A representação da infância palestina no jornalismo

No Ocidente, o entendimento atual da infância considera crianças sujeitos de direitos que necessitam da proteção e da tutela dos adultos e do Estado a que pertencem. A Constituição Federal (1988) assegura a crianças, adolescentes e jovens um conjunto de direitos fundamentais, protegendo-os de qualquer forma de negligência, violência ou opressão. Da mesma forma, regulamentações internacionais e nacionais sobre a infância, como a Convenção sobre os Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 1989, e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído no Brasil pela Lei nº 8.069 em 13 de julho de 1990, consagram às crianças um conjunto de direitos fundamentais, próprios e inalienáveis.

O conflito entre Israel e Palestina se estende há mais de 70 anos, com raízes pelo menos na década de 1940, quando houve amplificações no fluxo migratório dos judeus para o território palestino. Em 2023, o conflito ganhou nova força com o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, resultando em 1.665 pessoas mortas, segundo o governo israelense. O contra-ataque desproporcional de Israel destruiu casas, hospitais e escolas, levando ao uso do termo genocídio para se referir aos acontecimentos em Gaza.

Com o genocídio palestino, os direitos desse povo são sistematicamente violados, e o foco é voltado para grupos vulneráveis e minoritários, como crianças, idosos e mulheres. De acordo com o UNICEF, de 7 de outubro de 2023 a 3 de fevereiro de 2026, 71.803 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza; dentre esses números, pelo menos 21.289 eram crianças. Nesse sentido, as crianças e os adolescentes palestinos que são afetados pelo conflito demonstram que a garantia formal de direitos não é o suficiente para a proteção, condição que também se estende às coberturas jornalísticas.

A partir dessa perspectiva, produzimos o resumo expandido “A Representação das Crianças Palestinas na Cobertura da BBC Brasil” apresentado no III Seminário Recria. Nele, realizamos uma análise de conteúdo das matérias “‘Pais estão famintos demais para cuidar das crianças’: a corrida para liberar ajuda humanitária em Gaza” e “A fome extrema em Gaza: ‘Eu morreria por um pacote de farinha’”, ambas publicadas em 24 julho de 2025 na BBC Brasil, filiada da British Broadcasting Corporation, emissora do Reino Unido. Com o texto e as imagens publicadas nas reportagens sendo o objeto de estudo, percorremos a presença ou ausência das vozes infantis no conteúdo, assim como suas representações.

No período de 7 a 31 de outubro de 2023, foram publicadas 162 notícias relacionadas ao genocídio, 20 delas citando crianças na capa ou no título. As matérias analisadas no resumo não têm como foco as crianças, apesar do título evidenciar a presença delas no enredo da matéria. O texto em si não se refere às figuras das crianças, a não ser pela fala da chefe da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina, que contextualiza o sofrimento causado pela fome, explicitando que uma em cada cinco crianças estão desnutridas no território.
Outro momento em que as crianças são citadas, pela mesma fonte, é para exemplificar o tamanho da crise humanitária, evidenciada já no título. As crianças, dessa forma, não protagonizam a matéria pela qual são convocadas, com suas vidas representadas apenas nas falas de adultos. Examinando ainda o corpo textual da matéria, o uso da palavra “crianças” aparece cinco vezes, duas no mesmo trecho usado como título e citação de fonte, e uma vinculada à legenda da capa da notícia. Em todos os casos, o uso do termo é associado e protagonizado pelas fontes, majoritariamente em falas relacionadas à ONU.

No corpo textual, a figura das crianças é esquecida totalmente, sem sequer menção a elas e como enfrentam a questão da fome e do genocídio vivido em Gaza. A falta de fontes palestinas evocadas na matéria deve-se à restrição feita por Israel, que impede a entrada de jornalistas internacionais desde a intensificação das ofensivas, em 2023, gerando um “apagão da mídia”, termo usado pelas organizações internacionais para explicar a precariedade da cobertura. Contudo, a falta de apuração sobre um olhar infantil dos acontecimentos deve-se também à postura adotada pela BBC Brasil acerca do conflito. Segundo estudo feito pelo Centre for Media Monitoring, o veículo de mídia entrevistou significativamente menos pessoas palestinas para a construção das matérias e da história contada sobre a guerra, fazendo uma cobertura de viés parcial a Israel. Analisando dessa forma, se palestinos já são menos procurados pela mídia, o índice de crianças acionadas é ainda menor e/ou nulo, mesmo que suas imagens sejam usadas frequentemente.

Dentre as oito imagens apresentadas na reportagem, seis delas apresentam crianças e/ou adolescentes em situação de vulnerabilidade. Entretanto, ao analisarmos o corpo do texto, o termo “crianças” é utilizado apenas dez vezes, com quatro delas  nas legendas. Elas recebem esse destaque quando o veículo busca exaltar o espaço que esse grupo ocupa nas mortes e nas situações de fome. Ao analisarmos a escolha de fontes, também se conclui que não existe a voz de crianças e adolescentes e, quando tais indivíduos citam o grupo etário, busca sempre relacioná-los a dados e estatísticas. Essa escolha reforça a posição do veículo em utilizar desses indivíduos para causar comoção, utilizando de números e elementos visuais impactantes para reforçar a dor e o terror daquele povo.

Quando voltamos o olhar para a cobertura colonialista feita pelo veículo, a reportagem não contextualiza a opressão e a violência, além de não enquadrar a ocupação militar e o genocídio realizado pelo Estado de Israel. Apesar de se referir à comunidade e aos feridos como palestinos, o termo “Palestina” não é utilizado. Termos como “Gaza” e “Hamas”, por outro lado, ganham destaque, e “Israel” aparece na reportagem quinze vezes. Além disso, termos como “crianças em Gaza”, “população de Gaza” e “povo de Gaza” também são utilizados, servindo como uma forma de implicar que “a identidade palestina é moldada pelo status de fragmentação imposto a eles, e assume que todos os palestinos que vivem atualmente em uma determinada geografia se originam de lá, omitindo o fato de que a maioria dos palestinos são refugiados de outras partes da Palestina”, de acordo com o guia midiático Communicating Palestine.

De maneira geral, existe um padrão nos erros cometidos por ambas as reportagens. A principal falha é a ausência das vozes das crianças e adolescentes e o uso da imagem delas em matérias que, em suma, não se referem a elas.

Boas práticas na cobertura jornalística

Além de documentos e leis que consagram às crianças e adolescentes direitos fundamentais,  garantindo a eles segurança e respeito, também concordam com uma série de guias e legislações no jornalismo que garantem a cobertura ética e precisa ao grupo. O Communicating Palestine (ou Comunicando a Palestina) é uma plataforma e guia digital criado pelo Instituto Palestino de Diplomacia Pública para apoiar a cobertura midiática, relatórios e narrativas sobre a Palestina. Ao analisarmos as boas práticas descritas no guia, existem certas sugestões que podem ser aplicadas na cobertura realizada pela BBC Brasil.

Em relação à utilização de fotografias, o guia recomenda que em casos onde as imagens reforcem estereótipos ou dinâmicas de poder, evoquem pena ao invés de solidariedade, transformam destruição colonial em estética sem contexto político, o jornalista deve rejeitar a imagem e buscar outro recurso visual de representação. O mesmo é indicado em imagens que representem momentos de sofrimento profundo. Observamos que tais práticas de escolha não são utilizadas nas imagens das reportagens analisadas, mostrando, assim, uma lacuna de comprometimento ético da parte do veículo.

Além disso, o guia também oferece recomendações aos jornalistas para retratar os palestinos. Dentre elas, se destacam práticas como: retratar as pessoas como agentes, destacando sua dignidade, firmeza, resistência e análise, não apenas seu sofrimento; rejeitar a empatia seletiva e reconhecer que todos os palestinos, independentemente de aparência, origem ou valores, merecem representação e cobertura; evitar enfatizar demais certos grupos, como mulheres ou crianças, para provocar simpatia.

Ao analisarmos as práticas sugeridas, há mais indicação de falhas na cobertura, como buscar o contexto e as histórias da comunidade que está sendo capturada. A plataforma ainda ressalta a necessidade de se abster de capturar palestinos em situações vulneráveis, como quando estão feridos ou em busca de alimento, como ocorre diversas vezes nas reportagens. Ademais, a falta de legendas, descrições, citações diretas e recursos adicionais que capturem a história completa e forneçam contexto sobre o local, o momento e os atores envolvidos também se destacam na cobertura analisada, uma vez que nenhuma das legendas nas fotos apresentam contexto, mas sim dados relacionados ao que a imagem representa – como fome, violência, desnutrição.

É a partir dessa cobertura que percebemos também uma violação dos direitos de proteção às crianças exigidos pelo ECA a partir do uso das imagens dessas pessoas em situações vulneráveis na mídia. O uso dessas fotos implica em um dilema ético da cobertura jornalística, já que o genocídio e as consequências da guerra devem ser noticiados por tratarem de um assunto de interesse público urgente. Contudo, utilizar essas fotos prejudica e interfere na vida dessas crianças, que, na maioria das vezes, não têm o entendimento e a noção de que suas imagens circulam pelo mundo. Dessa forma, além de negarem voz na matéria às crianças, a agência de mídia BBC interfere, no Brasil, no ECA e nas resoluções adotadas pelo governo brasileiro sobre proteção às crianças e adolescentes, em especial na mídia.

Assim, a reportagem, quando relacionada com a representação da criança, leva o público à comoção, utilizando esses indivíduos como vetores dramáticos enquanto os passionaliza sem humanizá-los. A cobertura, com ausência de fontes desse grupo etário e o uso de imagens distribuídas por agências internacionais, demonstra uma narrativa que prevalece na grande mídia e não permite a aproximação do público com essas pessoas, ressaltando as violências sofridas enquanto não coloca as crianças como personagens principais.

Quando se trata da experiência vivida pelos palestinos, observamos na cobertura uma minimização da perspectiva desse povo, principalmente ao analisar o frágil grupo das crianças e adolescentes que poderiam ter este sofrimento bem representado. É através dessa cobertura superficial e colonizada que há uma rejeição de legislações que buscam garantir direitos a esses indivíduos, as desumanizando e impedindo a participação na busca por direitos e por uma vida digna.

Por Juliana Bortolossi e Letícia Gabrielli.

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