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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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A homofobia e o mau exemplo de Cameron Post

Créditos da imagem: cena do filme O Mau Exemplo de Cameron Post é um filme estadunidense, lançado em 2018 e dirigido por Desiree Akhavan. Com 91 minutos de duração, a produção é baseada em um romance escrito por Emily M. Danforth, e conta a história de Cameron Post (Chloe Grace Moretz), uma adolescente lésbica, inserida num cenário ambientado da década de 90.
A trama gira em torno da repressão que Cameron sofre em todos os sentidos: a adolescente, órfã, tenta “mascarar” sua orientação sexual para não sofrer julgamentos homofóbicos, com atitudes que incluem levar um menino para acompanhá-la ao baile e assinar um termo concordando com sua internação em um centro religioso que afirma converter jovens LGBTQIAP+.
Esse tipo de comportamento é muito comum em sujeitos queer quando estão tentando descobrir e entender quem são e qual espaço ocupam. A negação, a confusão e a dúvida fazem parte desse processo de autodescoberta, uma vez que, devido à sociedade preconceituosa em que vivemos, sair dos padrões sociais impostos por ela significa lidar com exclusões e violências.
No filme, a protagonista Cam é flagrada por seu namorado, Jamie, ao transar com sua melhor amiga, Coley (Quinn Shephard), que é a pessoa que ela ama e se sente atraída. As cenas de sexo e desejo entre elas são filmadas não de maneira fetichista, mas de forma que o espectador perceba a intensidade e paixão envolvidas no cenário. Após o flagrante, a tia religiosa de Cameron decide enviá-la ao God’s Promise (Promessa de Deus), lugar religioso que tem como objetivo converter jovens atraídos pelo mesmo sexo, termo utilizado por eles para negar a existência da homossexualidade.
Nesse centro, Cam faz dois amigos, Jane (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck) e, lá, eles são submetidos a “técnicas de conversão”: são obrigados a fazerem orações constantes e sessões de terapia nas quais são instigados a mapear os aspectos de sua criação que levaram à homossexualidade, que é vista o tempo todo como uma doença. Os estereótipos são abundantes e tidos como problema: meninas são levadas a culpar o gosto pelos esportes e, meninos, as atividades “femininas” que faziam com a mãe.
O God ‘s Promise, no longa, é comandado pela psicóloga Lydia Marsh (Jennifer Ehle) e por seu irmão, Rick (John Gallagher Jr.), que afirma ser, ele mesmo, prova da eficácia do tratamento. No período em que os jovens estão no local, eles tentam recorrer a alternativas que os deixem minimamente sãos em relação à realidade fora daquele ambiente: fazem caminhadas matinais para tentar lidar com as lavagens cerebrais a que foram submetidos e com a perda total da liberdade.
Além disso, o mantra principal do Promessa de Deus é impedir que os indivíduos sejam quem são: Adam, por exemplo, foi forçado a raspar seu cabelo, visto que ter o cabelo minimamente perto do ombro e dos olhos é considerado um “traço afeminado”. Mark – outro menino do internato – tentou suicídio mutilando a própria genitália para não sentir mais atração por homens, e isso ocorreu após seu pai dizer que não o aceitaria de volta em casa, pois “ele ainda era muito afeminado para retornar”.
Depois desse episódio traumático para todos os jovens do centro religioso, Cam, Adam e Jane percebem que aquele lugar é uma ilusão, e que um sistema que submete pessoas à tortura extrema a ponto delas prefirirem morrer do que assumirem quem são, não é válido nem correto. Dali em diante eles começam a compreender o lugar de resistência que ocupam no mundo e resolvem ir embora como se estivessem saindo para mais uma das rotineiras caminhadas.
O filme, vencedor do Festival de Sundance 2018, é uma crítica aos centros religiosos de conversão gay dos Estados Unidos, conhecidos também como lugares de “cura gay”. Quase 700 mil norte-americanos passaram por esse tratamento, metade quando menores de 18 anos, segundo o Instituto Williams da UCLA. Não é à toa que, como símbolo de revolta e tentativa de conscientização sobre os danos, filmes como “O Mau Exemplo de Cameron Post” e “Boy Erased: Uma verdade anulada” foram criados.
Infelizmente, um cenário de horror retratado a um contexto de 25 anos atrás, ainda corresponde à realidade atual. Isso porque, nos dias de hoje há muitos países que ainda apoiam essa prática de conversão sexual, como a Rússia. Por isso, leis em relação a essa violência precisam ser urgentemente alteradas, para que, quem sabe em um futuro distante, amar seja permitido independente do sexo e gênero em qualquer lugar.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
Título original: The Miseducation of Cameron Post
Onde assistir: Amazon Prime
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora:
16 anos (A16)
Justificativa: grande quantidade de violências mostradas; não é indicado de forma alguma para ser assistido por crianças, por conter cenas explícitas.Gatilhos: homofobia e tentativa de suicídio.
Gênero: Drama
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‘Pelo fim da cultura do assédio no ambiente acadêmico’: live para repensar os moldes em que vivemos
Imagem: Captura de Tela da Live. Disponível em: Live “Pelo fim da cultura do assédio no ambiente acadêmico” No dia 27 de junho, foi transmitida a primeira live da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, ela foi entre as pesquisadoras Heloísa Buarque de Almeida, da Universidade de São Paulo, e Valeska Zanello, da Universidade de Brasília, a conversa foi mediada pela pesquisadora Patrícia Valim, da Universidade Federal da Bahia. A live marca a abertura da campanha #AssédioZero, que foi idealizada pela Rede Brasileira de Mulheres Cientistas e busca caminhos de enfrentamento para esse problema tão profundo que é o assédio dentro do ambiente acadêmico. A proposta da campanha é debater, por meio de lives mensais, acerca desse tema e ao final do ano reunir em um livro esses ensinamentos, reflexões e estratégias pensadas em rede.
A Rede Brasileira de Mulheres Cientistas foi criada no período da pandemia de Covid-19, tempos em que a ciência e pesquisa estavam sendo intensamente desvalorizadas. A rede vem com o intuito de dar mais visibilidade para a produção acadêmica feminina e também atuar em sua defesa. O início deu-se a partir de uma Carta de Lançamento assinada por mais de 3000 cientistas brasileiras. É um trabalho contínuo e árduo, mas que almeja melhores condições de trabalho e vida para todas essas mulheres.
Os atravessamentos na vivência feminina presentes no âmbito acadêmico e profissional – sendo estudantes, docentes ou pesquisadoras – são repletos de abusos de autoridade, machismo estrutural e assédios – coloco aqui no plural pois são incluídos os assédios morais, sexuais e outros –, sendo assim, elas discutem sobre possibilidades de mudança e discussão de casos já existentes. As pesquisadoras ressaltam a desigualdade e hierarquização inseridas dentro desses locais, em que servidores estão acima de alunas e alunos, doutores estão acima de mestrandos e mestrandas e todos os tipos de classificação.
É colocado na live que a universidade nada mais é do que a reprodução do mundo exterior, em que existe o racismo, a misoginia, a LGBTQIA+fobia e tantos outros. Indico aqui a pesquisa Violência contra a mulher no ambiente universitário (Data Popular/Instituto Avon, 2015) com números nos trazem esse alerta:
Imagem: Trecho da Pesquisa sobre Violência nos ambientes universitários. (Instituto Avon/Data Popular 2015) Heloisa relembra as recentes mudanças jurídicas no assunto tratado aqui , em que estupro, assédio e violência sexual são termos relativamente novos e necessitam de maior entendimento e compreensão não só dentro das instituições de ensino mas em todos os lugares. Inclusive, a Lei responsável por essa pauta acabou de ser alterada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, para instituir o “Programa de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Sexual e demais Crimes contra a Dignidade Sexual e à Violência Sexual no âmbito da administração pública, direta e indireta, federal, estadual, distrital e municipal.” – confira a legislação completa aqui. Na live, Heloísa relata os casos na USP em que alunas a procuraram em busca de ajuda, também por conta da rede universitária “Não Cala USP”, em que professoras se mobilizam para ajudar em situações de assédio dentro da universidade.
Os casos dessa natureza tornam-se nebulosos por conta da falta de compreensão do que é abuso de fato, se aquela situação é agressiva e/ou ameaçadora ou se é “somente paquera”. No entanto, um ponto essencial é a relação de desigualdade de poder, em que as alunas ficam coagidas por seus professores e orientadores a realizarem aqueles pedidos indiscretos e até mesmo aceitar convites impróprios por conta da possibilidade de serem prejudicadas academicamente. Outro ponto é a dificuldade em aceitar que está sendo vítima de um assédio, justamente por pessoas que – possivelmente – costumávamos admirar.
No entanto, a normalização desse tipo de comportamento é algo comum na esmagadora maioria das experiências, em que o assédio é praticado na frente de uma sala de aula cheia e a resposta é a risada dos colegas e uma aluna envergonhada. Esse é um exemplo de caso que se repete e torna-se modus operandi dos agressores, que é praticar a violência na vista de todos e agir com naturalidade, fazendo com que o episódio não seja visto de forma negativa e sem que haja punição.
O que as pesquisadoras colocam como prioridade na conversa é a necessidade urgente da formulação de protocolos para lidar com esses casos e sua institucionalização, na qual práticas comuns deveriam ser aplicadas para punir os agressores e assediadores. Porém, a responsabilização dos assediadores entra em um âmbito complicado que é a mobilização acadêmica acerca do assunto, já que são professores concursados e, muitas vezes, com prestígio profissional.
Esse embate acontece, por exemplo, dentro de conselhos universitários, em que essas pessoas têm influência e poder, e portanto, são “intocáveis”. A virada de chave necessária é tirar o lugar de normalização desse tipo de prática, mas como?
As professoras citam alguns caminhos de solução, como no período de estágio probatório – é o processo que visa a aferir se o servidor recém-concursado possui aptidão e capacidade suficientes para o desempenho do efetivo – inserir formações contra o assédio e violência de gênero. Dessa forma, não há espaço para a justificativa de “eu não sabia que estava cometendo assédio!”. Isso facilita a responsabilização e a eficácia das possíveis punições. Já que, com a existência de uma cartilha – outra possibilidade falada por Valeska e Heloísa – essas regras já estariam colocadas.
Serviço:
Título da Live: “Pelo fim da cultura do assédio no ambiente acadêmico”
Participantes: Patrícia Valim, Heloísa Buarque de Almeida e Valeska Zanello.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Zf_vciEZRsg
Minha classificação : A live aborda temas difíceis e sensíveis, com representações de violência e assédio. Não é indicado assistir com crianças. Contém representações machistas.
Por Lia Junqueira
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‘A Máquina do Ódio’ e ataques a jornalistas mulheres: a violência como padrão no trabalho


Imagens: A jornalista Patrícia Campos Mello ao lado esquerdo e o ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado direito. A ‘Máquina do Ódio’ do político foi intensamente movida contra a escritora. Foto: Wikimedia Commons. Ao observar – e vivenciar na própria pele – a perversidade e falta de respeito com o trabalho jornalístico dentro das redes de desinformação, Patrícia Campos Mello descreve em “A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital” as violências sofridas nos últimos tempos dentro de seu trabalho. Pata, como é conhecida por alguns, é paulista, tem 48 anos e é também jornalista de formação pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Business and Economic Reporting pela Universidade de Nova York (NYU) – curso de teor jornalístico que tem como objetivo analisar e interpretar questões econômicas.
Ela já foi enviada especial em diversos episódios em áreas de guerra, ataques e refugiados como Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Quênia, Síria, Serra Leoa e Turquia, é conhecida justamente por seu trabalho na cobertura de conflitos pelo mundo. No entanto, a principal guerra apresentada por aqui é no ambiente digital.
Desde as eleições de 2018, ela ganhou notoriedade por conta de uma matéria que publicou sobre a suposta prática de crimes eleitorais na campanha do então candidato Jair Bolsonaro. Sua publicação, na verdade, foi somente o início do pesadelo, pois na CPMI das Fake News, no mesmo ano, o escândalo se consolidou quando Hans River do Rio Nascimento, fonte da reportagem de Pata, alegou que ela teria tentado obter informações com ele em troca de sexo. Seu rosto foi espalhado pelas redes sociais e destilado tamanho ódio que foi preciso contratar um segurança particular para acompanhá-la. Eram constantes as ameaças não só a ela mas também a sua família.
A reportagem de Patrícia, que era sobre o financiamento e disparos em massa de fake news, e as fontes eram confidenciais – por motivos óbvios, certo? Quem falaria de financiamento ilegal de campanha em plena campanha? Mas, infortunadamente, a fonte, ex-funcionário de uma empresa especializada em marketing digital e envio em massa de mensagens para usuários via Whatsapp, alegou em seu depoimento que a jornalista teria se insinuado sexualmente para obter informações e forjar publicações.
Infelizmente, o drama vivenciado por Patrícia não seria o primeiro e muito menos o último no cenário desse momento, ele cresceu e se transformou no que pode-se chamar de “modus operandi bolsonarista”. O processo pelo qual a democracia brasileira passou – e está passando – abriu as “tampas do esgoto” e deu voz para personagens e mensagens ultraconservadoras, misóginas e perturbadoras. No caso dela houve um episódio no qual descobriram que ela iria mediar uma reunião, divulgaram o local e horário e grupos contrários foram ao seu encontro para confrontá-la. Com isso, constata-se que o perigo ultrapassa os âmbitos digitais e toma também a vida real.

Legenda: Na plataforma do Twitter ataques como esse são comuns todos os dias, mas, sobretudo durante o período eleitoral, como demonstrado acima. Imagem: Reprodução/Twitter. O acontecimento que gerou o início dos ataques contra a Pata, sobre a política, também pode ser observado para além do Brasil, nos quais a imprensa não foi respeitada, como na Índia, onde a jornalista Rana Ayyub sofreu linchamento sexual on-line após uma sequência de notícias publicadas por ela sobre o Massacre Gujarat que aconteceu em 2002. Ela realizou uma série de reportagens sobre o assunto e a pauta gera dor de cabeça até os dias atuais. Assim como citado por Patrícia, esse tipo de ataque não é esquecido e, pelo contrário, fica sempre sendo alimentado em um ciclo vicioso. As chamadas “milícias digitais” são responsáveis por darem continuidade para essa técnica de disparos e formação de opiniões com fins eleitorais e/ou financeiros.
Bom, voltemos ao Brasil e o caso de Pata, logo após o massacre digital sofrido por ela, uma declaração difícil de esquecer foi dada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro: “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”. Bom, não parou por aí e aqui temos um pequeno compilado de frases ditas por ele:
Sete vezes em que Bolsonaro atacou jornalistas mulheres
Todas essas situações ganham um sentido muito mais sério e criminoso a partir do momento em que ataques, insultos e mesmo agressão física são refletidos dentro de uma perspectiva de gênero, que, para Judith Butler, em “Sujeitos do sexo/gênero/desejo”, primeiro capítulo de Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade (2003), é uma categoria constituída culturalmente, em que “uma prática reguladora que busca uniformizar a identidade do gênero por via da heterossexualidade compulsória”.
Uma vez que mulheres “desrespeitam” essas classificações, sendo vistas como agentes de mudança na sociedade e implicando na vivência masculina, elas são punidas, assim como observamos com Patrícia e tantas outras jornalistas nos últimos tempos. Ocorrendo inúmeras situações em que torna-se plausível criticar sua aparência física, sua família, ferir sua dignidade com montagens de vídeos pornográficos e tantas outras formas de violência, ao invés de criticar uma profissional por seu trabalho, apontando erros e argumentando de forma plausível.
Jair Bolsonaro não foi o primeiro, apesar de fazer isso há anos, e nem será o último. No entanto, suas atitudes não estão impunes e o ex-presidente está sendo julgado – e condenado – por diversas violências cometidas não só com Pata mas também outras profissionais. Espera-se que atos como esses sejam devidamente punidos e não retornem a acontecer, ainda mais com pessoas tão notórias quanto um presidente da república.
Separamos um levantamento feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) em 2022: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2023/01/FENAJ-Relat%C3%B3rio-2022.pdf
Além disso, para dialogar com a perspectiva de gênero, separamos um estudo realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) sobre violências de gênero: https://violenciagenerojornalismo.org.br/
Serviço:
Título do livro: A Máquina do Ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital
Autora: Patrícia Campos Mello
Editora: Companhia das Letras
Minha classificação: Contém violência de gênero e episódios de descrição dessas violências. Além disso, contém representações negativas das mulheres. A leitura não é indicada para jovens menores de 18 anos.
Por Lia Junqueira.
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‘Um lugar bem longe daqui’: uma história sobre negligência, abandono e violência

Créditos da imagem: cena do filme O filme Um lugar bem longe daqui, baseado no livro de Delia Owens, conta sobre a história de Catherine Danielle Clark, conhecida como Kya ou “menina do brejo”. A história começa em Barkley Cove, cidade da Carolina do Norte, quando o corpo de Chase é encontrado, um jovem cuja morte suspeita que pode ter sido acidental ou provocada por alguém, e quando essa dúvida surge, a cidade acusa Kya Clark. A famigerada “menina do brejo”, cuja vida é alvo de boatos e desumanização, de uma cidade que a vê como parte sobrenatural do brejo.
Para sua defesa no julgamento, surge um advogado disposto a escutar a sua história, e enquanto isso ocorre, ela é mantida presa. A protagonista começa a traçar para ele tudo o que aconteceu, já que se o caso for perdido a pena será de morte. Para entender sua história, é preciso voltar à infância. Kya foi criada em um pântano se locomovendo por barcos, era caçula de 4 irmãos, e vivia em um lar simples mas rodeado pela violência.
O pai agredia os filhos e a mãe, que foi embora. Aos poucos, foram-se todos os irmãos e, depois de um tempo, o pai a abandonou. Kya tinha 6 anos e estava sozinha longe de todos, sem frequentar a escola por sofrer bullying. Ela sobrevive sozinha, vendendo e pescando mariscos, recebendo apoio de Pulinho (que compra seus mariscos) e sua esposa Mabel, duas das únicas pessoas negras da cidade. Eles a tratam com respeito e compreensão, mas ela segue vivendo sozinha.
Anos passam, a protagonista cresce e ganha forte conexão com os animais, aprendendo sobre eles e os desenhando. Ela tem uma relação saudável com um jovem chamado Tate, mas ele a abandona para ir atrás dos próprios sonhos. Passam-se mais anos e Kya se envolve com Chase, um rapaz rico da cidade. A jovem não se sente mais sozinha e se abre, entra em contato com uma editora, produz livros com seus desenhos sobre espécies do pântano e compra sua propriedade para não a destruírem, tendo uma vida confortável.
Porém um dia ela descobre que Chase tem uma noiva, ela encerra o relacionamento na hora, mas o rapaz não aceita, e começa a ficar violento com Kya. Com o passar dos dias ele começa a persegui-lá, a agride e comete uma tentativa de estupro. Após perceber que a jovem não iria reatar, ele começa a destruir as coisas dela, cometendo invasões a sua propriedade, a deixando sempre em estado de alerta, com medo do próximo golpe que pode vir a qualquer momento, e assim a jovem fica sem ter para onde correr.
A vida de Kya foi marcada por uma grande negligência por parte da sociedade, que não fez questão de inclui-la, deixando uma criança solitária, primeiro presa em um lar com um homem violento que era seu pai, e depois completamente abandonada tendo que se “criar” sozinha. Essa mesma sociedade que a deixou ficou responsável por decidir se ela deveria permanecer viva ou morta em seu julgamento. Essas pessoas a classificaram como uma “bruxa”, atribuindo sua existência a algo sobrenatural por ela ter um modo de vida diferente. Em muitos momentos da trama Kya é comparada a seres místicos justamente por ter uma vida isolada, quando foi a própria sociedade que a colocou nesta posição.
A atribuição da condição da mulher que vive em modelos adversos aos convencionais como sendo “bruxa”e “feiticeira” nos relembra do livro de Silvia Federici “O ponto zero da revolução”, publicado em 2019. Na obra ela destrincha as relações de poder envolvendo gênero, reprodução, classe e distribuição de terras, dentro dessas relações são mostradas as formas como as mulheres eram enxergadas como sobrenaturais por viverem de forma isolada, ou por estarem fazendo práticas vistas como erradas, como a busca por conhecimento sobre a natureza.
Silvia fala sobre assuntos voltados principalmente para pessoas idosas, que eram as mais afetadas pela caça às bruxas, em seu capítulo chamado “Trabalho reprodutivo, trabalho das mulheres e relações de gênero na economia global”, por serem mulheres que não reproduziam ou tinham trabalhos dentro da sociedade. Entretanto, isso muito se relaciona ao modo como Kya é vista pela população ao seu redor: como alguém que só poderia ser uma “bruxa”, por viver isolada de formas que eles não compreendiam, embora sequer buscassem entender sobre, tanto que um dos únicos momentos em que tentam olhar de verdade para sua vivência, é quando surge um interesse pelas terras que lhe pertencem.
A violência do abandono é recorrente na trama, tendo impactos psicológicos, pela solidão e falta de acolhimento, com uma sociedade que não a auxilia em uma parte formadora da vida, a infância. Visto que a população não fornece uma rede de apoio para Kya, assim como não a concede recursos básicos, de forma que essa criança precisa aprender a sobreviver sozinha, sem ter energia elétrica, alimentos de qualidade ou até mesmo assistência médica. Para além do abandono, há também duas outras questões traumáticas que atravessam o filme: as ações violentas do pai contra a esposa e os filhos, envolta por agressões físicas e psicológicas, e a relação de Kya com Chase, que é permeada por manipulação, ameaças, violência e perseguição. A última é uma das mais visíveis em cena, já que são exibidas imagens explícitas do personagem Chase fazendo uso da violência de forma enfática contra Kya, agredindo, amedrontando, ofendendo, e não deixando ela viver a própria vida.
Por Lívia Labanca
Serviço:
Título original: Where the crawdads sing
Onde assistir: HBO Max
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificações da autora:
16 anos (A16)
Justificativa: grande quantidade de violências mostradas; não é indicado de forma alguma para ser assistido por crianças, por conter cenas explícitas.Gatilhos: violência doméstica, abandono parental, tentativa de estupro e bullying.
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Ultimato Queer Love: outro olhar sobre os “papéis de gênero”

“Ultimatum: Marry or Move On” (ou “Ultimato: Ou Casa Ou Vaza”) é um reality show de origem estadunidense que ganhou as telas na Netflix em 2022 e, desde então, tem sido um entretenimento bem parecido com a dinâmica dos demais realitys shows, como Casamento às Cegas, Brincando com Fogo e tantos outros. Ele já teve temporadas na França e nos Estados Unidos.
O teor é bastante comparável: muita bebida alcóolica, frames polêmicos e apelativos como já é de costume. No entanto, o Ultimato conta com o adicional de que os/as participantes já chegam acompanhados/as com seus/suas namorados e namoradas que são seus principais pretendentes de casamento – no qual um deles deu um “ultimato” e o desafio é sair dali com o “amor da sua vida”, seja a pessoa com quem você chegou ou não, ou solteiro/a. Após a chegada, os participantes têm a oportunidade de conversar e ter um encontro com todos os outros, para que, depois disso, cada um/a selecione o/a parceiro/a experimental.
Parece bem complexo, mas, com o passar dos episódios as regras ficam mais claras, acontece uma redivisão de quem mais se identificou, são formados outros casais e ocorre um período de “casamento experimental”, em que esses novos pares moram juntos por três semanas. No final das contas é assim: ou você sai casado/a com quem chegou – namorado/a original –, sai com uma nova pessoa que acabou de conhecer, ou sai solteiro/a.
Tendo já explicado o cenário geral, vamos à temporada “Queer Love”, que foi lançada em junho de 2023 e conta com dez participantes, de diferentes etnias e idades. Essas mulheres têm tempos de relacionamentos entre um e quatro anos e têm uma característica em comum: uma delas propôs o casamento o mais rápido possível, o “ultimato”.
Há um famoso estereótipo de que mulheres lésbicas são rápidas quando o papo é relacionamento, em que elas se apaixonam e logo em seguida já querem morar juntas, se casar e adotar três gatos e, bom, o que o reality show propõe é um pouco disso, testar com quem se tem mais afinidade em poucos encontros e decidir morar com essa pessoa por três semanas.
A produção nos dá um pequeno resumo de como são os casais originais e logo parte para as novas experiências, que são bastante complicadas. Existe uma variedade de pessoas, como mulheres latinas, negras, asiáticas e brancas, e, entre elas, as desfem – mulheres que não performam a feminilidade imposta pelos padrões – e as que performam uma feminilidade mais hegemônica. Torna-se nítido ao longo dos episódios que as participantes ocupam “papéis de gênero” diferentes, porém, fica o questionamento de: em um relacionamento lésbico isso deveria acontecer?
Explico melhor: muitas delas representam o lugar de “provedoras”, que são responsáveis por trabalhar e trazer sustento ao lar enquanto suas parceiras lavam, passam, cozinham e ficam como “esposas troféus”. No entanto, ao pensar na divisão sexual entre feminino e masculino como local de constante desigualdade é preciso recordar quais “papéis” sociais essas mulheres “deveriam” desempenhar. Para Joan Scott, no artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, o conceito de gênero deve ser visto analiticamente e não de forma natural, tendo em vista que “homem” e “mulher” são frutos de relações sociais em dado momento histórico.
Voltando aos episódios, esses atos e imposições dentro das relações – tanto originais quanto experimentais – tornam-se completamente insustentáveis, pois há mulheres que colocam o trabalho doméstico como obrigações às suas parceiras. Como por exemplo, a participante Aussie Chau, alega que “gostaria de chegar em casa do trabalho e ter tudo pronto”. Esse tipo de atitude representa exatamente a relação presente na divisão conhecida como “esfera pública e privada”, em que as mulheres não são “aptas”, naturalmente, para a esfera pública, por isso estão naturalmente inseridas no cuidado da casa e da família.
O ponto que ressalto é: ainda que em relações lésbicas, as mulheres reproduzem esses comportamentos e preconceitos, por conta de um machismo estrutural e das performatividades de padrões heteronormativos, ainda que em uma relação LGBTQIA +.
As participantes, mesmo que inconscientemente, reproduzem o comportamento parecido com o masculino hegemônico e é possível perceber isso até mesmo em falas mais agressivas e tons autoritários umas com as outras. Porém, esse tipo de ação é complexa pois não é justo julgá-las apenas por serem “escrotas” ou “folgadas”. É preciso rever toda a estrutura e divisão sexual do trabalho e, assim, conseguir visualizar melhor as questões por trás desses atos.
Por Lia de Lima Junqueira
Serviço:
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 16 anos (A16) conteúdo sexual, linguagem imprópria
Minha classificação:
Contém violência verbal e consumo de bebidas alcoólicas.
Contém representações positivas de gênero e sexualidade.
