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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Cerceadas pelo medo: o assédio determina por onde eu passo

Cartaz no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (ICHS – UFOP). Foto: Lia Junqueira. Era manhã de uma quarta-feira e eu estava indo para o ponto de ônibus quando fui abordada pelo seguinte aviso: “Não corre que eu vou te pegar!”. Essa frase me paralisou e, quando olhei, era um homem alto, em cima de uma bicicleta mexendo em sua mochila. Antes que pudesse raciocinar, corri desesperadamente e gritei por ajuda, quando, outro homem que passava pela rua disse: “Vem comigo!” Eu fui.
Não pensei nem por uma fração de segundo – que mais pareceram horas –, mas concluí que precisava sair dali o mais depressa possível, não importava com quem e como. Corri alguns quilômetros até chegar em terra firme, pois o que aconteceu tinha sensação de afogamento. Ficou tudo bem no final das contas, mas nunca mais fiz esse caminho.
Será que ficou tudo bem mesmo? Já que nunca mais consegui fazer esse caminho, fiquei com dores musculares a semana inteira por conta da tensão e receosa de andar sozinha por qualquer rua daquele bairro. O medo me paralisou e me privou de andar livremente. Não foi só comigo, uma colega acabou de passar por isso, agora em 2023.
Ela estava voltando do almoço, plena tarde em Mariana, quando viu um homem encostado num barranco, sem camisa. Sem óculos, ela não identificou os movimentos que aquele cara estava fazendo. Quando se deu conta, viu que ele estava se masturbando e, como se fosse uma mensagem instantânea de seu cérebro, correu para longe dali. Era o caminho de todos os dias para sua casa, o caminho mais rápido, que ela nunca mais fez.
Meu caso foi em 2019, o dela, no mês passado, junho de 2023. Os casos aconteceram em cidades e estados diferentes, o primeiro na cidade do Rio de Janeiro, o segundo em Mariana. Apesar de termos muitas diferenças, de idade, de estado, de situação, temos também aspectos em comum. O que esses casos fizeram conosco foi nos privar de utilizar um espaço público por causa do medo. Medo de ser surpreendida novamente pelo mesmo assediador, medo de outros, medo desse homem saber onde eu moro e entrar. É como se o medo pautasse tudo que fizéssemos a partir dali.
A sensação de desalento, por exemplo, é um ponto que nos liga diretamente. É como se nossos corpos e nossas existências pudessem ser invadidas por qualquer um, a qualquer momento. Eu tinha 15 anos nessa época e estava indo para a escola, pelo caminho mais próximo. Era óbvio que eu já andava depressa e não ficava “dando bobeira”, afinal eu sabia que aconteciam assaltos por ali, mas esse episódio me mostrou que não importava o quão precavida eu era, não era o bastante – nunca é.
O caso de assédio em Mariana é um pouco diferente, pois, como ressalta a estudante, “é um lugar tranquilo, que estamos acostumadas a andar sem medo, voltar de rolê e realizar nossas atividades”. E, por isso, não imaginava que poderia acontecer nesse ambiente tão familiar, afinal, era seu caminho para casa. Infelizmente ela não foi a única, e nem será a última, a sofrer esse tipo de abuso em um caminho comumente utilizado por estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, que tem colecionado uma série de acontecimentos como esse aos arredores de seus campi.
Na imagem do início desse texto, a frase em destaque é: “ATENÇÃO! Aviso importante! Não passe sozinho pelo caminho das Moitas.”. O caminho é o que liga o campus ICHS até a moradia estudantil, popularmente chamada de “Moitas”. Mas, para quem é esse alerta? Ele se diz universal, direcionado a todos aqueles que realizam esse caminho, mas tem um recorte muito específico: as mulheres que passam por ali. E esse é um dos pontos principais que liga meu relato com o da UFOP: somos avisadas, impedidas e aconselhadas por pessoas próximas a não realizar mais os mesmos caminhos, aqueles em que sofremos assédio.
Mas quem deveria parar de frequentar um ambiente público sou eu, ela e tantas outras mulheres ou alguma medida de segurança e acolhimento das vítimas deveria ser tomada? Nos diversos casos de Mariana, foram pessoas ligadas à universidade que relataram esses abusos e, ainda sim, nada mudou. Aliás, mudou: foi colocado um cartaz dizendo para não fazer o caminho sozinha, ou seja, nos privando de exercer um direito básico de ir e vir. Importante lembrar que quando nossa única motivação para estar inserida em uma cidade é a Universidade em que estamos, é dever dela nos garantir segurança dentro e fora dos portões.
Em “Mulheres em viagens: limiar entre a experiência de liberdade ao medo da violência de gênero”, Jaqueline Lemos realiza uma reflexão sobre essa garantia da mobilidade, relacionando algumas escritoras viajantes famosas como Nellie Bly, Nísia Floresta e Soledad Acosta de Samper com os perigos de ser uma mulher trafegando sozinha pelo mundo. Um trecho que gostaria de destacar é:
“O mundo é perigoso para mulheres viajantes? Ou seria perigoso para as mulheres em qualquer situação, inclusive dentro de casa ao lado de pessoas conhecidas?”
Estar no mundo sendo mulher não é fácil, temos medo o tempo todo – às vezes mais intensamente, após passar por episódios como esses. Esse medo paralisa, dói e nos cerceia de atividades tão comuns como voltar para casa por aquele caminho cotidiano. No entanto, precisamos de atitudes das universidades, das prefeituras e de qualquer outra instância possível: não dá mais para responder com um cartaz, não dá mais para mudar um caminho, é preciso ação.
Por Lia Junqueira
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Medo no ambiente universitário – machismo e assédio

“A minha sala de aula se tornou uma prisão. As condenadas somos nós, mulheres. Alta, baixa, magra, gorda, o machismo não escolhe biotipo. Meu professor, que deveria nos incentivar a progredir na academia, nos constrange com comentários assediadores e machistas.
Nós continuamos presas e sem voz, pois dependemos dele para passar. Temos nossas privacidades invadidas e somos coagidas com seus assédios descarados, dentro e fora da sala de aula. Gostaria que, algum dia, as denúncias contra esses professores fossem eficientes. E que nós não fossemos reprovadas por denunciá-los.
Continuo estudando na mesma universidade, sentindo medo da reprovação e, mais ainda, medo dos contínuos assédios de quem está ali para ensinar.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
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Abusos na universidade – quando a violência entra na sala de aula

“Eu ouvia diversas amigas falando sobre os assédios de determinado professor. Até que aconteceu comigo. Ele me assediou sexualmente. Me encochou, não consigo contar os detalhes. Me sinto vulnerável, apesar de não ceder aos assédios. Tenho muito medo dele.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
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Palavra de mulher – quando se recusam a nos ouvir

“Durante o período letivo fui percebendo que os comentários dos alunos eram mais discutidos e valorizados que os das alunas. O professor interrompia as alunas nas discussões em sala de aula. Notei que, por ele interrompê-las, deu a liberdade para que os outros alunos fizessem isso também.
A partir do momento que observei esses silenciamentos, reduzi as minhas falas ao máximo. Quando essas coisas acontecem diante dos nossos olhos é muito triste, porque ao ver uma mulher sofrer todas nós sofremos juntas também.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em maio de 2019.
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Assédio em sala de aula – abuso de autoridade e intimidação

“Estava em uma aula no 8º ou 9º período da faculdade. A turma era pequena, com, no máximo, 20 estudantes. O professor pediu para que nos dividíssemos em grupos e formássemos um círculo. Alguns dos meus colegas chamaram o professor para tirar uma dúvida.
Ele veio e ficou atrás de mim. Colocou as mãos nos meus ombros e começou a fazer algo similar a uma massagem. Fiquei congelada, paralisada. Só queria que ele tirasse as mãos de mim. Se falasse ou fizesse algo, as pessoas diriam que não era nada demais, que era “coisa de amigo”.
Com certeza não era amizade. Havia uma relação de hierarquia muito clara nessa “massagem”. Hoje, eu penso em alternativas do que poderia ter feito.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em novembro de 2019.
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Eu ainda me lembro – uma história sobre assédio no carnaval

“Depois que entrei para a Universidade, em 2012, comecei a perceber coisas que não percebia, coisas que talvez não enxergasse como assédio ou abuso.
Em 2013 passei o primeiro carnaval em Ouro Preto. Era outra cidade, outro clima, muitas festas, não era nada comparado ao que eu estava acostumada.
Eu nunca tinha ido para um carnaval tão permissivo. Fiquei deslumbrada com os blocos, a sensação libertadora de participar daquela festa pela primeira vez, as cores e a música.
Estava com minhas amigas quando um grupo de garotos chegou. Um deles estava ficando com uma delas. Ele a beijou. Eu olhei. Eu ainda tinha um certo pudor.
Um amigo desse garoto me pediu um beijo. Ele ficou insistindo. Eu disse não.
Até então eu não via ameaça. “É só um carnaval”, pensei. “Essas coisas acontecem.” No entanto, a violência veio rápido.
Ele me segurou pelo pescoço com muita força. De um jeito que eu não conseguia movimentar a cabeça. Me prendeu. Me beijou. Me beijou à força. Depois mordeu meus lábios e sorriu:
“Pronto.”
Pronto, eu tenho direito sobre seu corpo.
Pronto, amanhã você nem vai se lembrar disso.
Mas eu me lembrei no outro dia, e no outro, e depois no outro. Eu me lembro disso até hoje.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
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Perseguição na universidade – medo e impunidade

“Na Ufop, já fui vítima de diversos tipos de violência, muitas vezes, sem saber que aquelas situações que vivenciei eram violentas.
No meu primeiro dia de aula, me lembro de ter sofrido assédio, que perdurou durante um mês.
Tudo começou quando cheguei na sala de aula após a quarta chamada. Eu estava bem perdida e com diversas matérias que precisava recuperar. Nisso, um aluno se aproximou de mim e começou a conversar sobre assuntos aleatórios. Ele se mostrou muito interessado em me ajudar. Aceitei a ajuda.
Os dias foram passando e esse aluno começou a me perseguir. Eu sempre arrumava uma desculpa para fugir dos assuntos inconvenientes que ele vinha conversar comigo. Não adiantava muito. Eu, já com medo, mudava a minha rotina na Ufop: chegava sempre no horário exato da aula e ia embora uns 10 minutos antes de a aula terminar ou sempre saía junto com alguma colega. Mas nunca sozinha.
Minha vida começou a virar um inferno.
Então, um dia em que estava com muita raiva, falei para esse aluno parar de conversar comigo. Ele se estressou e me chamou de louca, mas nunca mais se aproximou ou me disse mais nada. Contudo, eu ainda ficava com medo de andar pela Ufop.
Até hoje tenho medo.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
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Assédio nas moradias estudantis – negligência e omissão

“O meu relato começa com o medo de ir para uma casa mista nas moradias estudantis da Ufop, só que com a breve experiência de república que eu e minha irmã tivemos, a gente achou que seria mais interessante a convivência, as trocas e experiências. Então, quando fomos selecionadas para as moradias, escolhemos um apartamento misto.
Inicialmente a recepção de todos foi tranquila, não teve nenhuma queixa. Mas no semestre seguinte chegou um novo morador, que havia trocado de vaga de uma casa masculina. Quando ele chegou, um outro residente comentou em tom de brincadeira para tomar cuidado com esse novato, porque o sujeito tinha mudado para uma casa mista por conta das mulheres.
Mesmo com a brincadeira, evitei julgá-lo antes de conhecer. Na mudança, percebemos que esse novo morador era uma pessoa extremamente tímida, com dificuldade de interagir, de se comunicar socialmente. E por isso trocamos poucas palavras.
Com o passar do tempo fui percebendo olhares. É difícil falar em olhares, é difícil de explicar, porque quando a gente é mulher, a gente se habitua àquele olhar desde sempre. Sabemos exatamente configurar como é esse olhar. Um olhar, talvez, de superioridade.
Comentei com minha irmã o que sentia, e ela disse que sentia o mesmo.
Cheguei a me culpar por pensar isso. Pensava que podia estar interpretando mal a timidez dele. Achei que estaria criando essa situação, consequentemente me mantive calada por um tempo. E observando.
Mas a partir de um momento a situação começou a me incomodar demais. Quando eu estava de short em casa, de pijama, por exemplo, sentia que ele olhava, que rondava. Percebia que ele só procurava conversar com mulheres, e das figuras masculinas da casa ele até se distanciava.
Resolvi marcar uma reunião com os moradores para expor meu incômodo, até mesmo para saber se seria um mal entendido ou não, apesar de sentir o contrário.
No dia da conversa ele ficou calado. Expus a situação e esperei um pronunciamento, mas não houve. Assim, pedi que evitasse contato. Ele concordou. Ou pelo menos pareceu concordar.
No dia após a reunião recebi uma mensagem desse morador de madrugada, por Whatsapp, perguntando por que eu o expus. Mas não era só isso. Ele queria saber o motivo de não tê-lo aceitado no Facebook. Dizia que só queria ter uma amizade porque eu era muito bonita. E tudo escrito de uma forma meio rude.
A pessoa tímida, que quase não conversava, quase não se comunicava, se mostrou na mensagem uma outra figura. Tirei print, e respondi que a forma como ele usou, a postura, foi não foi a maneira certa de começar uma amizade.
Comentei com minha irmã que na reunião ele não disse nada, mas esperou uma situação que tinha só nós dois para mandar mensagem. Depois de tudo, ainda recebi um texto-convite para que saíssemos para beber e conversar.
Num instinto, minha irmã bateu no quarto dele e pediu que parasse de mandar mensagens para mim, que nossas conversas fossem em locais de convivência da moradia.
Enquanto essa situação acontecia comigo, outras meninas da casa se atentaram. Um dia almoçando no RU com outro morador, ele comentou que uma dessas moradoras estava com “uns pernões naquele short”.
Novamente a dualidade de uma pessoa que não se expressa, mas que naquele momento se expressou como se deixasse escapar o que sente de verdade.
Esse morador que ouviu o comentário achou que devia contar para a menina, que divide quarto comigo. Todas ficamos incomodadas. Mas era só o começo.
Depois que ele parou de mandar mensagem para mim, começou a mandar mensagem para ela. No mesmo tom, “te acho muito bonita”, “quero ser seu amigo”. Uma abordagem errada. Achamos que devíamos convocar a universidade para resolver, porque já tínhamos falado em reunião interna.
Nos reunimos duas vezes com a psicóloga e assistente social. Elas inclusive o conheciam e sabiam dessa personalidade dele, do jeito retraído. Nas reuniões, senti um desamparo.
Na tentativa de tentar ouvir os dois lados, que acho super importante, senti um silenciamento. Me senti silenciada. Fui muito clara a respeito dos olhares e atitudes que me incomodavam, mas no trabalho da Ufop de reinserir ou de garantir os direitos de uma pessoa, negligenciou as atitudes, ou uma análise mais profunda, da situação. Ninguém ia falar que uma pessoa está olhando para a outra, gerar essa situação, por nada.
Realmente estava acontecendo algo.
E em uma dessas reuniões ele justificou, falou que poderia ter acontecido algumas situações, mas é porque existem dois homens, “o homem biológico e o homem racional”.
Na reunião, as representantes da universidade tentaram minimizar o que eu vivi, falando que azaração, ou desejo, numa casa mista pode acontecer. Eu nunca disse que isso não poderia acontecer, mas que naquele caso as coisas estavam me deixando desconfortável. Eu já tinha dito não, já tinha pedido para ele parar.
Pedimos à universidade a troca do morador, mas deixaram a cargo dele. Ele não quis sair, alegando que a história iria se espalhar.
Depois disso, houve momentos em que eu não tomava banho à noite para não passar de toalha em frente ao quarto dele. Não escovava os dentes muito tarde, e quando ia, era acompanhada.
Era insuportável acordar cedo para a aula e enfrentar aqueles olhares fixos em cada movimento meu enquanto tomava café. Falei essas coisas com a universidade, e ele falou que era um exagero. E não, não é um exagero.
A universidade não nos prepara para esses desafios. Quando eu passei por todo esse processo tinha 17 anos, nunca tinha morado fora de casa.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em junho de 2019.
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Em uma república de Ouro Preto – sobre abuso e descrença

Imagem por Emily Soares “Meu caso aconteceu há cerca de três anos. Eu morava em uma república em Ouro Preto e estava em uma festa em outra república com meus amigos, trocando ideia e bebendo. Em algum momento da festa, fiquei cansada e quis dormir; fui para um dos quartos da casa, vi meu amigo conversando com outras pessoas e pedi para descansar ali mesmo.
Como havia bebido muita cerveja, senti vontade de ir ao banheiro. Me lembro perfeitamente da cena em que eu estava sentada fazendo xixi e ele na minha frente, um pouco distante. Ele tirou o pênis da calça e começou a se acariciar. Não entendi o que estava acontecendo. Era uma pessoa em quem eu confiava, de quem gostava e achava que poderia contar para qualquer coisa… Eu levantei e ele tentou me beijar à força. Falei que éramos amigos e não iria rolar nada. Ainda assim, ele me segurou por trás e beijou minha nuca. Fui embora da festa e no caminho encontrei uma amiga que percebeu o quão abatida e nervosa eu estava.
No dia seguinte, perguntei pra ele o que havia acontecido e ele tentou justificar, me acusando de ter ido pra cima dele, abrindo a blusa e mostrando o sutiã. Ele ainda disse: “Eu também não entendi o que estava acontecendo”.
Não imaginava que ele era capaz de fazer algo assim, por ser sempre educado, tratando todo mundo bem. Mesmo depois de três anos minha ficha às vezes não cai e me pego duvidando do que aconteceu. Isso afetou as minhas amizades e como me relaciono com novas pessoas, principalmente homens. Minha autoestima caiu muito.
Pesou muito o jogo psicológico que ele fez comigo, pensei várias vezes que tudo poderia ser coisa da minha cabeça. Ainda assim, não tinha por que eu ter criado algo tão bizarro. Hoje, já não sinto culpa pelo que aconteceu, mas desconfio muito de homens e sempre me policio quando estou bebendo.
Teve gente que o defendeu. Duvidaram de mim. Perguntaram como eu estava vestida e se tinha bebido muito. Nunca mais voltei nessa república e me afastei de todas as pessoas que considerava minhas amigas e que preferiram a presença dele a acreditar no meu relato.
Descobri, um ano depois, que ele assediou outra mulher. Só tive coragem de registrar o boletim de ocorrência há poucos meses.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em agosto de 2019.
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Assédio no intercâmbio – abuso de poder e silenciamento

Imagem por Hannah Baudson “Há alguns anos, fui aprovada para mobilidade acadêmica pela Ufop. Depois de seguir todas as orientações para a viagem, estabeleci contato com o responsável pelos alunos estrangeiros na universidade de destino. Quando cheguei em meu novo país, esse homem – que fazia parte da área de Assuntos Internacionais de lá – me ajudou a encontrar uma casa para morar, me levou para jantar com os demais alunos intercambistas e também nos levou para passeios. A princípio, ele parecia ser uma pessoa solícita, cumprindo seu dever de integrar os alunos estrangeiros a sua nova universidade. Entretanto, essa relação amigável foi mudando aos poucos. Ele começou a me ligar sempre, sendo que poderíamos tratar de assuntos ligados a minha educação por e-mail, passou a me convidar para sair à noite e a fazer comentários indevidos pelo whatsapp. No Dia dos Namorados foi a gota d’água! Ele me ligou durante o dia todo e eu, já muito cansada e agoniada com a situação, pedi que parasse e lhe disse para conversar comigo apenas por e-mail, quando surgisse alguma demanda relacionada ao meu intercâmbio.
Durante a minha estadia, conheci uma menina que estava fazendo um intercâmbio profissional como estagiária dele. Ela me relatou que também era assediada por ele, e que esse homem utilizava as redes sociais da própria instituição para assediar outras alunas intercambistas. Essa garota, infelizmente, acabou adiantando a viagem de retorno a seu país por não aguentar mais passar por isso. Além dela, também conheci meninas nativas que já haviam passado pelo mesmo. Ele se oferecia para ajudar com estágios, com o processo de intercâmbio (porque tinha o poder para isso) e acreditava que, assim, tinha o direito de assediá-las. Diante de todas essas situações quis denunciá-lo. Mas estava vivendo longe de casa e da minha família, num país machista com alto índice de violência contra a mulher e feminicídio. Além disso, me confidenciaram que ele possuía tal cargo porque vinha de uma família “importante”, e ele mesmo já havia me contado que tinha policiais na família. Pela minha vida, tive medo de denunciá-lo.
Apesar disso, meu desempenho acadêmico foi excelente. Tirei boas notas e fui convidada para continuar na universidade por mais um semestre, para seguir levando a cabo um projeto que criei por lá. Diante dessa oportunidade, precisei me comunicar com o assediador novamente, para saber o processo de renovação da parceria e do meu visto. E, de novo, ele abusou do poder concedido pelo seu cargo para me assediar. Dessa vez, chegou a me tocar e tentou me beijar. Já inconformada com a situação, disse que iria denunciá-lo, porque não era certo o que ele fazia comigo e com outras garotas. Como consequência, ele não falou mais comigo, até o dia em que solicitei o certificado com minhas notas para poder enviar à Ufop. Ele me respondeu mal, dizendo que estava de férias e que não poderia me ajudar com isso. Foi quando senti uma enorme raiva, nojo e desespero com toda a situação. E por essa e outras questões, decidi não continuar por mais um semestre e retornei ao Brasil.
Quando cheguei aqui, achei que seria mais seguro denunciá-lo. Mas quando fui informada que a faculdade onde havia realizado o intercâmbio estava abrindo um mestrado justamente na linha em que eu sonhava estudar, pensei comigo mesma: “Quais as chances de me aceitarem se eu fizer essa denúncia? E se ela alcançar grandes proporções? E se não alcançar? Será mesmo que tomarão alguma atitude eficaz? Porque se não tomassem, adivinhem quem seria o responsável pelo meu processo de ida?” De novo, me calei.
Felizmente, há alguns meses uma amiga me contou que esse homem já não trabalha mais na secretaria de Assuntos Internacionais. E uma parte de mim ficou tremendamente aliviada. Sempre imaginava se ele continuava assediando as alunas, estragando o que deveria ser uma experiência acadêmica incrível.
Apenas hoje me dou conta de tudo o que passei, da gravidade e também da falta de medidas para que situações como essa não ocorram. Durante o tempo em que estive fora, a Ufop não me enviou nenhum e-mail perguntando como estava sendo o processo. Ao regressar, tive que preencher um relatório sobre minha experiência e nenhuma pergunta contemplava a questão de assédios e abusos de autoridade. Não existia nenhum canal para denúncia anônima, nenhuma escuta ativa para um problema que sabemos que é comum. Participei de uma roda de discussão durante o Encontro dos Saberes e quis tocar no assunto, mas não houve tempo pois o responsável tinha que sair.
Compartilho essa história porque me pergunto quantas alunas já passaram pelo mesmo. E quero dizer a elas que não se responsabilizem por isso, pois a universidade é um espaço onde se supõe que deveríamos estar seguras, preocupadas apenas em enriquecer nosso conhecimento. Eu, em meio a tudo, ganhei marcas que sei que doerão para sempre, acompanhadas de um constante sentimento de culpa. Poder compartilhar esse relato, mesmo que online, é uma maneira de me sentir mais forte diante de todos os desafios que encontramos na hora de denunciar a violência contra a mulher e de gênero, especialmente em casos de assédio e stalking.”
Relato anônimo originalmente publicado na página Ariadnes em outubro de 2019.
