Lançada em novembro de 2025, All Her Fault é uma minissérie, baseada em livro homônimo, disponível na Amazon Prime Video. A história mostra a vida da família Irvine ao ter seu filho pequeno, Milo, sequestrado; a partir desse acontecimento, a trama segue Marissa Irvine (Sarah Snook) procurando o menino e, principalmente, lidando com o julgamento das pessoas ao seu redor.

A partir do momento em que a criança desaparece, Marissa é colocada aos olhos da sociedade como culpada; entre julgamentos e acusações, a matriarca da família se vê pressionada pela população e pela mídia, tendo sua vida exposta. No decorrer da minissérie, percebe-se que a trama se utiliza do sequestro como um acontecimento intermediário: o foco principal é expor e questionar o papel que a sociedade espera de mulheres, em especial ao se tornarem mães.
Integrantes de uma família de classe alta, os Irvine fazem parte da elite socioeconômica. Assim como eles, as pessoas ao seu redor também têm altos padrões de vida, proporcionando aos filhos a experiência de estudarem em uma escola particular de elevada classe social. Nesse ambiente, as pessoas acreditam e operam de acordo com visões patriarcais de família: o pai deve trabalhar para sustentá-los, enquanto a mãe é responsável por criar e educar as crianças. É nesse mundo que Milo, de 5 anos, é sequestrado. Marissa o deixa brincar na casa de Jacob, filho de Jenny (Dakota Fanning); ao buscá-lo, descobre que foi enganada e seu filho nunca esteve com aquela família.
No decorrer da trama, Marissa se aproxima da personagem interpretada por Dakota Fanning, ambas conectadas pelas pressões da sociedade: enquanto a protagonista da família Irvine tem sua maternidade questionada pelo sequestro do filho, Jenny é julgada por ter contratado a principal suspeita do caso, Carrie, como babá. Juntas, as mulheres enfrentam não só os julgamentos da mídia, mas também familiares, que perpetuam os estereótipos de família tradicional.
Partindo dessas ideias, é importante analisar como as mães da obra ficcional se conectam com a realidade. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais – 2023, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 2,5 milhões de mulheres não trabalhavam em 2022 para cuidar dos afazeres domésticos e parentes: cenário que também é pano de fundo para a trajetória das personagens femininas de All Her Fault. É importante ressaltar que esses dados não correspondem diretamente à vida das protagonistas, tendo em vista a posição de privilégio social e econômico que ocupam; porém, a minissérie mostra mulheres que, mesmo no topo da pirâmide econômica e social, também sofrem com a pressão de assumir o papel de cuidadora nas tentativas de contrapor as expectativas da sociedade. Mesmo sendo exemplos de carreiras bem sucedidas e mães dedicadas, são alvos de diversos questionamentos de seus ciclos sociais sobre as escolhas de se dedicarem a outra atividade a não ser os filhos, sendo colocadas como negligentes.
Ao se tornarem mães, mulheres sofrem com a pressão de uma sociedade que perpetua papéis de gênero tradicionais – uma estrutura onde o homem possui o poder concentrado em si mesmo enquanto a mulher deve se tornar cuidadora das crianças e dos afazeres domésticos. Perspectivas como essas são baseadas em versões estereotipadas do que é ser mulher e de família, mesmo com estudos que apontam gênero como uma construção social, independente de sexo. De acordo com a filósofa Judith Butler em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, “[…] a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem o resultado causal do sexo nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo”.
Muito além de um thriller que busca culpados, a trama é um retrato da vida de uma parcela de mulheres, integrantes de um ciclo social majoritariamente branco, hétero, cis e de classe alta; apesar de ser um recorte da sociedade, o problema ressoa em todas as mulheres que, constantemente, são colocadas em papéis de cuidado — até onde o julgamento e as expectativas da sociedade prejudicam sua vida? Como os pais se ausentam da criação dos filhos, muitas vezes até dificultando a rotina familiar? E, principalmente, até que ponto as mulheres aguentam viver em rotinas exaustivas, sendo cobradas e julgadas a todo instante?
Serviço:
Título Original: All Her Fault
Onde Assistir: Amazon Prime Video
Duração: 8 episódios
Gênero: Suspense psicológico e mistério
Classificação Indicativa: 16 anos
Nossa Classificação: 16 anos
Justificativa: Violência e temas sensíveis
Por Maria Vital
