
De acordo com o banco de dados de violência contra a mulher do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), conectado ao Ministério da Saúde, as cidades de Mariana, Ouro Preto e Itabirito tiveram mais de 450 notificações desses casos no balanço de 2025 – e Mariana detém o maior índice das três, com 49,5% dos registros. Conforme os números, a maior parte das vítimas são mulheres pardas e jovens adultas entre 19 e 30 anos. A maioria dos casos ocorreu em ambiente domiciliar.
Assim como na Região dos Inconfidentes, o cenário se repete pelo território brasileiro: a cada cinco horas e 25 minutos, uma mulher é assassinada em razão de gênero no Brasil. Essa situação alarmante corrobora os dados nacionais, que totalizaram 1.470 feminicídios registrados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (Sinesp) em 2025. Esse cenário de crise persistente revela uma média trágica de quatro mortes violentas diárias no país no ano. E o cenário pode piorar: entre janeiro e março de 2026, foram 399 casos, segundo o Sinesp. Minas Gerais foi o estado com o segundo maior número de casos, 42.
O ano de 2026 marca os 20 anos desde a sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), que define formas de violência doméstica contra a mulher (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral) e elimina penas alternativas, como o pagamento de cestas básicas, para esse tipo de crime. Foi somente a partir de 2006 que a violência contra a mulher passou a ser tratada de forma específica e rigorosa no Brasil.
No entanto, duas décadas depois, os índices de feminicídio no país revelam que o desafio de proteção ainda é muito significativo.Vale lembrar que, em 2015, a Lei nº 13.104 incluiu o feminicídio como qualificador do homicídio, tornando-o crime hediondo. Recentemente, em 2024, a Lei nº 14.994 transformou o feminicídio em um crime autônomo, elevando a pena para 20 a 40 anos de reclusão.
Esse panorama nacional ecoa tragicamente na Região dos Inconfidentes. O cenário local demonstra a necessidade de ações mais firmes contra esses casos, na busca por prevenir o aumento de vítimas. Por isso, é crucial analisar as cidades da região, observando as experiências das mulheres nos três municípios e ponderando como o local e seus cidadãos agem em situações de violência por razões de gênero e raça.
Quando as violências registradas na região se concentram nas mulheres pardas, ficam evidentes desigualdades estruturais que atravessam gênero, raça e território. É importante também observar um possível fator determinante na crescente violência de gênero na região: a presença de empresas mineradoras. A reflexão sobre como o aumento de casos tem relação com a mineração é necessária, levantando a discussão a respeito do cenário de desorganização social e se culturas patriarcais intensificadas reverberam nas vítimas.
A relação entre território e raça
Professora associada do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e pesquisadora de violências de gênero, Karina Gomes Barbosa explica que, para além das questões raciais, regiões de mineração intensa, como a cidade de Mariana, apresentam maiores riscos de violência de gênero e violência contra a mulher.
Segundo dados disponibilizados em 2016 pela Polícia Civil do município de Parauapebas, cidade com forte presença mineradora no Pará, 80% dos casos de violência contra a mulher apontavam trabalhadores da Vale como agressores; informações similares não foram encontradas referentes às cidades da Região dos Inconfidentes nem dados mais recentes. Karina explica que contextos mineradores contam com grupos extensos de homens do mesmo convívio, sem integração com a cidade e condições de habitação mediadas pelas empresas, em alojamentos com regras de segurança, sem conforto e comodidade. Isso torna os espaços propícios para a propagação de “mandatos de masculinidade”; trata-se do que Rita Segato denomina “máfias de homens” ou “confrarias”: estruturas onde a identidade do grupo é reafirmada por meio de experiências em comum, muitas vezes baseadas em expressões de violência contra a mulher.
Isis Silva Roza, professora associada do Departamento de Serviço Social e pró-reitora Adjunta de Assuntos Comunitários e Estudantis da UFOP, é especialista em questões étnico-raciais e serviço social. A professora aponta que as mulheres negras estão entre o maior número de vítimas, fato vinculado à sua presença na base da pirâmide social. A partir disso, lugares com forte presença mineradora se tornam mais perigosos para elas, entendendo o contexto machista em que esses trabalhadores convivem.
Regiões mineradoras podem ser um agravante para a ocorrência de violências contra as mulheres. São espaços majoritariamente masculinos, que reproduzem relações machistas. O amplo fluxo migratório de homens gera uma população masculina flutuante. São homens que estão em constante mudança, longe de suas famílias e laços afetivos, o que traz um ambiente confortável para aqueles que querem praticar violências contra mulheres, muitas com quem mantém relação afetiva durante um curto período de tempo. O uso abusivo de álcool e outras drogas agrava o cenário.
Isis Silva Roza
A Região dos Inconfidentes caracteriza-se pela predominância de populações pretas e pardas, o que reflete uma expressiva ancestralidade étnico-racial moldada pela história local. De acordo com dados do Censo 2022 do IBGE, a população total de Mariana (MG) é de 61.387 pessoas. A cidade conta com 4.759 mulheres a mais do que homens. Além disso, conforme pesquisa de 2017 do Atlas Brasil, a população de Mariana é composta majoritariamente por mulheres e pessoas negras, que representam mais da metade dos habitantes.
Historicamente, tanto Mariana quanto Ouro Preto foram regiões de intenso fluxo de pessoas escravizadas devido à exploração de ouro e diamantes e, posteriormente, pela atividade minerária no Quadrilátero Ferrífero. Tendo isso em vista, Karina argumenta que, devido ao modelo de colonização e às raízes do racismo estrutural, grande parte da população preta e parda foi empurrada para as margens da cidade: morros e áreas de risco com infraestrutura precária e escassez de saneamento básico. Nessas regiões periféricas, a assistência do Estado é deficitária, com menor oferta de educação, políticas públicas e serviços essenciais. Portanto, quando relacionamos o fator racial com a dinâmica de uma cidade mineradora, fica claro o aumento de riscos e vulnerabilidades em Mariana para esses grupos – e especialmente para as mulheres.
Faixa etária
Os dados do Sinan expõem que nas cidades de Mariana, Ouro Preto e Itabirito as notificações de violência de gênero atingem o pico sobre mulheres de 19 a 30 anos.
A professora Isis Silva Roza pontua que a idade também é um fator de risco para as mulheres. De acordo com ela, os fatores são variados: as violências ocorrerem dentro de relações afetivas; a necessidade de controle dos parceiros sobre elas, que buscam autonomia e independência financeira; homens desconfortáveis com a juventude de suas parceiras. Sob essa perspectiva, a pesquisadora Karina Gomes Barbosa também enxerga o alto índice de casos contra mulheres na faixa etária de 19 a 30 anos relacionado à busca da mulher por autonomia, enquanto os agressores interpretam o fato como uma perda do controle sobre o corpo feminino, desencadeando relações violentas.
Por outro lado, ambas as pesquisadoras apontam que meninas, adolescentes, mulheres idosas e mulheres com deficiência estão mais sujeitas a um controle doméstico, exercido dentro do espaço privado. Nesses casos, a menor quantidade de registros não indica necessariamente menos violência, mas sim uma subnotificação. Enquanto a faixa dos 19 aos 30 anos costuma desafiar mais abertamente o controle masculino sobre os corpos, os demais grupos enfrentam barreiras físicas ou sociais que dificultam a denúncia, mantendo a violência invisibilizada no ambiente familiar.
Certamente também há uma subnotificação dos dados desses grupos porque estão em maior condição de vulnerabilidade, o que também impede, em muitos casos, elas de denunciarem. Karina Gomes Barbosa
Local e ocorrência
O ambiente doméstico, historicamente, também é constituído sob violência, deixando de ser um local de mera privacidade e intimidade. Assim como explica a pesquisadora Karina Gomes Barbosa, a violência doméstica ocorre de forma contínua, facilitada por mecanismos como o controle psicológico, financeiro e patrimonial que mantém a mulher subjugada. No isolamento do lar, o agressor encontra o ambiente ideal para exercer o seu domínio, uma vez que as residências se manifestam de forma mais expressiva como o palco da violência: dados indicam que 60% das agressões voltam a ocorrer nesse ambiente familiar.
Mesmo que medidas protetivas, como o uso de tornozeleiras eletrônicas e o impedimento de aproximação, ajudem a diminuir essa exposição da vítima, quando aplicadas de forma isolada, elas não resolvem o problema. A baixa eficiência é percebida pelo grande número de feminicídios cometidos por homens que já possuíam medidas restritivas ou condenações prévias. Portanto, as intervenções pós-violência apenas mitigam danos, mas não os previnem.
Para Karina Barbosa, a medida protetiva deve estar integrada a uma rede de políticas de prevenção: educação, condições dignas de trabalho para mulheres e oferta de creches. Como defendem os estudos feministas, é necessária uma mudança cultural profunda para desenraizar o machismo que fundamenta nossa sociedade. Sem um enfrentamento dessas raízes culturais, continuaremos remediando danos em vez de consolidar uma cultura de prevenção global e efetiva. Em abril de 2026, a Lei nº 15.398 aprovou o programa “Antes que aconteça”, com o objetivo de reduzir os índices de feminicídio do país. Por meio de ações como a criação de redes de atendimento, aumento do acolhimento especializado, criação de unidade móvel de atendimentos jurídicos e psicossociais e a ampliação das defensoras populares, o programa busca fortalecer as redes de proteção para evitar que as violências se tornem fatais.
De acordo com Isis Silva, o cuidado e as medidas devem ser responsabilidade não só do Estado mas também da sociedade, que tem suas relações impactadas pelo racismo estrutural. Assim, as políticas públicas ainda são insuficientes para as mulheres, mas em especial as mulheres negras. Isis ressalta que é responsabilidade do Estado a conscientização da população, orientando como a sociedade deve superar a cultura machista.
Enquanto as políticas públicas não levarem em consideração a formação racista da sociedade e criarem recortes específicos para atendimento da demanda de grupos específicos, não será possível mudar esse quadro. Isis Silva Roza
Caso esteja passando por alguma situação de violência e precise de ajuda procure uma delegacia especializada de atendimento à mulher na sua cidade ou entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo número 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.
Por Marcela Pauline, Maria Vital e Letícia Gabrielli.
Reportagem desenvolvida para a disciplina Comunicação digital e hipermídia, no semestre 2025/2, sob orientação do professor Marcelo Freire.
