Quem protege a infância?

Com os crescentes debates sobre as propostas dos candidatos à Presidência da República e em pleno mês das crianças, surge um questionamento: o que está sendo feito e proposto para essa parcela população?

Em uma fala recente durante encontro com empresários em um shopping na Mooca, na Zona Leste de São Paulo, como parte da agenda de campanha, o candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro afirmou que pretende indicar ao Supremo Tribunal Federal (STF) candidatos e/ou candidatas que sejam contra o aborto e contra as drogas, além de, segundo ele, respeitarem a Constituição. A justificativa foi de que indicações com esse perfil ajudariam a aumentar a segurança jurídica no país. Mas e a segurança das crianças e adolescentes vítimas de violências que serão impactadas por políticas que ferem diretamente seus direitos também previstos pela Constituição?

Com o término do primeiro turno das eleições marcado por disputas ideológicas, uma das questões a serem analisadas é a composição dos cargos legislativos e executivos, já que os ocupantes participam de decisões que afetam diferentes setores da sociedade, incluindo crianças e adolescentes.

Fachada do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro.<br><br>As cúpulas abrigam os plenários da Câmara dos Deputados (côncava) e do Senado Federal (convexa), enquanto que nas duas torres - as mais altas de Brasília, com 100 metros - funcionam as áreas administrativas e técnicas que dão suporte ao trabalho legislativo diário das duas instituições.<br><br>Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
Fachada do Congresso Nacional, sede das duas casas do Poder Legislativo do Brasil. Reprodução: Jefferson Rudy/Agência Senado

Dessa forma, é importante entender o cenário atual da política brasileira e como os poderes vão ser exercidos nos próximos quatro anos. O Legislativo ocupa um papel importante na elaboração e na análise de leis que impactam diretamente a população brasileira. A partir de 2027, o Congresso Nacional terá uma nova composição com o Partido Liberal (PL) ocupando a maior bancada nas duas Casas legislativas. No Senado Federal, composto por 81 cadeiras, o partido passará a contar com 28 senadores. Já na Câmara dos Deputados, das 513 vagas, o PL elegeu um total de 121 representantes, o equivalente a 23% da Casa.

A ampliação de representantes de um partido como o PL – historicamente associado à direita e marcado por posições socialmente conservadoras e pela defesa de princípios econômicos liberais – no Congresso pode representar um atraso nas pautas de defesa do direito à segurança das crianças e adolescentes.

No plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) para as eleições presidenciais, os termos “criança” ou “crianças” aparecem 25 vezes; em contrapartida, “infância” somente uma, assim como o termo “adolescente”. As propostas incluem a defesa de escolas cívico-militares, a aplicação da política nacional para alunos com altas habilidades, e a proposta de aprovar a castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças, e não cita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ou seja, mostra ausência de compromisso com leis consolidadas que protegem essa parcela populacional. Quando a figura de maior destaque de um partido com tal expressividade não se preocupa com o direito de crianças e adolescentes, o que esperar do resto dessa cadeia?

A ausência de garantias com os direitos de crianças e adolescentes é recorrente vindo de figuras do Partido Liberal. No dia 2 de fevereiro de 2025, a deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ) apresentou o texto que, posteriormente, ficaria conhecido como “PDL da pedofilia” – e anuncia o que podemos esperar de um evento governo de extrema-direita a partir de 2027.

O Projeto de Decreto Legislativo nº 3/2025, aprovado no Plenário do Senado Federal em 2 de junho de 2026, foi elaborado com o objetivo de suspender os efeitos da Resolução nº 258, de 23 de dezembro de 2024, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A medida ganhou espaço na mídia pela temática do aborto e pela velocidade de aprovação da medida no Congresso Nacional. Em menos de dois minutos a votação se encerrou, cancelando a resolução, que tinha como objetivo regular os procedimentos já previstos na norma jurídica brasileira e garantir a efetivação dos direitos de crianças e adolescentes, especialmente meninas de até 14 anos – idade até a qual a legislação brasileira caracteriza a violência como estupro de vulnerável –, além dos casos em que há risco à vida da pessoa gestante e de anencefalia fetal.

A proteção infantojuvenil no cenário nacional é resguardada pelo artigo 227 da Constituição Federal de 1988, que coloca os direitos das crianças e dos adolescentes como prioridade absoluta do Estado, da família e da sociedade. Juntamente à Constituição, o Brasil conta com o ECA de 1990, que prevê em seu artigo 88 a “criação de conselhos municipais, estaduais e nacionais dos direitos da criança e do adolescente”, estabelecendo uma base legal para elaboração do Conanda.

Como jornalistas em formação, compreendemos o papel essencial da comunicação em compartilhar com a sociedade os acontecimentos; em temas sensíveis, o papel do jornalismo é (ou deveria ser) ter compromisso com a verdade, evitando ser espaço para propagação de notícias falsas. Entretanto, não é a realidade atual – em especial quando o tema é crianças e adolescentes.

Enquanto produzíamos o resumo expandido “PDL 03/2025: enquadramento e debate moral no veículo Gazeta do Povo”, apresentado no III Seminário Recria, percebemos alguns padrões utilizados nas manchetes do veículo. A partir deles, expandimos nossa pesquisa também aos princípios editoriais da Gazeta do Povo, analisando dois editoriais publicados pelo veículo paranaense nos dias 14 de novembro de 2025 e 14 de junho de 2026. De todo esse processo, a pergunta que ficou foi: como o jornalismo pode impactar na percepção dos leitores sobre o Conanda?

Gazeta do Povo

Fundado em 1919, o veículo é considerado o mais tradicional do Paraná. Desde 2017 passou a ser totalmente digital, tendo investido mais de 20 milhões de reais em tecnologia e estudos sobre comportamento dos leitores. Atualmente, produz conteúdos e notícias por meio do site oficial, aplicativo próprio, YouTube, podcasts e newsletters. Dentre os princípios editoriais, destacamos: “Defesa da vida desde a concepção”, “O valor da família” e “A importância do casamento”, por evidenciarem o compromisso do veículo com valores de cunho conservador, especialmente no que se refere a debates sobre aborto, estrutura familiar e noções morais.

No princípio editorial “Defesa da vida desde a concepção”, o jornal apresenta o aborto como tema central de discussão e utiliza a citação do pediatra e geneticista francês Jérôme Lejeune para sustentar a ideia de que a vida humana começa na fecundação:  “Se um óvulo fecundado não é por si só um ser humano, ele não poderia tornar-se um, pois nada é acrescentado a ele”. Para concluir o pensamento e evidenciar ainda mais os vieses de cobertura do jornal, a publicação segue com a seguinte afirmação:

“Para além de qualquer outra consideração política, criminal ou sociológica, é indubitável o fato de que o aborto é a eliminação deliberada de um ser humano, cuja humanidade – com o perdão da redundância – se baseia não em convicções filosóficas ou religiosas, mas na própria ciência, que atesta o surgimento de um novo indivíduo, com código genético único, desde o encontro dos gametas masculino e feminino”

Com base nesses princípios, o veículo publica materiais jornalísticos que coadunam com suas ideias e ideais. Pensando sobre o papel da comunicação, as mídias desempenham um papel importante na construção e disseminação de narrativas sobre diferentes grupos sociais, incluindo as infâncias. Entretanto, é importante destacar o compromisso do jornalismo com uma comunicação clara e comprometida com a verdade, buscando evitar a desinformação e ruídos comunicacionais. Nesse sentido, como as narrativas construídas nesses editoriais podem influenciar na opinião dos leitores?

Comentário na publicação de novembro de 2025
Comentário na publicação de junho de 2026
Comentário na publicação de junho de 2026
Comentário na publicação de junho de 2026

Em síntese, a análise reafirma algo que vem sendo debatido desde o fim do primeiro turno: até que ponto nossos direitos são respeitados e têm validade? Quando falamos de um país que idealizou e implantou o ECA — um modelo para todo o restante do mundo na garantia dos direitos de crianças e adolescentes  —, permitir que representantes eleitos questionem ou sejam negligentes com esse grupo social é uma espécie de sabotagem institucional. Do mesmo modo, quando um portal enviesado produz ataques às instituições públicas e promove um espaço apenas para discursos semelhantes que ferem direitos, ele acaba contribuindo para que a sociedade aceite a perpetuação de violências contra crianças e adolescentes.

Por Marcela Pauline, Maria Vital e Nicolle Soares

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