
Infelizmente, é comum observar situações em que mulheres precisam se esforçar exaustivamente para entregar um trabalho, para que ele seja nivelado ao de um homem que entregou apenas algo “meia-boca”. Essa realidade se estende a diversas áreas e não seria diferente em espaços de grande destaque; afinal, esses ambientes refletem a nossa sociedade, onde os homens ainda ocupam a maior parte das posições de poder.
O Coachella, festival de música e artes que este ano celebrou sua 25ª edição, aconteceu no Empire Polo Club, em Indio, Califórnia (EUA). Com um line-up encabeçado por Sabrina Carpenter, Justin Bieber e Karol G, os ingressos esgotaram apenas uma semana após o anúncio. Somado à disparidade de gênero, que se manifesta na profunda desigualdade na valorização dos cachês e no contraste entre performances femininas de alto nível e shows preguiçosos entregues por artistas homens, o festival é marcado pelo elitismo, aparente tanto nos valores exorbitantes dos ingressos (de R$ 2.855 até R$ 6.235) quanto na forte presença de celebridades.
Desde o show de Beyoncé em 2017 como headliner, toda a proposta do evento mudou: apresentar-se ali tornou-se o ápice da carreira de um artista. É o lugar onde se espera o extraordinário.
O festival iniciou com um show belíssimo de Sabrina Carpenter, que levou uma estrutura gigantesca e demonstrou seu talento como performer. Ela construiu algo digno da magnitude do Coachella. Já no dia seguinte, Justin Bieber deu um show de horrores: uma apresentação típica de celebridade medíocre e sem vontade. É importante pontuar que ele recebeu 10 milhões de dólares para realizar esse show, o maior cachê que um artista já recebeu na história do festival.
O show de Bieber contava simplesmente com uma estrutura mínima: um computador e uma mesinha, onde ele ia colocando as músicas no YouTube e cantando junto. Considerando o custo dos ingressos, a entrega soa como um desrespeito. Muitos fãs justificaram que ele estava “se conectando com seu antigo eu”, mas fica a pergunta: ele não poderia ter feito isso em casa? Ele não poderia ter feito isso sem cobrar ingressos na casa dos milhares de reais?
E, apesar de genuinamente não entender como uma apresentação tão medíocre pode ser considerada boa pelas pessoas, eu até relevo um pouco (bem pouco, na verdade). No entanto, alguns ainda insistem em dizer que essas performances foram “revolucionárias” — o que chega a ser patético.
Essa indignação tem a ver também com a cobrança que existe sobre as artistas femininas, que sempre precisam entregar sua melhor performance e, ainda assim, são criticadas. No segundo fim de semana do Coachella, enquanto Sabrina Carpenter trazia simplesmente Madonna como convidada surpresa, Bieber seguia na mesmice. No entanto, ao menos dessa vez, trouxe convidadas como SZA e Billie Eilish – esta última sendo atração de uma de suas músicas mais famosas, One Less Lonely Girl. Esses momentos chamaram mais atenção que o show em si, portanto, sua mediocridade foi novamente velada.
Não foi a primeira vez. No Grammy de 2026, o cantor teve a mesma atitude: apresentou-se de meias e samba-canção que, diga-se de passagem, era de sua marca, Skylrk. Ou seja, além de apresentar um trabalho ruim, ele ainda se promovia e lucrava. Somado a isso, estava com um semblante semelhante ao de alguém que pega um ônibus às 6h da manhã para trabalhar – estar ali parecia apenas obrigação. Na mesma noite, artistas como a própria Sabrina Carpenter e Olivia Dean entregaram apresentações impecáveis. Além de artistas masculinos como Tyler, the Creator que, entretanto, não se trata de um homem branco hetero, e por isso não é colocado na mesma prateleira do “grandioso e revolucionário” de samba-canção.
A justificativa de que Justin Bieber “gosta de algo mais intimista” é um privilégio masculino e branco. Mulheres não têm esse direito. Se uma mulher sobe ao palco com o mesmo desleixo, seria imediatamente rotulada como preguiçosa – para sermos suaves.
Sempre precisamos estar em nossa melhor versão. Não é à toa que as divas pop são alvos constantes de críticas e rivalidades na internet: Quem canta melhor? Quem tem as melhores composições? Quem é a melhor performer? A história da música pop, sobretudo a partir dos anos 1980, é repleta de rivalidades femininas, reais ou inventadas pela mídia: Madonna X Cyndi Lauper; Britney Spears X Christina Aguilera; Taylor Swift X Katy Perry; Lady Gaga X Madonna; Demi Lovato X Selena Gomez; Mariah Carey X Whitney Houston. A lista é interminável.
Para a mulher, o talento não basta; é preciso perfeição técnica, visual e física. Para o homem, especialmente um branco, hetero e consolidado na indústria como Justin Bieber, o esforço mínimo é recompensado com cachês históricos e a aclamação do público. O “intimista” dele é, na verdade, o reflexo de um sistema que permite ao homem o luxo da mediocridade enquanto exige da mulher o impossível.
Por: Marcela Pauline
