Como o movimento redpill transforma ódio em influência?

Nos últimos anos, a presença de homens participantes do movimento redpill tem se tornado notória em redes sociais digitais. A organização surge de uma distorção do filme Matrix, de 1999, onde a pílula vermelha é oferecida como um despertar para a verdade – sendo a base para o nome do coletivo. Ancorados na deturpação da narrativa do dito despertar para a realidade, os red pills são participantes ativos na produção de conteúdo com falas misóginas, incitando o ódio e violência contra as mulheres.

Quem participa do movimento acredita que, a partir do momento que se ingere a pílula vermelha, os homens estariam livres da dominação das mulheres, e usa de sua liberdade para promover discursos que reforçam estereótipos de gênero e a superioridade masculina. Em meio a esse cenário, outro termo se consolidou na internet: a machosfera. Diretamente ligado aos redpill, é formada por homens que acreditam serem superiores a figuras femininas, utilizando violência, agressividade e arrogância como forma de poder.

É nesse contexto que Breno Vieira Faria, 31 anos, conhecido pelo perfil Café com Teu Pai, surge nas redes sociais: o influenciador e policial federal possui mais de 1 milhão de seguidores em seu Instagram. Com vídeos direcionados a mulheres, Breno alega ensinar seu público a como fugir de homens problemáticos e de relacionamentos fadados ao fracasso; discurso que serve de pano para um prato cheio de misoginia e machismo. Com falas sobre a falta de capacidade de mães de criar filhos homens de verdade ou que “o feminismo é o melhor amigo do homem safado”, o influenciador defende um sistema patriarcal, em que o homem deve ser o provedor e chefe da família – a mulher, submissa. Em um de seus vídeos, ele diz: “A verdade é que o homem bem sucedido quer uma mulher feminina bem  mulherzinha, que não tá nem aí pra negócios ou pro mundo corporativo. Ele quer a mulher dele, pra ele, por mais machista e opressor que isso possa parecer”.  Mesmo afirmando não ser um redpill, Breno é um espelho (e um dos casos de sucesso) da ideologia que busca, cada dia mais, inferiorizar mulheres e diminuir seus direitos. 

O problema não é somente o Café com Teu Pai, e muito menos está só em uma rede social: Thiago Schoba, conhecido como Calvo do Campari, foi preso no dia 28 de novembro de 2025, acusado de violentar a namorada. Thiago também foi acusado em 2023 de ameaça e violência psicológica. Com mais de 400 mil seguidores em seus perfis e assumidamente participante do movimento redpill, ele se denomina “influenciador sobre masculinidade e relacionamentos”, alegando ajudar homens a conquistarem sucesso em suas carreiras e com mulheres. 

Analisando tanto Breno quanto Thiago, é evidente a diferença entre seus públicos – enquanto o primeiro se coloca na posição de pai e mentor de mulheres, o segundo se coloca como a voz dos homens, um líder. Mesmo com a diferença dos alvos, ambos utilizam as mídias sociais para o compartilhamento de falas e atitudes misóginas, com o mesmo objetivo: desmoralizar figuras femininas. No caso do Café com Teu Pai, os “conselhos” alcançam seu objetivo: nos comentários, diversas mulheres se identificam com as situações citadas e o colocam no lugar de salvador. 

Desde sua criação, as mídias sociais passaram a fazer parte do dia a dia das pessoas, influenciando em seus comportamentos e modos de pensar. Na pesquisa Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade de Dados pela Internet, realizada em 2019 pelo DataSenado, 83% dos entrevistados acreditam na influência das redes na opinião dos usuários. Com números crescentes em casos de feminicídios, simultaneamente ao avanço da machosfera, mulheres brasileiras estão mais vulnerabilizadas e submetidas a ataques cada vez mais frequentes – no virtual ou no real. 

No ano de 2025, o Brasil registrou 6.904 mortes por feminicídio (Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025). O país é local de casos como o de Alana Rosa, 20 anos, moradora do Rio de Janeiro; ao recusar o pedido de namoro de Luiz Felipe Sampaio, ela foi surpreendida por ele dentro de casa e recebeu diversas facadas no corpo e rosto. O caso atualmente está sendo investigado como tentativa de feminicídio, e reflete o cenário de ódio e violência de homens (muitas vezes, jovens) contra mulheres. Diante disso, o Senado aprovou em março de 2026 a Lei da Misoginia. O texto define que “misoginia é o sentimento de ódio, repulsa ou aversão às mulheres. É uma forma extrema e repugnante de machismo, que deprecia as mulheres e tudo que é considerado feminino, podendo manifestar-se de diversos modos”; a partir dessa definição, a proposta é tipificar o crime com pena de prisão de 2 a 5 anos, com pagamento de multa. 

Com fortes oposições de partidos de direita, o projeto é fortemente atacado nas redes sociais. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) usou suas contas para chamar a proposta de “aberração”, argumentando – sem evidências – que o PL irá prejudicar também as mulheres em tentativas de conseguirem emprego: “quem vai querer contratar mulher pra dentro do mercado de trabalho agora? Se você der um bom dia, já era, é cadeia”.

O crescimento da machosfera e de discursos associados ao movimento redpill não podem ser vistos como casos isolados, impactantes somente no ambiente digital; as mídias sociais são espaços de formação de opinião, grandes influenciadores nos comportamentos dos indivíduos no mundo offline. Para além de um discurso misógino na internet, é sobre a quem escolhemos dar engajamento e, principalmente, as mulheres vítimas desses ataques. São atacadas, perseguidas, violentadas e até mortas mas, aparentemente, esse não é o limite – quando chegarmos nele, o que as espera?

Por Maria Vital

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