A crise dos plásticos e as mulheres das água

Fotografia em plano aberto que retrata o trabalho exaustivo das marisqueiras no manguezal. A imagem mostra mulheres curvadas sobre a lama ou na água rasa, possivelmente com cestos ou baldes, em meio à densa vegetação e raízes aéreas do mangue. O registro ilustra a profunda interdependência entre essas mulheres e o ecossistema, o "corpo-território" ameaçado pela crise dos plásticos e a poluição.
O cartaz do documentário Mulheres das Águas (2016), que expõe o cotidiano das marisqueiras da Bahia e de Pernambuco e sua luta de resistência contra a crise dos plásticos e a poluição que ameaça o manguezal, seu corpo-território.

O documentário Mulheres das Águas (2016), dirigido por Beto Novaes e produzido pela Fiocruz, constitui um registro fundamental para compreender a interseção entre o trabalho, o gênero e a preservação ambiental no Nordeste brasileiro. A obra mergulha no cotidiano das marisqueiras da Bahia e de Pernambuco, expondo como a exaustiva jornada de trabalho nos manguezais é atravessada por uma crise ecológica sem precedentes, marcada pela poluição industrial e pelo avanço silencioso e devastador da crise dos plásticos.

Recomendo que todos vejam, e felizmente ele está disponível no Youtube, totalmente de graça: https://youtu.be/P62sFliw7K8?si=1fVaLdlSWHM8e8nD

Sob uma perspetiva feminista ambientalista, o filme revela que o manguezal não é apenas um ecossistema, mas também um corpo-território, já que a relação dessas mulheres com as águas é de profunda interdependência, ou seja: a saúde do mangue reflete diretamente a saúde das pescadoras.
Contudo, essa ligação é ameaçada por um modelo de desenvolvimento predatório. As grandes indústrias e o turismo de massa não só contaminam as águas com efluentes químicos, mas também introduzem toneladas de resíduos plásticos que sufocam o berçário da vida marinha. Para as marisqueiras, o plástico e o esgoto no mar são uma mancha em algo que elas consideram sagrado, agentes de degradação que dificultam a pesca, ferem os corpos durante a cata e simbolizam a invasão do capital sobre os recursos comuns.


Outro ponto alarmante é a invisibilidade institucional. O documentário denuncia como o Estado falha em reconhecer a mariscagem como uma profissão de risco e de importância econômica vital. Esta negligência dificulta o acesso a benefícios previdenciários e ignora as patologias específicas enfrentadas por essas mulheres. O adoecimento não é apenas fruto do esforço físico, mas da exposição a um ambiente degradado pela morte do ecossistema. Doenças ginecológicas, dermatológicas e respiratórias surgem como sintomas de um ambiente contaminado por metais pesados e resíduos sintéticos.
A resistência apresentada no documentário é, portanto, uma luta pela vida. Ao reivindicarem a demarcação dos seus territórios, reconhecimento dos seus direitos e o fim da poluição, essas mulheres exercem uma política de cuidado que contesta a lógica da necropolítica industrial. Existe uma dignidade que se recusa a ser apagada. A luta das Mulheres das Águas é um clamor pela justiça socioambiental e pelo reconhecimento de que a proteção do futuro passa, necessariamente, pela despoluição das águas e pela garantia de que o mangue continue a ser um espaço de vida e não de resíduos.

Precisamos falar de micro-plásticos

A questão do lixo, em suas diversas formas, desde o resíduo doméstico até o lixo tóxico industrial e a poluição plástica nos oceanos, constitui um dos maiores desafios éticos e ambientais da atualidade. A análise desses materiais revela não apenas o impacto ecológico, mas também as desigualdades sociais e a resistência de grupos que atuam na linha de frente da limpeza do planeta, como o que ocorre em Manila, capital das Filipinas.

O lixo tóxico, por exemplo, é composto de materiais que possuem propriedades físicas, químicas ou biológicas que apresentam riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Isso inclui resíduos industriais, metais pesados (como mercúrio e chumbo), pesticidas, lixo hospitalar e eletrônico.

Diferente do plástico visível, o lixo tóxico muitas vezes atua de forma silenciosa, contaminando o solo e os lençois freáticos, e entrando na cadeia alimentar. No contexto de comunidades tradicionais, como as marisqueiras, o lixo tóxico das grandes indústrias e refinarias de petróleo (cof cof, Petrobras cof cof), manifesta-se no corpo das mulheres através de doenças crônicas e contaminação do pescado, configurando o que muitos teóricos chamam de racismo ambiental.

Reportagem da BBC News Brasil destaca que a poluição oceânica é alimentada por um sistema de correntes circulares chamadas giros oceânicos. Existem cinco grandes giros no planeta (Pacífico Norte e Sul, Atlântico Norte e Sul e Índico) que funcionam como uma espécie de banheiras de hidromassagem gigantes, acumulando detritos em áreas conhecidas como “sopas de plástico”. E esse plástico não se decompõe totalmente, ele se fragmenta em micropartículas, que por sua vez não estão apenas na superfície, mas descem pela coluna de água, sendo ingeridas e até inaladas pela vida marinha, entrando permanentemente no ecossistema.

Rio de Janeiro (RJ), 30/07/2025 – Ressaca no mar acumula lixo plástico na praia do Leme, após passagem de um ciclone extratropical. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma grande parte do lixo oceânico (cerca de metade) vem de equipamentos de pesca perdidos ou abandonados, que continuam matando animais indiscriminadamente.

A maioria do lixo visível nos oceanos na verdade permanece perto da costa. Por isso, a limpeza de rios e estuários, como o trabalho dos Guerreiros do Rio nas Filipinas, mencionado na reportagem da BBC, é a forma mais eficaz e barata de impedir que o plástico chegue aos giros centrais. 

E nos grandes centros urbanos?

Enquanto a poluição atinge os oceanos, nas cidades, a primeira barreira de contenção contra o avanço dos resíduos são os catadores de materiais recicláveis. O projeto Pimp My Carroça, de São Paulo, surge como um movimento social e cultural para tirar esses trabalhadores da invisibilidade e dar-lhes dignidade. Através do grafite e da reforma das carroças, o projeto transforma ferramentas de trabalho em obras de arte, forçando a sociedade a enxergar o catador. Eles atuam na base da pirâmide da reciclagem: se o lixo tóxico e o plástico não chegam aos rios e, consequentemente, aos oceanos, é em grande parte graças ao esforço manual e exaustivo desses profissionais, que muitas vezes trabalham sem equipamentos de proteção, assim como as voluntárias filipinas citadas na reportagem da BBC.

Percebe-se que o problema do lixo é uma questão de gestão da morte e da vida. A jornalista Zoë Carpenter, ganhadora do prêmio James Aronson de Jornalismo de Justiça Social e foi finalista dos prêmios Livingston e National Education Writers, fala que “alguns dizem que a poluição plástica é uma distração para o maior problema das mudanças climáticas, mas a minha conclusão ao fazer esse relatório é que tudo faz parte do mesmo problema”. 

A reportagem da BBC mostra que o plástico vagueia pelo mundo, transportando inclusive espécies invasoras. Combater o lixo tóxico e a poluição marinha exige mais do que tecnologia, exige uma mudança na ética e responsabilização aos principais poluidores. É necessário reconhecer que o descarte não existe na realidade, já que o lixo que sai da nossa vista em terra acaba por aparecer no estômago de uma tartaruga no meio do Pacífico ou no sistema circulatório de uma marisqueira no Nordeste brasileiro. A preservação ambiental é, indissociavelmente, uma luta por direitos humanos e visibilidade social.

Para quem tiver interesse, recomendo também outro documentário The Story of Plastic, sobre a vida do plástico, está disponível na plataforma Vimeo: https://vimeo.com/449085864/e8bc7ddbcd

A canção que se segue é um hino de resistência entoado pelas marisqueiras do Nordeste brasileiro. A música ecoa durante suas viagens de barco pelo ambiente, simbolizando a luta inabalável pela defesa do território, da água e do modo de vida artesanal. A letra é um potente clamor por liberdade, justiça e pela preservação do manguezal, contestando a degradação ambiental e reivindicando o reconhecimento e a dignidade dessas resistências:

Chegou a hora de defender / Nosso pedaço de chão

A terra é nossa isso por direito / Respeite nossa tradição

A nossa luta é por terra e água / Do litoral ao sertão

Lutamos por igualdade / com liberdade garantir o pão

Vem companheiro / Chega de indecisão

Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

Vem companheira / Esse é o nosso momento

Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

Vamos juntos engrandecer / Nosso jeito de viver

Com território preservado / Nosso pescado é pra valer

Agora resta se organizar / Para impedir a degradação

Queremos é liberdade / Justiça, garra, determinação

Vem companheiro / Chega de indecisão

Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

Vem companheira / Esse é o nosso momento

Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

Da pesca artesanal / Ecoa um grito no ar

Por território pesqueiro / Para viver e trabalhar

De norte a sul Ô que coisa linda / Ver a classe organizada

Juntando homens e mulheres / Seguindo a marcha em caminhada

Vem companheiro / Chega de indecisão

Vem engrossa a fileira / Desfralda a bandeira da libertação

Vem companheira / Esse é o nosso momento

Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

Venha de todos os lados / E de braços dados entrar no movimento

Letra e música: Das Neves (PE), Teba (BA), Manuel Roberto (PA), Gilmar (BA)

Serviço:
Título original: Mulheres das Águas
Onde assistir: Youtube
Gênero: Documentário
Classificação: Não informada.
Classificação da autora: Livre para todos os públicos.
Justificativa: O documentário não trata de temas que necessitem de classificação indicativa.

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