Eu fui, como muitas, uma criança Turma da Mônica (e ainda sou, na verdade, uma adulta Turma da Mônica). Pequena, sempre adorei as histórias com a Tina e a Pipa: elas eram tudo que eu ainda imaginava vir a ser. Jovens, autônomas, preocupadas com questões outras que não as miudezas da minha infância.
Demorou a vida adulta para eu perceber que Tina e Pipa sempre orbitaram em torno de histórias, na verdade, bastante machistas. Tina era uma jovem carente, que passava 80% do tempo preocupada em arrumar namorados – ou em caçar o namorado alheio. Vira e mexe, seu corpo era sexualizado a partir de um ponto de vista masculino dos mais rasteiros. A Pipa, por outro lado, eternamente insegura no namoro com o insuportável Zecão, era vítima de gordofobia a cada edição, não raro ridicularizada com roupas absurdas.
Claro que Tina e Pipa não são as únicas personagens do universo criado por Maurício de Sousa cujas histórias envelheceram mal, vide o exemplo da pobre da Thuga. Mas como elas integram um subgrupo mais velho, sempre foi possível explorar temas menos infantis – e mais problemáticos.
Apesar de todas as questões que tenho com a MSP (a Maurício de Sousa Produções), aqui em casa ainda somos mãe e filha Turma da Mônica. Especialmente do selo Graphic MSP, criado em 2012 por Sidney Gusman. Até agora foram 50 edições lançadas, algumas das quais ficaram famosas ao serem adaptadas para o cinema e venceram o Prêmio Jabuti.
O selo tem um monte de méritos que eu, absolutamente não especialista em HQs, não seria capaz de listar, mas um deles me toca de maneira especial: a capacidade de as artistas chamadas e chamados a criarem novas histórias para os personagens da Turma da Mônica produzirem novos imaginários sobre eles e sobre o mundo.
E aí eu volto a Tina e Pipa, heroínas da minha infância. Em 2019, a Graphic MSP publicou seu 24º volume: Tina: Respeito, por Fefê Torquato. Tina, jornalista recém-formada, tem uma base ampla de seguidores na internet, onde publica reportagens investigativas. Ela é, portanto, uma repórter deste tempo. Contratada por uma redação, sofre o que muitas jornalistas de um tempo anterior, como eu, sofremos nas mãos de jornalistas renomados, editores, fontes: assédio sexual.
No lugar da objetificação, Tina agora é a mulher que reconhece a violência que sofreu, recusa o papel de vítima e usa suas ferramentas em busca de justiça (dessa vez não vou contar o fim da história). Um adendo muito bacana: não há qualquer menção à preocupação de Tina com homens na graphic novel.
Cinco anos depois, em 2026, como um duplo, a 48ª história da Graphic MSP trouxe Pipa ao protagonismo em Pipa: Voo, de Helô D’Angelo. E essa narrativa pegou em memórias muito pessoais que, imagino, devem ser memórias de muitas mulheres, sobretudo heterossexuais.
A história parte de (mais) um término de Zecão com Pipa – mas dessa vez parece ser diferente, definitivo. Na fossa de Pipa, a gente entende que a vida dela girava toda em torno dele: até a faculdade ela escolheu por conta de Zecão. Desesperada, Pipa cria uma missão de reconquistar o namorado aconselhada por uma coach de mídias sociais.
Nesse processo, ela se perde (ainda mais) de si para virar a mulher de que “eles gostam, nem adianta discutir”. Cabelo, dieta, meditação, aprender os gostos dele, depilação. Pior: chega a hora de “se livrar de tudo o que o boy não gosta”, ou seja, de jogar o restinho da subjetividade fora.
A espiral de tristeza e desapontamentos de Pipa é difícil de ler, porque profundamente identificável, até ela finalmente ressignificar o namoro idealizado pelo qual chorava; Zecão era um babaca (o que já estava bem claro nos antigos gibis). Ela passa, então, a deixar de ser a Pipa do Zecão para ser a Pipa, “só Pipa mesmo”, que se ama, e que vale e merece ser amada por quem é.
De modos distintos, Tina: Respeito e Pipa: Voo, reconstroem o que a gente sabe sobre personagens que povoam nossa infância e nos ajudam – talvez tenham me ajudado pessoalmente porque, sei lá, tocam em lugares muito próximos – no processo de reconciliação com imaginários da nossa infância.
Pras crianças de hoje, Tina: Respeito e Pipa: Voo – toda as edições de Graphic MSP – aproximam personagens que amamos muito de narrativas que em vez de perturbarem, incomodem, tensionem e se abram a um mundo melhor.

Livro: Tina: Respeito
Autora: Fefê Torquato
Editora: Panini Comics
Faixa etária sugerida: a partir de 8 anos
Justificativa: a graphic novel trata de temas complexos, menos acessíveis a crianças no primeiro estágio da alfabetização.
Temas: assédio sexual; empoderamento; denúncia.

Livro: Pipa: Voo
Autora: Helô D’Angelo
Editora: Panini Comics
Faixa etária sugerida: a partir de 8 anos
Justificativa: a graphic novel trata de temas complexos, menos acessíveis a crianças no primeiro estágio da alfabetização.
Temas: relacionamento tóxico; gordofobia; bullying
Por Karina Gomes Barbosa






