O Brasil é o “país do futebol”, mas futebol não é “coisa de mulher”

A imagem captura um momento de pura euforia e triunfo do time feminino do Fortaleza Esporte Clube. No centro do gramado, sob a luz dos refletores e o brilho de fogos de artifício que saltam ao fundo, as jogadoras celebram a conquista de um título importante. Elas vestem o tradicional uniforme tricolor, com listras horizontais em azul, vermelho e branco, e muitas trazem medalhas de ouro penduradas no pescoço.

O ponto focal da cena é o troféu prateado, erguido bem alto por uma das atletas, simbolizando a vitória coletiva. Ao redor dela, o grupo transborda alegria: algumas jogadoras gritam de felicidade, outras sorriem abertamente para as câmeras ou usam seus próprios celulares para registrar a eternidade do momento. Atrás do grupo, um grande painel roxo com a marca da competição emoldura a cena, enquanto a fumaça branca das celebrações pirotécnicas preenche o ar, conferindo uma atmosfera épica e vibrante à fotografia. É uma celebração que exala união, força e o orgulho de levar o troféu para casa.
Time feminino do Fortaleza foi campeão da 1ª edição da Copa Maria Bonita em 2025. Foto: Fortaleza Esporte Clube

Todo ano de Copa do Mundo, somos convidadas e convidados a celebrar o futebol do nosso país. Trata-se, na realidade, de um movimento comum entre os brasileiros, embora seja claro que esse prestígio se restrinja ao futebol masculino. O samba e o futebol ainda operam como nossos embaixadores culturais e podem ser temas muito pautados – especialmente quando se trata do esporte com a genialidade de Pelé, conhecido como o maior de todos os tempos. Orgulhamo-nos do “rei”, enquanto silenciamos sobre o fato de termos também a maior de todos os tempos em atividade: Marta. Aos 40 anos, ela continua sendo uma força incomparável no esporte, que nem sempre recebe o mesmo valor em nossa identidade nacional.

O país de Marta é o mesmo em que um time feminino foi desligado em prol de um time masculino que não fez um trabalho bem-feito. No ano passado, o Fortaleza anunciou o encerramento das atividades do futebol feminino (Leoas) para 2026, citando restrições orçamentárias e decisão da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), um modelo de constituição de empresa criado pela Lei 14.193/2021, que permitiu aos clubes de futebol brasileiros migrarem de sua estrutura clássica (associações civis sem fins lucrativos) para um formato de empresa. 

A ironia é: a medida interrompe a trajetória de uma equipe que, no mesmo ano, foi vitoriosa, conquistando o Campeonato Cearense, a primeira edição da Copa Maria Bonita e o acesso à elite nacional (Série A1). Por que as mulheres seguem pagando pelos erros dos homens?

Entendo o futebol como algo muito 8 ou 80: ou você ama ou você odeia. Para quem não curte e acompanha, o cenário é o seguinte: no mesmo ano dos títulos das Leoas, o time masculino do Fortaleza disputava a Série A do Brasileirão, a elite. Cair para a Série B é, para o torcedor, semelhante a levar uma facada. Em um ano de 114 pontos disputados, a equipe masculina conquistou apenas 43, nem metade. Um elenco formado por atletas que deixaram a desejar no desempenho ao longo do ano.

Enquanto eles afundavam o clube, as Leoas faziam história: título do Cearense em cima do maior rival e uma vaga inédita para a Série A1. A gestão escolheu cortar quem vencia para tentar salvar quem só fracassava. Ao menos, o regulamento da CBF prevê que, com a interrupção do feminino, a equipe masculina ficará suspensa por dois anos de competições organizadas pela Confederação.

Além disso, quando mulheres denunciam essa disparidade de gênero no esporte, são alvos de misoginia e machismo. Foi o caso da jornalista Renata Mendonça, que, em 2025, foi ofendida pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (BAP), que a chamou de “nariguda da Globo” após ela reportar a precarização da estrutura do futebol feminino do clube.

Sua denúncia mostrava ao público a péssima situação em que o CT feminino se encontrava, mesmo que, no ano de 2025, o Flamengo tivesse uma folha de pagamento que chegava à casa dos R$40 milhões e registrasse um faturamento anual de R$2,071 bilhões. No entanto, esse valor é investido prioritariamente no futebol masculino, visto que os maiores salários do futebol feminino rubro-negro giram em torno de R$ 50 mil mensais. 

Renata Mendonça é uma das figuras de maior destaque na luta pela ascensão do esporte feminino e posicionou-se publicamente sobre o caso no programa Sem Censura, da TV Brasil, afirmando que o ataque foi misógino e direcionado à sua aparência, e não ao conteúdo técnico de sua reportagem. Fica nítido, portanto, que as mulheres são atacadas e punidas em qualquer instância do esporte. Seja ao trazer uma denúncia, ao lutar por condições básicas de trabalho ou provar o seu valor em campo, o sistema reage com hostilidade. No fim, o ataque pessoal àquelas que lutam pela causa apenas esconde a incapacidade de muitos, como o caso de Luiz Eduardo Baptista (BAP), em aceitar que o protagonismo feminino não é uma ameaça. 

Tem quem justifique não assistir ao futebol feminino porque “não é tão bom”. É difícil despertar interesse com investimentos escassos, transmissões raras e horários ingratos. Mas fica o questionamento: por que ver 11 homens, arrastando seu seu time para a Série B para depois ganharem milhões em outro clube (já que com as constantes janelas de transferência, um jogador pode trocar de escudo várias vezes em um curto período, priorizando dinheiro em vez da história) é mais interessante do que ver mulheres jogando um bom futebol e conquistando títulos?

O problema não é o futebol, é quem joga. As grandes emissoras acabam moldando esse consumo, alterando grades para exibir jogos masculinos desinteressantes em horário nobre, enquanto hesitam em investir nas mulheres. Isso em um cenário onde o futebol feminino vive um momento de popularidade, com 73% de aprovação popular e audiência crescente (alta de 41% na TV Brasil em 2025). A emissora pública é fundamental na luta pela visibilidade da modalidade. Pelo terceiro ano consecutivo, a TV Brasil transmite os principais campeonatos de futebol feminino do país. Essas transmissões estão integradas à estratégia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), gestora do canal, de valorizar o esporte feminino no país, ampliar o acesso das pessoas aos campeonatos e promover a aproximação entre o público da emissora e a modalidade. 

O Brasil se prepara para sediar de forma inédita a Copa Feminina de Futebol no ano que vem, mas será que estamos prontos? Apesar de a seleção feminina acabar de se sagrar campeã do FIFA Series 2026 com 100% de aproveitamento, não existe valorização. Em contraste, a seleção masculina amarga um jejum de títulos desde 2019, perdida em trocas de treinadores e inconsistência, e ainda sim é endeusada. 

Diante desse cenário, o critério de valorização torna-se óbvio. Não avaliamos a qualidade do jogo, avaliamos o gênero de quem veste a camisa. Como aponta Silvana Vilodre Goellner (2005), “se tratando de um país como o Brasil, onde o futebol é discursivamente incorporado à identidade nacional, torna-se necessário pensar o quanto este ainda é, para as mulheres, um espaço não apenas a conquistar, mas sobretudo a ressignificar”. 

Isso quer dizer que, embora o futebol seja um símbolo nacional, ele possui mecanismos que afastam as mulheres, demonstrando a dificuldade com a presença feminina, seja nos campos ou na cobertura. O contexto mostra a urgência na transformação dos significados associados a esse espaço. No país do futebol, a vitória de uma mulher ainda vale menos que o comodismo de um homem.

Por Marcela Pauline

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