Quais passados são dignos de perdão em “The Drama”?

Pôsteres de divulgação do filme The Drama, 2026.

Um casal feliz e recém-noivo é colocado à prova quando uma revelação inesperada faz com que a semana do casamento saia dos trilhos. Essa é a sinopse de The Drama (2026), novo filme de comédia, romance e, claro, drama da produtora A24 (a mesma de Moonlight, Tudo em Todo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e Vidas Passadas). Estrelado por Zendaya, que interpreta Emma, e Robert Pattinson, que interpreta Charlie, o longa vai muito além do que a sinopse e o trailer entregam.

No início, o filme parece ser um romance comum, com um casal muito apaixonado, que se conheceu há dois anos em um café e está às vésperas do dia do casamento. A história de Emma e Charlie é contada por meio de flashbacks enquanto os dois escrevem os votos para a cerimônia, mas não demora pra tudo mudar e o drama chegar. O filme é divertido e, apesar de abordar uma temática inesperada, prende a atenção pela curiosidade do que vai acontecer no futuro e se vai ter mesmo casamento.

*a partir daqui, spoilers*

O caos começa quando os noivos estão em uma degustação de vinhos com outro casal de amigos, Rachel e Mike, padrinhos do casamento. Eles resolvem contar qual foi a pior coisa que já fizeram na vida. Em um momento de vulnerabilidade, pela bebida, ou talvez por pensar ser um espaço seguro para ter transparência total, Emma confessa que, na adolescência, planejou um massacre em sua escola, mas não o realizou. A revelação choca todos da mesa, que a princípio pensam ser uma piada. Ao perceberem que é sério, o clima muda. E é um choque que, talvez por não morarmos em um país como o Estados Unidos – com um índice muito grande de massacres –, não tenha tanto peso para nós no Brasil, por exemplo. 

Ataques em escolas também têm crescido no Brasil nos últimos anos. Segundo o relatório Ataques às Escolas no Brasil: análise do fenômeno e recomendações para a ação governamental (2023), produzido pelo grupo de transição governamental, o país registrou 36 ataques entre 2002 e 2023, com aumento significativo dos casos a partir de 2017. Ainda assim, o documento aponta que o cenário brasileiro não tem a mesma dimensão histórica e letal observada nos EUA, embora exista forte influência de casos estadunidenses, principalmente do massacre de Columbine, na dinâmica desses ataques aqui.

Na mesa, Emma foi a única que não chegou até o fim no ato confessado: Rachel deixou uma criança passar uma noite sozinha trancada no armário de uma cabana e nem sabe o que aconteceu depois; o noivo, Charlie, fez cyberbullying com um colega da escola, o que levou o menino a mudar de cidade com a família; e Mike tinha usado a namorada da época de faculdade como escudo quando foi atacado por um cachorro. 

Na cena da degustação também dá para perceber um recorte racial, pois os personagens negros são julgados de forma mais dura. Enquanto os erros dos personagens brancos são tratados apenas como erros do passado, as confissões de Emma e de Will são recebidas com pânico moral.

A partir daí, The Drama muda o tom do filme e subverte a expectativa do gênero romance para questionar a moralidade seletiva dos personagens. Charlie entra em estado de dúvida e desconfiança sobre o caráter e até a sanidade da noiva. Ele questiona a imagem que havia criado de Emma, descrita em seus votos de casamento como uma mulher perfeita, empática e amorosa, mas para Charlie ela passa a ser a mesma pessoa que idealizou um massacre aos 14 anos, como se a noiva não pudesse ter mudado. 

Durante o filme, em um flashback da Emma adolescente, acontece uma discussão na escola sobre massacres serem cometidos em sua maioria por meninos. Mas Emma reafirma que mulheres também cometem esses crimes. 

Ao afirmar que mulheres também são capazes de cometer essas violências, o filme brinca – de forma cruel com a personagem de Zendaya – com essa quebra de expectativa de gênero: Emma é doce, bem-sucedida e amada, o que torna sua “capacidade de violência” muito mais perturbadora para os homens ao redor do que as falhas éticas cometidas por eles mesmos. Eles não olham pra si mesmos mas apontam os dedos para ela, ignorando também todas as interseccionalidades do caso, como uma menina negra que sofreu na adolescência. Obviamente nada justifica um massacre, mas não é tão difícil imaginar que uma ideia que atrai muitos meninos brancos que se sentem excluídos para esse tipo de violência também poderia arrastar Emma.

O longa utiliza um humor ácido para tratar o assunto dos atentados em escolas e coloca os personagens e quem assiste em uma posição desconfortável. Ele não é maniqueísta; não quer que você odeie Emma ou Charlie, mas que se pergunte: os erros do passado resumem quem somos na vida adulta? O que é impossível perdoar? E mais: até que ponto o gênero e a raça do agressor mudam a nossa capacidade de perdoar? Porque ninguém se coloca no lugar dela: Charlie até tenta fazer esse exercício mas falha várias vezes.

E talvez seja aí que The Drama revele os limites dessa própria subversão de gênero que propõe. O filme consegue imaginar uma mulher negra se aproximando de um tipo de violência historicamente associada aos homens brancos, mas não se engaja em imaginar homens realmente se afastando dessa violência. Em vez de questionar profundamente a lógica da violência, o longa reorganiza a relação a partir dela: Emma precisa provar constantemente que mudou, enquanto Charlie permanece preso ao medo, ao controle e à desconfiança. Assim, mesmo ao tensionar expectativas de gênero, The Drama continua deixando a violência, e o imaginário masculino construído em torno dela, no centro da narrativa. 

Serviço:

Título Original: The Drama
Onde Assistir: Em cartaz nos cinemas
Duração:
105 minutos
Gênero: Romance, drama e suspense
Classificação Indicativa: 16 anos
Nossa Classificação: 16 anos
Justificativa: Violência, linguagem imprópria, sexo e drogas 

Ana Luíza Rodrigues

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