora atravessado pela dor das últimas notificações que recebo de amigos e conhecidos. Mais um de nós foi assassinado e dessa vez um rosto conhecido. Longe de ser um fato isolado, o acontecimento reitera um cotidiano em que abrir jornais significa, mais uma vez, encontrar um corpo dissidente abatido de forma cruel. Diante da impossibilidade de engolir o luto acumulado, decidi começar minha reflexão pelo fim, pois Bênçãos, livro de Chukwuebuka Ibeh, é também de alguma forma sobre a morte. Não necessariamente esta morte literal que estampa as manchetes do país que mais mata LGBTs do mundo diariamente, mas a morte lenta de nossa experiência; o apagamento de indivíduos com subjetividades e afetividades que fogem à norma imposta por um sistema cruel e heterocapitalista. A notícia do meu luto é brasileira, mas a que assola o universo ficcional de Ibeh baseia-se no real que atinge a comunidade nigeriana.

Capa do livro “Bênçãos”, de Chukwuebuka Ibeh: ilustração de um jovem negro usando regata branca, com braços cruzados, corpo coberto por padrão de linhas, sentado diante do mar sob céu azul; selo com citação de Chimamanda Ngozi Adichie e logotipo da editora Tusquets.
Capa do livro “Bênçãos”, de Chukwuebuka Ibeh. Foto: Divulgação/Tusquets

Perto de seu capítulo final, o personagem central de Bênçãos, Obiefuna, nos provoca: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. A provocação nasce do medo que toma conta dos personagens em um momento-chave do livro, no qual eles discutem como suas vidas serão transformadas. Naquele ponto acompanhamos um Obiefuna, que já está na universidade e em um relacionamento sério com outro homem, e o parlamento nigeriano então aprova uma lei que proíbe pessoas do mesmo sexo se casarem. Aqui, se faz necessário observar o contexto histórico e o momento em que isso ocorre. Essa legislação possui raízes coloniais, nas quais a Inglaterra criminalizava atos “contra a ordem da natureza”. Mesmo após a independência, em 1960, as leis anti-homossexuais foram mantidas e punidas com até 14 anos de prisão. Mas foi em 2013, ano no qual a última parte de Bênçãos se passa, que essa repressão foi endurecida, em resposta direta ao debate gerado nos Estados Unidos que impulsionou o reconhecimento federal das uniões homoafetivas.

A lei nigeriana sancionada em janeiro de 2014 trouxe uma sistematização de perseguições que incluíam extorsões, violência policial e até apedrejamentos em alguns locais, e a quarta parte do texto de Ibeh é um reflexo direto desse regime que mata e persegue milhares de sexualidades dissidentes na Nigéria. Obiefuna, que passa a infância e adolescência se escondendo, quando finalmente encontra um certo orgulho de si e uma certa capacidade de amar sem tantas amarras, se depara com um país que expulsa e invisibiliza vidas queer. Mas o que Ibeh nos mostra é que, infelizmente, esse apagamento não ocorre apenas na vida adulta por conta do endurecimento de leis e de um clima político conservador que avança cada vez mais. Típico romance de formação, Bençãos acompanha Obiefuna desde o seu desejado nascimento até o início de sua vida adulta.

De bênção à ameaça

Ser uma criança viada significa, muitas vezes, se sentir isolado, esquisito, deslocado. A vivência é gestada no silêncio de uma esfera íntima, sem ter em quem se apoiar nem ao menos com quem desabafar. É muito pesado para quem ainda tateia a própria personalidade ser apontado por todos a sua volta que é alguém diferente, mesmo que ele ainda não saiba muito bem o que quer dizer isso. Ao nos depararmos com Obiefuna, percebemos que nossa solidão tem companhia, apesar das distâncias geográficas e culturais. O que torna isso possível é a existência de uma gramática comum do medo e do desejo que aproxima realidades muito diferentes, na qual os códigos dos esconderijos são os mesmos. A dor de não se encaixar no mundo é universal. E é a partir dessa gramática que Ibeh constrói a narrativa do seu livro de estreia. Bênçãos não é exatamente um livro autobiográfico, mas é permeado por experiências vividas pelo autor. Afinal, algumas situações são tão específicas que deixam, na ficção, os rastros inconfundíveis do vivido.

Criado na classe média de Port Harcourt, Obiefuna logo percebe que o afeto familiar é condicional, ou seja, ele é amado na medida em que performa o que se espera dele. A negociação injusta é velha conhecida de corpos queer. “Não tô gostando muito do jeito que você fala. Fala direito!”. O texto de Ibeh estabelece muito bem essa pedagogia de gênero. Enquanto o protagonista é arrastado pelo irmão para o futebol, onde sua fragilidade física é punida, o espaço onde seu corpo encontra fluidez, na dança, é vetado. O ponto de virada da infância para a adolescência ocorre com a descoberta do desejo. A chegada de Aboy, aprendiz que passa a dividir o quarto com os meninos, oferece a Obiefuna uma chance rara de reconhecimento. Pela primeira vez, ele não se sente só, sente-se visto. Mas os desvios não são tolerados naquela casa, onde um olhar é o suficiente para romper o pacto familiar e sentenciar duas vidas. 

Obiefuna é confinado em um seminário, abandonado afetivamente pelo pai que não está a fim de lidar com o “problema” que tem em casa e negligenciado pela mãe, que embora possua um arco redentor, escolhe fechar os olhos para toda a violência que se impõe diante do confinamento no internato. A violência que atinge Obiefuna desde a infância opera sob a lógica que Michel Foucault chamou de disciplina, intensificada no período da adolescência. O seminário atua como agente castrador, aquele que não apenas quer punir o corpo desviante, mas também transformá-lo em um corpo dócil. Nesse ponto, a narrativa toma contornos pedagógicos bem explícitos de como alguns indivíduos que são domesticados sobrevivem mais tempo no jogo heterocapitalista. A domesticação do corpo, dos gestos, da fala e dos desejos tem um preço muito alto: a morte da identidade. 

A rotina exaustiva e a vigilância constante dentro do seminário funcionam como uma pedagogia da dor, na qual revivemos com Obiefuna o medo da descoberta e a lição de que quem decide viver livremente é punido. É uma lógica panóptica de mão dupla: tanto no ambiente externo quanto no movimento de autovigilância. O personagem passa a se policiar, controlando gestos e afetos numa tentativa desesperada de sobrevivência. E isso inclui aceitar humilhações e até mesmo ter sua inocência rasgada por uma pressão externa, numa iniciação sexual marcada pelo abuso de hierarquia. Em uma leitura apressada, logo bradei contra o nosso herói: covarde! Mas não é esse o movimento que sociedade, mídia e cultura nos ensinam a fazer? Para sobreviver é preciso não dar pinta, não rebolar. Não se pode gostar de Sandy e Júnior, não se pode dançar ao som de Rouge, tampouco colocar a mão na cintura. É preciso beijar a garota mesmo sem a mínima vontade, pois a galera do grupo da igreja disse que é preciso perder “o bv”. Será mesmo Obiefuna um covarde ou lhe faltaram referências pedagógicas e de existência para que ele não precisasse se esconder para sobreviver? É difícil olharmos para nossa versão infantil, pois muitas vezes fomos essa criança assustada e covarde que aceita migalhas para simplesmente passarmos despercebidos. 

Ao longos dos últimos séculos no ocidente, igreja e psicanálise criaram a armadilha perfeita: a obrigatoriedade da confissão. É uma lógica perversa, pois somos incitados a falar sobre nossos desejos ocultos para descobrir a verdade sobre quem somos. O grande problema é que, ao confessar, transformamos um simples ato ou vontade passageira em uma identidade patologizada. Obiefuna não passa por um consultório psicanalítico, mas confessa ao padre. E quantos de nós temos uma história parecida? Vamos nos juntar à religião com o intuito de nos livrar dessa culpa através da confissão, Deus cura tudo, inclusive a homossexualidade. Mas é ali, no ambiente de suposto acolhimento que mais somos patologizados: “viado!”. 

O desejo de Obiefuna é enquadrado como pecado antes mesmo de ser nomeado ou compreendido pelo próprio garoto. A repressão religiosa não quer que Obiefuna nem nós paremos apenas de sentir e é necessário confessar que nós somos o problema. E esse processo é absurdamente violento quando transforma nosso afeto ainda opaco, difuso, em uma verdade incontestável sobre nós mesmos. Não cometemos um erro, nós somos o erro. A criança que não deu trabalho; a criança que não se encaixou no futebol dos primos, mas encontrou refúgio nas primas; a criança que se refugiou nos estudos. No fim das contas, é tão errado assim brincar de boneca? Volto à provocação de Obiefuna: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. Bênçãos nos responde com a dureza da realidade. Olhar para esse espelho e entrar em contato com feridas ainda abertas custa caro. E me pergunto se um dia elas cicatrizarão. Por mais que as pedagogias da dor nos ensinem, elas também nos deixam exauridos. Precisamos imediatamente imaginar outras formas de existência. É preciso celebrar Obiefunas que ousam, que lutam contra a repressão, que recusam o silêncio e a covardia imposta. Que a arte e a vida não nos sirvam apenas para constatar o extermínio de nossas subjetividades, mas para desafiar a lógica do destino trágico. Diante da certeza do fim que o mundo nos promete, que a nossa maior rebeldia seja, justamente, inventar outros finais possíveis.

Livro: Bênçãos

Autor: Chukwuebuka Ibeh

Tradução: Petê Rissatti

Gênero: romance

Editora: Tusquets 

Faixa etária sugerida: 14 anos

Justificativa: o livro contém cenas de violência moderada, linguagem vulgar e insinuações de atos sexuais.

Por Flávio Reis

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