A que casais o “felizes para sempre” é reservado dentro e fora das produções audiovisuais?

Na foto, em 1° plano, há as protagonistas, Abigail e Tallie, da esquerda para a direita. Atrás delas, estão seus respectivos maridos, com fisionomias de que estão olhando para o horizonte.
Créditos: cena do filme

Com 98 minutos de duração, o longa The World to Come, lançado no festival de Veneza em 2020 e dirigido por Mona Fastvold, retrata a história de amor entre Abigail (Katherine Waterston) e Tallie (Vanessa Kirby). Ambas são casadas, respectivamente com Dyer (Casey Affleck) e Finney (Christopher Abbott), homens que as viam como objetos de dominação, coerção e máquinas produtoras de herdeiros. 

A trama se passa no contexto de 1856, época em que muitos remédios e tratamentos de doenças não tinham sido desenvolvidos. Diante desse cenário, Abigail perde sua filha Nellie – fruto do casamento com Dyer – por uma enfermidade, e a partir dali, vive imersa em profundo luto e tristeza. Algum tempo depois, Tallie e seu marido se mudam para a região onde o casal mora, estreitam laços e constroem uma relação, à primeira vista, de amizade. 

O enredo enfatiza como a vida de Abigail volta a ter cor e felicidade após a aproximação de Tallie, que, em uma visita à residência de Abigail, desperta nela um olhar cuidadoso e repleto de paixão. Abigail, nessa visita, repara os cabelos ruivos e chamativos de Tallie e sua pele em “tons de rosa e violeta”. Com o passar do tempo, as visitas ficaram mais frequentes e os sentimentos, de ambas as partes, mais calorosos.

Em um desses encontros, Tallie confidencia à Abigail que ela é um ponto de apoio e conforto em meio às maldades que sofre com o marido e acrescenta, ainda, que acredita ser vítima do ódio de Finney por não ter lhe dado filhos. Aqui, vale citar o argumento da pesquisadora Judith Butler, que discorre, em Problemas de Gênero, sobre a “instituição da maternidade compulsória para as mulheres” e como ela é enraizada na norma patriarcal de forma que pareça natural aos corpos com vulva. Nas palavras da autora: “A lei claramente paterna que sanciona e exige que o corpo feminino seja primariamente caracterizado nos termos de sua função reprodutora está inscrita neste corpo como a lei de sua necessidade natural” (Butler, 2018, p. 128). Isto é, o sistema patriarcal precisa que as mulheres queiram reproduzir e gerar herdeiros dos homens e, para isso, afirmar a predisposição feminina para esta função é uma das alternativas mais utilizadas. 

Ainda, é interessante trazer a reflexão de Suane Felippe Soares, que, na tese Um estudo sobre a condição lésbica nas periferias da cidade do Rio de Janeiro, defende a maternidade como instrumento de controle das mulheres dentro da estrutura patriarcal, acrescentando a ideia de que “a produção de novos seres humanos é sempre muito importante para a formação das hierarquias neoliberais” (Soares, 2017, p. 217). 

Mas, voltando à produção cinematográfica, as protagonistas, em determinado momento, se declaram apaixonadas e reforçam o sonho de viverem juntas, como um casal. Com o passar dos dias, Abigail estranhou a menor quantidade de visitas de sua amada, quando decidiu ir a sua casa para ver se descobria o motivo. Chegando perto da residência, deparou-se com a cena em que Finney gritava com Tallie que “a mulher não deve ter domínio sobre o próprio corpo, mas sim o marido”.

Abigail, atordoada com o que havia escutado, fugiu do terreno da casa e, algumas semanas depois, descobriu que Tallie havia se mudado para o norte da região com seu marido. Ela recebe uma carta de Tallie pedindo desculpas por não ter conseguido se despedir e diz o quanto está infeliz naquele lugar. Além disso, ela revela que, todos os dias, Finney lê em voz alta as “instruções para as esposas do Antigo Testamento”, como forma de tortura. 

Abigail manda uma carta de volta à Tallie, dizendo o quanto a ama e sente sua falta, mas quem lê é Finney, que descobre o romance entre as duas. Dias depois, Abigail, preocupada, decide visitar Tallie. No caminho, ela recita o que pretende falar à amada quando encontrá-la: “Quero te dizer que quero estar com você. Tudo que sinto de incrível, eu escolhi sentir. E sabe qual memória eu mais valorizo? A de você virando para mim, com aquele sorriso que você me deu quando percebeu que era amada por mim. Não tenho como saber tudo o que está por vir, mas sei que toda a confiança, coragem e cuidado que compartilhamos, brilhará sobre nós e nos protegerá. Você é a minha alegria.”

Paralela às frases de amor ditas por Abigail, é mostrada a cena de Finney matando Tallie. Como tentativa (bem sucedida, inclusive) de sensibilizar o espectador, a fala de Abigail de que não quer perdê-la nunca narra a cena do assassinato de Tallie. Quando Abigail, finalmente, chega ao destino, Finney mente dizendo que Tallie morreu de difteria. Abigail deita ao lado do corpo dela, frio e sem vida, e chora copiosamente, relembrando os momentos bons que passaram juntas, agora presentes apenas em sua memória.

Na última cena do filme, a imagem de Tallie aparece dizendo a Abigail para ela se lembrar que a imaginação pode ser sempre cultivada, e que, em pensamentos, elas poderiam estar juntas. O longa termina com um enquadramento fechado no rosto das personagens, que se olham com expressões de amor e ternura.  

Diante desse cenário, penso sobre onde as lésbicas têm um “final feliz” garantido. Na realidade, não temos direito nem a existir com segurança, quem dirá a sermos felizes. E na ficção, em muitos filmes sáficos, como The World to Come, claramente também não temos. Neles (e trago a Maldição da Mansão Bly e Azul é a Cor mais Quente como exemplos complementares, em que no primeiro viramos um monstro do lago, e no segundo perdemos o “amor da nossa vida” porque o trocamos por um homem), é transmitida a mensagem de que ultrapassar a regra heteronormativa implica em graves consequências, e que esperar um “felizes para sempre” romantizado – como o dos casais heterossexuais – é pedir demais. 

Por Maria Clara Soares

Serviço

Título original: The World to Come

Onde assistir: Prime Video

Classificação indicativa: 14 anos (A14)

Classificação da autora: 14 anos (A14)

Justificativa: A narrativa é complexa de ser compreendida, com cenas de preconceito que podem causar gatilhos aos espectadores

Gênero: Drama e romance

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