Uma princesinha de olhar branco e colonial

Primeiro plano de uma menina loira, branca, com cachinhos nos cabelos.
A atriz Liesel Matthews como Sara Crewe, protagonista de A Princesinha. Foto: Divulgação.

Iniciar uma mostra cinematográfica sobre infância com A Princesinha demarca algumas questões: a mais importante delas, que não se pode compreender a infância – e sua representação nas telas – sem as meninas. As infâncias têm gênero, raça, classe, origem, corpo. E, de um jeito meio torto, A Princesinha também demonstra isso.

O filme é uma adaptação do romance de mesmo nome (The little princess: being the whole story of Sara Crewe now told for the first time), da escritora inglesa Frances Hodgson Burnett, publicado em 1905. Dirigido por Alfonso Cuarón (seu primeiro filme em inglês), no longa a ação é transportada para 1914, e o que era um livro contemporâneo quando foi lançado se torna uma história de época em 1995.

Durante a Primeira Guerra, o capitão Crewe, que vivia na Índia com sua filha Sara, é convocado para o Exército inglês. Antes disso, leva a filha, órfã de mãe, a um luxuoso internato feminino em Nova York, onde a falecida mãe da menina estudara. O lugar é administrado pela srta. Minchin com a ajuda da irmã, Amelia.

Sara é tratada com privilégios na instituição, ainda que demonstre logo desafiar as normas rígidas de Minchin. Contudo, chega a notícia de que o pai de Sara havia morrido na guerra e sua fortuna, confiscada pelo governo. De menina rica, Sara se torna totalmente órfã e é feita empregada do internato, ao lado de Becky, uma criança negra que vive sob o que parece ser uma situação de trabalho escravo.

Há duas maneiras boas de olhar para A Princesinha, além do fato de colocar meninas em primeiro plano e efetivamente enxergar o mundo do ponto de vista delas (de uma delas). A primeira delas é que já se vê ali, naquela obra inicial, o diretor de Grandes esperanças (1998), Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) – muito claramente – e Filhos da Esperança (2006). Isso aparece nos temas relacionados à infância, mas também no clima meio fantástico, construído pela paleta de cores, trilha sonora e iluminação.

A segunda maneira de enxergar bem o filme é a defesa da infância como espaço de fabulação, em contraponto a um universo adulto repleto de normas de gênero e classe estritas e retrógradas. Sara é uma contadora de histórias, e luta para reatiçar nas colegas a capacidade imaginativa que a antagonista, srta. Minchin, tenta a todo custo extirpar por meio de aulas de francês, etiqueta, literatura correta.

O grande problema do filme é o olhar. O filme nos propõe olhar o mundo pelo modo como Sara o enxerga, ele é branco e colonial. A Índia é fabulada como um país exótico, pura selva, feras selvagens e seres míticos – não à toa, a Índia é tão outrizada que as cenas do país são animações – o colonizador consegue representar o Outro? Ram Dass, o servo indiano do vizinho do internato, é apresentado em trajes completos de rajá em colorido brilhante, com um macaquinho no ombro. É uma figura feita para contrastar profundamente com os trajes burgueses brancos – sóbrios, delicados, esvoaçantes – e contribuir para a Outrização desse lugar distante e suas pessoas diferentes.

Duas meninas, uma negra e uma branca, de vestidos claros em cima de uma estátua (que não se vê direito). A menina negra está de pé, iluminada.
Becky (de pé) e Sara durante uma das histórias fantásticas desta última. Foto: divulgação.

E há, principalmente, o olhar sobre Becky, a menina servente negra que mora no sótão da escola (uma frase estranha em sua natureza). A única função narrativa de Becky é operar narrativamente para Sara: servi-la, humanizá-la, acolhê-la, ajudá-la. Becky não tem desejos, ideias próprias, falas que não sejam para ou sobre Sara. Sequer é problematizado o lugar que ela ocupa na escola, da qual parece compor a paisagem. É um esboço de coadjuvante sem delineamento subjetivo, revelando como a branquitude enxerga uma menina negra. O desfecho do filme ainda reforça uma tradição narrativa do cinema estadunidense, o mito da salvadora branca. Becky, é claro, só tem direito a ser grata.

Por isso, A princesinha é um filme bonito, de tirar o fôlego, quase mágico. Mas conta a história de uma princesa branca e colonial olhando para o mundo que a cerca – e que orbita, como não poderia deixar de ser, ao seu redor.

Serviço:

Título Original: The little princess
Onde Assistir: Disponível para aluguel em serviços de streaming (ClaroTV+), PrimeVideo.
Duração: 
97 minutos
Gênero: Infantil, fantasia
Classificação Indicativa: 14 anos
Nossa Classificação: Livre
Justificativa: as representações estereotipadas e cenas de violência são bastante sutis, sem recursos visuais gráficos.

Por Karina Gomes Barbosa

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