Quando o jornalismo encontra um modo de caçar likes

Nos manuais do bom jornalismo, o perfil é considerado um gênero nobre. Ao flertar com a literatura, a construção de um bom perfil exige a simbiose entre um grande personagem — não necessariamente famoso, mas que tenha uma boa história para contar — e um olhar observador aguçado. Lá nos primeiros períodos da formação jornalística, aprendemos com os teóricos Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari que, diante do perfilado, o repórter adota geralmente duas posturas: ou se mantém a uma distância asséptica, ouvindo o protagonista, ou mergulha na partilha de um determinado momento a fim de traduzir essa experiência para quem lê.

A primeira abordagem resulta na entrevista clássica que, se nos anos 80 já podia ser feita por telefone, hoje se resolve com um e-mail ou uma troca de áudios no WhatsApp. Mas, honestamente, os grandes perfis, que capturam a essência humana e olham para além dos fatos, são aqueles em que o jornalista se envolve, sente e habita o mundo vivido pelo personagem. Isso não significa invalidar a precisão dos textos mais formais e distantes, mas reconhecer que, quando a subjetividade e a empatia entram nessa equação, a narrativa ganha contornos muito mais profundos e honestos.

E é justamente a falta desse tato e dessa disposição para partilhar experiências que me incomodou no perfil da “bicha medonha”. Publicado pela revista Piauí, o texto de Tiago Coelho é um relato frio e engraçadinho de uma trajetória marcada por violências. João Vitor Uliana é, inegavelmente, um personagem fascinante, cuja história é atravessada por camadas complexas e contínuas negações de existência, algo muito comum a crianças queer. Reduzir essa densidade a uma cartilha perfilesca de “início-meio-fim”, empacotada com a moral de superação e ressignificação, é um modo muito rasteiro de narrar vivências dissidentes. É uma forma de lavar as mãos diante de toda uma vida em que os nãos se impuseram de forma categórica. O que resta é apenas o olhar de um observador externo que espera o exótico, o excêntrico, o estranho emergir para se divertir com o espetáculo.

Print de um perfil do site Piauí com a manchete ‘EU SOU A BICHA MEDONHA’, acompanhada de uma foto de um jovem sorrindo e apontando para baixo, com um fundo iluminado em roxo e azul, enquanto segura uma lata de bebida.
Perfil veiculado na página da revista Piauí, em 06 de fevereiro de 2026

Dividido em dez partes, da infância à idade adulta, o texto se rende ao fluxo preguiçoso do clichê coming of age, impondo uma linearidade normativa a uma vida que não obedece a essa regra. A infância opressora, a adolescência roubada, a juventude vexatória e, por fim, a “volta por cima”, exaltando a lógica cristã de “faça uma limonada a partir dos limões”, soam como se estivéssemos recebendo um recado neoliberal conformista: tá vendo? É só ser resiliente e acreditar que as coisas boas virão!

O texto destaca, em uma série de adjetivos pesados, que crianças que não se encaixam nos padrões de gênero e sexualidade passam a ser hostilizadas e rotuladas. Mas que violência sistêmica é essa que o narrador, encoberto pelo manto da isenção, apenas cita, sem aprofundar, pressupondo que o leitor tenha uma ideia de toda a sua dimensão? Um perfil denso não pode se dar ao luxo de ter a superficialidade de um tweet. Nesse contexto, “Lady Gaga, Orkut, Glee, Gossip Girl, calça skinny” não são apenas adereços estéticos que compõem o estereótipo de um gay dos anos 2000, mas dispositivos de sobrevivência. Mas por que isso é tão significativo para esses indivíduos? São detalhes aos quais o perfilador precisa estar atento, precisa buscar… afinal, a base do bom jornalismo não é a curiosidade? Ou ela ficou apenas para os aspectos biológicos que acontecem no cérebro adolescente e que explicam detalhadamente uma excitação sexual, ou, para usar a grafia do autor, quando o “$@&” ficou “#%&*”?

Toda uma vivência permeada de violências e interrupções pseudo-engraçadinhas serve para acolher um clímax memístico, quando João Vitor se torna conhecido na internet. O texto é conduzido em um tom de fofoca de programa televisivo de baixo orçamento. Para todos nós que, um dia, fomos uma espécie de “bicha medonha” na vida de alguém, faltou a sensibilidade para lidar com a exposição de um personagem tão denso e cheio de nuances. O bom jornalismo não deve operar como uma máquina de caçar likes, nem se rebaixar a alimentar a curiosidade mórbida alheia. O jornalismo de verdade é aquele capaz de olhar para um sujeito como João Vitor e enxergá-lo além do meme, além do rótulo “criança viada”, além da superação mastigada de uma dor transformada em entretenimento de internet.

por Flávio Reis

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