Você já escutou aquela máxima de que “se endometriose ou Síndrome dos Ovários Policísticos (ou SOP) afetasse os homens cis, a medicina já teria encontrado uma cura”? Pode parecer exagero, levando em conta a complexidade dessas questões e as diferentes formas de manifestação delas em cada corpo. Porém, se voltarmos ao princípio da medicina, campo liderado por homens (geralmente brancos, cis e héteros), é possível identificar pistas de porque avanços voltados para mulheres (cis e trans) são mais custosos, cenário que piora no caso de mulheres negras.

Façamos o exercício de retornar ao início da ginecologia (aquela considerada “oficial”, já que partos e saúde reprodutiva já eram cuidados a partir de um conjunto de saberes tradicionais), quando James Marion Sims – que recebe o infame título de “pai da ginecologia moderna” – investigava, violentava e realizava procedimentos sem anestesia nos corpos de mulheres negras escravizadas nos Estados Unidos. Além de explorar a anatomia e o que chamava de “doenças de mulheres”, o médico estava interessado em manter a saúde reprodutiva delas, uma vez que o tráfico transatlântico de pessoas estava proibido desde 1807 – os relatos são de 1845 – e “os ventres das mulheres negras eram o eixo da escravidão”.
O corpo que gera é instrumento de disputa há muitos séculos, pensando na procriação e manutenção de famílias, dinheiro e poder (como identifica Gayle Rubin em 1993, no que a autora vai chamar de “troca de mulheres” para construir alianças, numa estrutura heteronormativa). Diante disso, a área da saúde representa campo de conflito, à medida que mais mulheres e pessoas com útero têm acesso à informação e questionam métodos ultrapassados, práticas errôneas e exigem mudanças.
Por esses motivos, no dia 28 de maio é celebrado o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, que foram instituídos para dar visibilidade à magnitude das mortes maternas e promover ações políticas que previnam óbitos evitáveis, que representam entre 40% a 50% dos casos. Originadas de encontros internacionais na década de 80, essas datas visam conscientizar a sociedade sobre doenças específicas da população feminina – como câncer de mama e de colo do útero – e combater a violação sistemática de direitos sexuais e reprodutivos, especialmente em contextos de crise nos quais o acesso a serviços essenciais é ameaçado.
No Brasil, a mobilização reforça a necessidade de aprimorar a assistência pré-natal e especializada para reduzir indicadores de mortalidade que ainda refletem falhas no sistema de saúde e desigualdades socioeconômicas e raciais. Como destaca Denise Oliveira, pesquisadora em saúde na Fiocruz Brasília e uma das formuladoras da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, os óbitos de gestantes por hipertensão aumentaram 5% entre mulheres pretas e pardas no período de 2010 até 2020, enquanto nos demais grupos houve queda.
Além disso, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEM) de 2025, as mulheres negras são as que mais deixam a escola por conta da gravidez (24,7%), denotando a importância da educação sexual, do planejamento familiar e do acesso a esses serviços. Dessa forma, é preciso reconhecer que o racismo faz mal à saúde, reproduz violências, mata e que, como evidenciado pelos dados, a saúde – idealmente direito de todas as pessoas – não é acessada plenamente por conta de entraves políticos e sociais.
Longe de serem apenas estatísticas, essas falhas afetam a vida de muitas mulheres em tratamentos ginecológicos ou até consultas de rotina. Nós, Lia e Ana, também passamos por situações violentas e negligentes envolvendo esse ambiente e decidimos contar essas experiências, também como uma forma de dar “rostos” aos dados.
É comum sentir medo de ir a uma consulta médica?
Nos últimos tempos – após longos períodos de procrastinação –, finalmente busquei por ginecologistas para realizar uma consulta de rotina. Pedi indicações de amigas e pessoas conhecidas em quem confio na tentativa de rastrear profissionais que equilibrassem o conhecimento técnico e atendimento humanizado. Quando, enfim, encontrei alguém que considerava interessante, me deparei com diversos vídeos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) republicados em suas redes sociais. O medo tomou corpo e mente.
Me questionei muito sobre como pode um profissional da saúde compartilhar conteúdos de alguém que desacredita na ciência (lembremos da pandemia e dos ataques sistemáticos à educação) e propaga tanto ódio contra pessoas LGBTQIAPN+. Justo na área da saúde, que deveria ser direito de todas as pessoas, discursos preconceituosos ganham tração, incitando cada vez mais violência.
Como mulher lésbica, me senti acuada em falar sobre experiências sexuais, uma vez que já havia escutado diversos relatos violentos e falta de preparo nos atendimentos. Com isso, uma consulta de cuidado tornou-se uma conversa em que eu estava hipervigilante sobre qualquer detalhe “a mais” que poderia ser julgado. A gente tenta se preparar, ir munida de informações e dos nossos direitos, mas ali, tão vulnerável em frente à médica, me senti indefesa, acuada.
Evidente que nenhum nível de informação adquirida antes da consulta poderá nos proteger de violências de profissionais de saúde – e quaisquer outros. No entanto, ao compreender como os preconceitos se infiltram e estão presentes nas estruturas da sociedade, saber identificar comportamentos, frases e atitudes discriminatórias é fundamental para questionar e até mesmo encaminhar denúncias para responsabilizar esse/essa profissional.
No final das contas, nem citei minha sexualidade ou qualquer questão mais “subjetiva”, pois estava ali para investigar minha saúde. Porém, é interessante pensar sobre como as subjetividades que fogem da heteronormatividade são simplesmente escanteadas, quando não violentadas. Como se já não bastasse outras experiências preconceituosas, a saúde ainda permanece como área insegura para mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e negras, por exemplo.
É importante mencionar que a coação e o medo não são violências físicas, mas se manifestam nos corpos e propagam um sistema que oprime mulheres e pessoas LBTI+, ou seja: ainda que simbólicas ou psicológicas, essas violações afetam nossas vidas e nosso acesso à saúde – seja direta ou indiretamente.
Endometriose tem cara?
É fato que corpos dissidentes são atravessados por diversas violências. Como uma herança do período escravocrata, há quem ainda acredite que pessoas negras são mais fortes e resistentes à dor. Daí, as experiências médicas são atravessadas por violências. Somadas às negligências com relação à saúde feminina, as consultas ginecológicas e obstétricas se tornam ambientes hostis para mulheres negras.
Mesmo com tudo isso em mente, ainda me surpreendo com algumas situações e me questiono às vezes se seria só algum mal-entendido. Um desses casos foi no meio da minha jornada na busca de um laudo para a causa de muita cólica, fluxo menstrual e outros sintomas relacionados Comecei a investigação na adolescência, mas no SUS demorava a sair e no privado os exames de imagem são muito caros. Enfim, fui a uma consulta ginecológica por encaminhamento pelo SUS em Mariana, indicada por uma ginecologista mulher, a fazer ultrassonografia dos seios e da pelve. Eu tinha mudado de UBS e o novo ginecologista era um homem mais velho. Assim que entrei no consultório, ele olhou para o meu rosto e perguntou o que eu queria; ao escutar, disse que eu não tinha cara de quem tem endometriose e que na minha idade, 22 anos, não era comum.
Ele disse isso sem me examinar; disse isso sem ouvir meus sintomas. Disse isso apesar de pesquisas indicarem que a endometriose pode se manifestar nas primeiras menstruações, em até 15% das mulheres em idade reprodutiva. Realmente pode não ser comum diagnosticar mulheres nessa idade – um dos motivos é a escassez de informações e estudos aprofundados. Em outra consulta recentemente com uma ginecologista, ela compartilhou que tem mulheres que descobrem a endometriose após os 40 anos. O processo é difícil e no fim, o meio mais fácil pode ser aceitar tomar medicamentos ou até mesmo anticoncepcionais para mascarar as dores e outros sintomas, mesmo sem saber a causa.
A saúde de mulheres e pessoas com útero está em segundo plano
Você já ouviu que “dores menstruais são comuns e fazem parte da rotina” de pessoas que menstruam? Essa é uma afirmação muito comum não só em consultórios ou espaços de atendimento à saúde, mas amplamente divulgado, repetido por pessoas da família e amizades. No entanto, quando essas dores são constantes, não investigadas ou tratadas, elas podem indicar problemas mais graves, como endometriose e adenomiose.
A questão torna-se ainda mais complexa quando essas pessoas buscam por atendimento, relatam dores intensas, sangramentos abundantes e a recorrência dos sintomas e são levadas a acreditar que é “completamente normal” ou que “estão exagerando”. Isso faz com que diagnósticos mais complexos, que demandam exames e investigação, sejam ignorados por profissionais da medicina, levando a sensação de loucura em quem relata tais sensações.
Quando todo mundo ao nosso redor duvida ou normaliza sintomas sérios, dolorosos e até mesmo incapacitantes – experimente trabalhar e ter de ser produtiva/o com intensas dores pélvicas –, em que pessoas desmaiam em decorrência dos incômodos, é ainda mais difícil buscar ajuda. A quem recorrer quando um/a médico/a desacredita do relato? Uma vez que a estrutura da saúde é “medicalocêntrica” e a palavra daquele/a profissional é a mais importante, pessoas que têm útero são condenadas à brutalidade e à dor.
Como dissemos, a medicina é um campo de disputa de poder – ainda mais pensando em corpos que fogem dos padrões aceitos socialmente –, que (re)produz violências e propaga preconceitos. Logo, não é nenhuma coincidência ou surpresa que um sistema idealizado por e para homens brancos cisheteronormativos vitimize e subjugue mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+. Desde doenças que afetam pessoas com útero, até infartos – que demonstram sintomas diferentes a depender do gênero –, há desigualdades profundamente enraizadas na comunidade médica e, ao passo que temos acesso à informação, o combate se dá em conjunto com outras/es/os, também vítimas.
Neste 28 de maio – e em todos os demais dias – estejamos atentas, unidas e dispostas a questionar essa medicina que oprime e violenta nossos corpos, para que ela seja mais plural e equalitária para todas as pessoas.
Serviço:
O Conselho Federal de Medicina disponibiliza um canal para realizar denúncias éticas, quebra de decoro ou recusa de atendimento. Acesse: Denúncia | Portal Médico.
Denúncias de mau atendimento ou irregularidades no SUS podem ser feitas de forma anônima ou identificada. Os canais disponíveis para contato são o site Fala.BR, o Sistema OuvidorSUS, o Disque Saúde pelo número 136, o WhatsApp no 0800 275 0620 ou o atendimento presencial.
Para visualizar mais dados, acesse o RASEAM 2025 – Relatório Anual Socioeconômico da Mulher.
Por Ana Luiza Rodrigues e Lia Junqueira
