A relação de abandono dos filhos pelos pais se mostra quase repetitiva no mundo da cultura. Jesus Cristo ao perguntar porque foi abandonado enquanto se encontra sozinho sob a cruz. Alexandre, o Grande, ao crescer envolto em uma relação caótica com o rei, seu pai. Kafka ao escrever uma carta que nunca foi enviada, em que traz à tona seus medos e inseguranças. Édipo, sem saber, cometendo o assassinato contra o pai em um rompante de fúria. Ivan, o Terrível, matando o próprio herdeiro com um cajado. Em todos esses casos, a figura do pai representa uma autoridade presente-ausente.
No entanto, ao observar a representação da maternidade em suas diversas formas na cultura, não há um cânone bem estabelecido. Em alguns casos, a forma da mãe tem corpo, voz e essa figura encontra a filha em seu processo de amadurecimento. Enquanto os pais podem representar o primeiro ideal romântico de uma menina, as mães representam uma figura complexa e volátil, ocasionalmente participando dos campos mais caóticos da vida de uma garota, enquanto a relação das duas se modificam e se entrelaçam ao longo dos anos.
Essa relação é lindamente representada em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), filme independente americano escrito e dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheiner e estrelado por Michelle Yeoh. Ele exibe a ideia de multiverso, explorado pela cultura moderna e desenvolvido no cinema, desde De Volta Para o Futuro (1985) e Matrix (1999) até Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022). Mas, enquanto somos atingidos pela viagem metafísica presente em cada segundo do filme, também somos tocados por um drama doméstico, uma dolorosa história de imigrantes e, acima de tudo, a dor e o amor entre mãe e filha.

No centro disso está Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma imigrante filha de chineses que administra uma lavanderia ao lado do marido, Waymond (Ke Huy Quan). A acompanhamos em um único dia de estresse e frustração, quando se prepara para receber o pai, que repudia seu casamento e suas escolhas de vida. Ao mesmo tempo, se organiza para uma auditoria com a Receita Federal dos EUA e tenta lidar com o pedido de divórcio de seu marido. Ao lado dela está sua filha, Joy (Stephanie Hsu), uma garota entrando na vida adulta, com problemas de autoestima, uma polêmica namorada e passando por todos os conflitos de uma jovem, enfrentando angústias, sentimentos, sua sexualidade e sua família, que parece não compreender nenhuma de suas escolhas.
Conforme o encontro com uma burocrata de impostos se aproxima, o multiverso se abre e Waymon, antes confuso, tímido e bobo, se transforma em um comandante espacial. Essa versão alternativa de seu marido explica para Evelyn o perigo que o mundo corre: a estabilidade dos universos paralelos está ameaçada por um monstro sedento de poder chamado Jobu Tupaki. E Evelyn é a única capaz de salvar o mundo, aprendendo a lutar e pulando entre as diversas realidades. Logo, as finanças são postas em segundo plano e a fusão entre universos começa. Quando, eventualmente, o grande vilão aparece, descobrimos que Jobu antes era uma Joy, a filha que Evelyn desdenha na realidade em que vive, e que Jobu busca matar Evelyn.
Uma mãe. E uma filha.
Chegamos ao ponto principal do filme: uma relação entre mãe e filha desconexa e negligenciada que se repete em todos os universos. E, em um deles, Evelyn leva Joy ao limite, fragmentando sua mente em todas as possibilidades e experiências do multiverso. Nesse universo, Evelyn machuca tanto a própria filha a ponto de transformá-la em uma vilã niilista e suicida, Jobu Tupaki, que viaja pelo multiverso buscando matar todas as versões da própria mãe. Ao mesmo tempo, a mãe é a única capaz de salvar a filha. Curioso, certo?
Tudo o que Joy se incomoda a respeito de Evelyn tem um efeito catastrófico. E a viagem de Evelyn pelas teias da realidade é uma viagem pelo psicológico de Joy, a filha que ela não consegue entender. No cinema, o cânone de uma filha confusa e raivosa acompanhada de uma mãe também confusa e raivosa, que tenta não passar uma dor antiga para sua descendente, é bastante presente. Richard Benjamin faz isso muito bem em Minha Mãe é uma Sereia (1990), Greta Gerwig em Lady Bird (2017), Craig Gillespie em Eu, Tonya (2017). Em todos esses, as relações são falhas e duas mulheres lutam para crescer e encontrar algum sentido na vida juntas.
No universo de Joy e Evelyn, elas se enfrentam nas viagens metafísicas e na vida real. Evelyn precisa destruir Jobu, que, antes de matá-la, tenta convencê-la de que a vida não vale a pena e que, como alguém que conhece tudo o que há no universo, nada disso importa. É apenas após Evelyn encarar diferentes realidades – algumas como um rocha, outras como mestre de kung-fu ou atriz de cinema famosa – que ela aceita continuar como uma imigrante dona de lavanderia em um casamento em risco e uma filha imperfeita, mesmo ao conhecer um mar de possibilidades que ela poderia ser. Depois de tudo isso, Evelyn mata a versão de sua filha que, em outro universo, se transformou em um monstro e volta para Joy, a filha que ela ainda pode salvar. Nele, ambas entendem o que precisam fazer; Evelyn precisa soltar e segurar ao mesmo tempo, deixando que ela vá mas, em parte, estando junto.
Durante todo esse tempo, eu não estava procurando por você para te matar. Eu só estava procurando por alguém que pudesse ver o que eu vejo, sentir o que eu sinto.
Jobu Tupaki
Como qualquer relação familiar, não há resolução definitiva. Evelyn aceita a namorada da filha, aceita as tatuagens que ela fez, aceita o fato de Joy só ligar quando precisa de algo. Iniciando a vida adulta, Joy carrega a confusão que acompanha esse período. Gritos, confrontos, distância, silêncio. Mas a vida de Joy vem com a presença de uma mãe, que, apesar de todas as ressalvas, estará sempre ali, ambas conhecendo a si mesmas enquanto descobrem porque ainda procuram uma a outra em meio a tanto ruído. Descobrindo também o motivo de, mesmo depois de conhecer tantos universos e realidades, uma mãe ainda escolhe ficar com a própria filha, apenas com a certeza de alguns momentos minúsculos onde algo realmente faz sentido.
Serviço:
Título Original: Everything, Everywhere, All at Once
Onde Assistir: HBO Max e Prime Video
Duração: 139 minutos
Gênero: Ficção Científica, Comédia, Ação e Drama
Classificação Indicativa: 14 anos
Nossa Classificação: 14 anos
Justificativa: Contém violência e conteúdo sexual.
Por Letícia Gabrielli.
