
Copa do Mundo é um desses acontecimentos que reverbera muito além da editoria de Esportes no jornalismo. De Economia a Política, há inclusive crimes sexuais em evidência (como tem sido costumeiro nos esportes masculinos, infelizmente). É um evento bilionário, com interesses de exibição, publicidade, patrocínios, contratos esportivos. Em 2026, o campeonato maior, com 48 seleções e partidas em três países (um dos quais em guerra – algo que parece não escandalizar o presidente da FIFA), torna os números e a cobertura, mesmo, inflados.
Este ano, uma das pautas em evidência são as WAGs – wifes and girlfriends (esposas e namoradas) – dos jogadores de futebol. No Brasil, elas ganharam a versão eutoexplicável de selesposas. Ambos os termos são lamentáveis, e se referem às companheiras, noivas, namoradas e, obviamente, esposas dos jogadores das seleções nacionais, que nas últimas décadas – mais notadamente desde a última copa – se tornaram personalidades.
A maioria delas é influenciadora, e posta justamente o cotidiano familiar nas mídias sociais, misturando estilo de vida, moda, parentalidade, publicidade, viagens. Algumas têm um toque substancial de ostentação, graças a uma rotina sustentada por contratos milionários com os clubes e com marcas de luxo esportivas e masculinas.
A primeira WAG, talvez, tenha sido Victoria Beckham. Que, curiosamente, já era uma artista com brilho próprio quando se casou com o jogador inglês David Beckham. À época uma das Spice Girls, após o fim do grupo ergueu um império na moda. Paralelamente, construiu uma persona midiática para si e para a família com David – com quem tem 4 filhos – cuidadosamente desenhada, com uma série de reality shows e documentários (o último, da Netflix, foi lançado em 2025).
Se Victoria já tinha uma carreira antes de David, e a expandiu, enquanto se dedicava também à família (e à imagem dela), muitas companheiras atuais são pauta apenas pela ligação com os maridos – que, por sua vez, justificam a força delas como influenciadoras.
Nomes como Antonella, Georgina, Virginia, Bianca, são conhecidos por quem frequenta as editorias de Entretenimento, Comportamento e Moda. A cada jogo da Copa, as roupas que escolhem para acompanhar a partida estão em foco e escrutínio. O outfit de jogo, talvez, já tenha se tornado uma ocasião de moda específica com figurino próprio e nicho dedicado a isso.
Para além de tudo que escancara em relação à indústria do futebol e da influência, o que essa atenção deixa ver é a profunda homofobia entranhada no futebol masculino. É possível conceber algum parceiro ou companheiro de jogador de futebol participando desse movimento? Tendo conta com milhões de seguidores?
Não há espaço algum para essas relações na pauta jornalística porque não há espaço social para que elas aconteçam fora do armário. O comentarista e ex-jogador Richarlison é exemplo do machismo que impera no futebol, alimentado por piadocas preconceituosas e por estereótipos de gênero que constroem o jogador como viril, pegador (um estereótipo que legitimou, ao longo de décadas, crimes sexuais contra mulheres “motivados” por macheza).
E o jornalismo, longe de ser apenas mero reprodutor da realidade social, ajuda a construi-la. A insistência na pauta das chamadas WAGs e selesposas (até mesmo em revistas femininas com cobertura gendrada, como a Marie Claire) reforça a heteronormatividade homofóbica do futebol. Mais: promove uma visão de família tradicional pai+mãe+filhos que exclui outras possibilidades de vínculos de afeto e empurra para cada vez mais fundo no armário, como desviantes, errados, anormais, abjetos, relacionamentos LGBTQIAPN+.
Enquanto isso, é um alento perceber que é no futebol feminino que encontramos, social e jornalisticamente, um respiro à claustrofobia da heteronormatividade conservadora que prende o futebol masculino a um modelo único de família e sexualidade e encaixota mulheres como esposas e namoradas.
Por Karina Gomes Barbosa
