
O médico que fez o parto de minha filha se chama dr. Tartaruguinha. Eu não me lembro do nome – fiz questão de esquecer. Essa é a segunda maior memória que tenho dele. A maior é a sensação de abandono antes e depois da cesárea de emergência e subsequente internação da minha bebê, a dispensa de um atendimento pós-parto porque eu já não era “cliente” dele.
A violência obstétrica é bem documentada no Brasil e no mundo, e inclui procedimentos como tratar a pessoa grávida ou em trabalho de parto de modo agressivo ou desrespeitoso; recriminar a pessoa por gritar, chorar, ou mesmo pelas dúvidas; negar anestesia ou realizar episiotomia sem necessidade. A lista é extensa.
Historicamente, está relacionada ao controle progressivo que a medicina ergueu sobre os corpos femininos. Nesse longo processo, a medicina excluiu do processo de gestar e parir uma figura fundamental: as parteiras, substituindo-as pela figura do médico – no masculino, mesmo. O caso de Angélique du Coudray e seu desafio às normas patriarcais médicas na França do século XVIII é pedagógico.
Obviamente, a profissionalização dos processos de nascimento trouxe imensos benefícios sociais, como os protocolos de assepsia, o tratamento de condições como pré-eclâmpsia. Foi a medicina moderna que possibilitou o meu parto emergencial bem-sucedido. Mas não precisava ter sido feito às custas da marginalização das parteiras e do respeito a quem gesta.

Desde 1992, a Confederação Internacional de Parteiras celebra o dia 5 de maio como Dia Internacional das Parteiras, lembrando que “fornecem serviços de saúde sexual, reprodutiva, materna, recém-nascida e adolescente ao redor do mundo. Apoiam mulheres e pessoas que gestam antes, durante e depois do parto. Fornecem contracepção, serviços amplos de aborto, apoio à amamentação e cuidados contínuos ao longo da vida”. Por esse papel imprescindível, pedem que o mundo tenha mais um milhão de parteiras – o slogan da campanha de 2026.
Para quem, como eu, cresceu num mundo dominado pela ginecologia e obstetrícia medicalizada, machista, racista e muitas vezes desumanizada, parteiras eram parte de uma história que parecia distante demais, até Call the Midwife (Chamem a parteira, na versão em português). A série britânica, da BBC, ainda em exibição, mostra a vida de parteiras em um subúrbio na Londres dos anos 1950, 1960 e 1970, frente às mudanças provocadas pela progressiva medicalização do parto.
Baseada nas memórias da parteira Jennifer Worth (interpretada por Jessica Raine, nas primeiras temporadas), a série não é apenas pedagógica no sentido de nos mostrar o serviço das parteiras – sua função na saúde feminina, na redução da mortalidade materno-infantil, na promoção de medidas básicas de higiene e saúde pública, enfim. Elas vivem em uma instituição religiosa dedicada à assistência aos pobres londrinos. Andam pela capital inglesa com bicicletas (às vezes muito velhas) e seus uniformes azul-bebê, figuras reconhecíveis pela comunidade, com a qual constróem relações de confiança. Basicamente, saúde da família em estado puro.
O seriado se ancora em relações de afeto profundas entre mulheres, construídas em torno de atividades como a costura, o ato de cozinhar, conversas. Eventualmente, é o silêncio que conecta as experiências delas e o impacto que têm sobre a região onde vivem e trabalham. As discussões sobre nascimentos, as maternidades que elas acompanham e as transformações históricas na relação da sociedade com o parto também estão ali, junto com as vidas das parteiras – inclusive em conexão com questões de raça e sexualidade, por exemplo.
Call the midwife é um raro produto audiovisual delicado, sem grandes clímaxes – ainda que eles existam – e sem grandes pirotecnias dramáticas. O seriado é comedido, introspectivo às vezes, em uma contenção narrativa e visual pouco usual em nossos tempos de excesso. Com sutileza, vai nos mostrando como o gesto de parir uma criança se transformou em uma atividade dominada pelos homens, excluindo as mulheres, tanto na autonomia do parto quanto na atuação profissional, e produzindo uma série de drs. Tartaruguinhas.
Por Karina Gomes Barbosa
Título original: Call the midwife
Onde ver: Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos
Nossa classificação: 14 anos
Temas: a série aborda questões sobre sexualidade feminina, pobreza, aborto e relações afetivas, mas de maneira bastante adequada e sem excessos.
