As crianças não costumam ter espaço no jornalismo, nem como fonte e nem como pauta. As histórias que emergem são conectadas, em sua maioria, a crimes, quando crianças brancas são cobertas pela perspectiva das vítimas, em especial meninas, e crianças negras são apresentadas no enquadramento da criminalidade, principalmente meninos. O caso Ana Lídia Braga é um exemplo de como meninas brancas são pautadas no jornalismo. Ana Lídia era uma menina de sete anos que foi assassinada na cidade de Brasília em 1973.
Ela tinha cabelos loiros, gostava de animais e fazia aula de piano. Ana Lídia havia sido deixada na porta do Colégio Madre Carmen Sallés por seus pais no período da tarde, no contraturno de suas aulas regulares, no qual ela fazia reforço escolar e aulas de piano. Foi sequestrada antes de assistir às primeiras aulas. Isso aconteceu no dia 11 de setembro de 1973. Seus pais receberam dois pedidos de resgate pela menina. No dia seguinte, o corpo dela foi encontrado com os cabelos cortados rentes a cabeça, sinais de tortura e violência sexual. Ana, ao longo dessas décadas, por muitas vezes, tem seus direitos violados e a memória que a mídia cria da menina marca nas páginas apenas seu sofrimento, contribuindo com a narrativa de que, para se tornar uma santa popular, a menina teve que passar por uma provação.

Considero ser possível analisar o caso de Ana Lídia como um infantofeminicídio. O termo caracteriza a morte violenta de crianças do sexo feminino em razão de seu gênero. Assim como o feminicídio, violência sexual e doméstica contra meninas são considerados atos contra as caracteristicas do gênero feminino. Mesmo que não houvesse essa tipificação em 1973, as particularidades do crime cometido contra Ana Lídia possibilitam que o caso seja analisado por essa ótica.
As investigações do crime são rodeadas por acusações morais sobre os suspeitos: Álvaro Henrique Braga, irmão mais velho da vítima, e Raimundo Duque, funcionário do DASP, colega de trabalho da mãe de Ana, Heloisa Braga. Uma das supostas motivações para que Álvaro e Raimundo matassem a criança seria o envolvimento com drogas e uma dívida contraída em razão do vício. Outra acusação direcionada ao irmão de Ana era que ele trocou a menina por dinheiro para pagar um aborto para a namorada. As drogas e o desvio da norma sexual se tornam um condutor da narrativa jornalística e das investigações.
Os suspeitos principais denunciaram que foram torturados e coagidos na delegacia. Raimundo Duque afirmou para a imprensa, na época, que as investigações utilizaram Álvaro e ele para encobrir os culpados verdadeiros, que seriam filhos de homens importantes na ditadura: Alfredo Buzaid Júnior, conhecido como “Buzaidinho” e filho do ex-ministro da justiça Alfredo Buzaid, e Eduardo Ribeiro de Rezende, filho do senador Eurico Rezende. Os dois principais suspeitos, Raimundo e Álvaro, foram absolvidos em 1974 por falta de provas – Buzaidinho e Eduardo nunca foram acusados formalmente. Em 1975 novas investigações foram feitas pela polícia, mas não encontraram novas evidências.
Acredito que, pela não resolução do caso, o crime que vitimou Ana Lídia Braga se fixa no imaginário social como algo que precisa ser solucionado, como um mistério. E para além disso, como um agente criador de emoções que deve ser relembrado de tempos em tempos. O caso até hoje movimenta produções de true crime, mas também sempre volta a ser pauta no jornalismo.
Foi a partir dessa observação que a professora Karina Gomes Barbosa questionou: “Quando uma menina é assassinada, o que a imprensa escolhe contar?”. O questionamento se transformou em duas pesquisas de iniciação científica (IC), a primeira sobre o caso Miriam Brandão, a segunda sobre o caso Ana Lídia Braga e uma terceira, em andamento, sobre os casos Araceli Cabrera e Albertina Berkenbrock.
Segundo o Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, entre 2021 e 2023 o Brasil registrou 15.101 vítimas letais de mortes violentas intencionais entre 0 e 19 anos. Os dados apontam para cerca de, em média, 13 assassinatos por dia em 2023, segundo a Agência Senado. Entre 2021 e 2023, 1.508 meninas foram vítimas de morte violenta e, em relação à violência sexual, 87,3% do total de vítimas são mulheres, 48,3% têm entre 10 e 14 anos e 52,8% são negras, segundo o panorama.
Com base nos dados é possível entender que o assassinato de meninas não é algo extraordinário, da mesma forma que o estupro desses corpos também não é. Pensando nisso, entender como o jornalismo cobre essas meninas se torna fundamental. No caso da minha pesquisa, analiso a cobertura do jornal Correio Braziliense (CB) sobre Ana Lídia Braga, pormenorizando como o processo produtivo dos jornais da época é visível no próprio produto, permitindo entender o cuidado com a produção das matérias e com a memória da menina. Essa metodologia se chama Análise de Cobertura Jornalística (ACJ) e foi proposta por Gislene Silva e Flávia Maia para estudar jornais impressos.
Para realizar a pesquisa sobre como o caso Ana Lídia Braga foi coberto pelo CB, foi utilizada a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, portal com um grande acervo digitalizado e com acesso gratuito. As edições do Correio estão disponíveis no site da hemeroteca até o ano de 2014, mas nem sempre as páginas estão legíveis, o que impacta o processo da pesquisa.
Os dados tabulados da investigação permitem entender como Ana Lídia foi construída e é retomada pelo jornalismo. Para isso, apresento um resumo sobre o que encontramos durante um ano de pesquisa. Ao todo foram analisadas 63 matérias do Correio Braziliense, 54 matérias de cobertura da época do caso e nove reportagens que marcam as efemérides do acontecimento.
Entre setembro e dezembro de 1973, 31 matérias foram veiculadas nas páginas do jornal. Em 1974, 12 matérias aparecem nas buscas e, em 1975, 10 matérias. A primeira matéria que fala sobre o caso não leva na manchete o nome da menina. Inclusive, o acontecimento é uma chamada secundária na capa e traz no título o termo “menor”. Essa palavra é associada à criminalização de crianças negras e pobres e, nos dias atuais, é aconselhado que sejam utilizadas outras palavras como crianças, adolescentes, meninos e meninas.
A menina é capa do jornal 30 vezes e, dessas, seu nome aparece em 19 ocasiões na manchete, variando entre Ana Lídia, Ana, A. Lídia e Aninha. Porém, outros termos são utilizados para denominar a vítima, como mostra a nuvem de palavras a seguir:

A pesquisa revela que, apesar da menina ser identificada pelo seu nome, a redação também utiliza termos que reforçam que seu infantofeminicídio é a perda da vida de uma menina meiga, pequena, quase divina – algo que ela realmente se torna. Atualmente, Ana Lídia Braga é santa popular de Brasília; as pessoas visitam seu túmulo no Cemitério Campo da Esperança, pedindo para que ela interceda em milagres. Seu jazigo é um dos mais visitados no feriado de Finados.
Termos como meninazinha, santinha, anjo no céu, reafirmam uma narrativa muito comum no jornalismo quando o assunto é cobertura de feminicídios de mulheres e meninas. Algumas coberturas midiáticas de feminicídios e infantofeminicídios que são amplamente divulgadas, têm algumas características que se repetem: habitualmente as vítimas são brancas e de classe alta – mulheres pretas e pobres poucas vezes têm coberturas a respeito de suas mortes. Além disso, Ana era uma menina inocente, que deveria ter sido cuidada, por isso seu assasinato gera tanta inquietação na mídia e na sociedade brasiliense da época, diferente de outras crianças, tratadas como “menores” associadas à criminalidade de pessoas pretas e pobres.
A santidade de Ana Lídia distancia a criança de sua humanidade. Isso se destaca ainda mais quando se compara ao tratamento de sub humanização dado aos suspeitos do crime pelo jornalismo. Apenas uma matéria traz conceitos para a discussão, mas eles dizem respeito à moral dos suspeitos e não sobre Ana ou sobre o caso. No dia 13 de setembro de 1973, um dia depois de o corpo da menina ter sido encontrado, o Correio Braziliense publica uma matéria que associa os suspeitos a doenças mentais por meio de um retrato psicológico, criando o sentido de que apenas alguém com transtornos mentais seria capaz de matar uma menina.
A partir de fontes especialistas em saúde, a notícia chama os criminosos de maníacos sexuais, colocando-os como pessoas sub-humanas, monstros. Enquanto Ana é uma santa, uma pessoa sobre humana. Essa dicotomia reafirma julgamentos morais e uma “batalha” entre o bem, a menina santa, e o mal, os monstros criminosos, discurso frequente em um jornalismo que quer gerar emoções, conhecido como sensacionalista. Pensando nisso, é possível concluir que apenas pessoas inocentes são passíveis de terem suas mortes tratadas de forma contínua pelo jornalismo.

As matérias são divididas entre 43 notícias, 12 notas e oito reportagens. Dessas, apenas 34 possuem fotografia. Esses dados mostram como a redação se preocupa com o caso. Apesar de ser exaustivamente coberto, o jornal não se aprofunda no caso de Ana de forma abrangente. As duas únicas legislações acionadas são o Decreto Lei nº 898/1969 e os artigos 28 e 109 do Código de Processo Penal. As três dizem respeito ao crime e aos suspeitos. E os especialistas que são ouvidos pelo veículo falam sobre o perfil psicológico dos criminosos e não sobre a menina.

As fotografias utilizadas nas matérias em sua maioria não registram Ana Lídia. Ao todo, as imagens de Ana aparecem 13 vezes ao longo de toda a cobertura, que variam entre duas imagens dela, sendo uma do documento da menina. Em uma das matérias há fotografias de Ana do lado do suspeito de seu infantofeminicídio, o irmão, uma clara tentativa de tentar redimir Álvaro Henrique Braga como suspeito. As imagens utilizadas pela imprensa fazem parte da composição da informação e também transmitem algo para quem lê.
Não colocar uma imagem de quem é aquela menina faz com que esse ser humano se torne ainda mais invisível. Algumas coberturas, como por exemplo do Linha Direta Justiça, trazem imagens do corpo de Ana, questão analisada por mim e pela jornalista Ana Luíza Rodrigues da Silva no artigo “Ana Lídia Braga e Miriam Brandão: sensacionalismo, moralidade e simulações no jornalismo audiovisual”. O CB não expõe esse tipo de fotografia, que insiste em revitimizá-la e marca na memória social apenas a Ana vítima, mas só mostra Ana Lídia a partir de duas imagens. Ela fica presa nas páginas dos jornais, das reportagens audiovisuais e da internet como apenas um corpo, não como alguém que tinha brincadeira favorita ou que tivesse medo do escuro. Não sabemos quem foi Ana Lídia Braga, conhecemos apenas o infantofeminicídio que ceifou sua vida, transformando-a em apenas mais uma menina assassinada.
Nas efemérides de 10, 15, 30, 40, 45 e 50 anos do crime, as páginas do Correio Braziliense rememoram o caso. Uma das premissas que se apresentou como falsa durante a pesquisa foi a possibilidade de as matérias mais recentes humanizarem Ana Lídia, mas o que vimos é o contrário. A menina continua invisibilizada, as investigações e o julgamento permanecem como enredo principal das reportagens. A matéria de 2003, que entrega algumas poucas informações novas sobre Ana Lídia, depois se transforma em um espaço de descrições detalhadas sobre como a menina foi torturada, estuprada e assassinada. Analiso melhor esse especial no artigo “Visibilidades e invisibilidades no especial de 30 anos do caso Ana Lídia Braga nas páginas do Correio Braziliense”.
As características descritas nas novas matérias no caso de Ana não acrescentam humanidade à criança. Ela continua aparecendo pouco, tendo sua morte relembrada sempre a partir da ótica do julgamento criminal e moral dos suspeitos. As efemérides inauguram no corpus analisado a assinatura de quem foi o responsável por redigir a notícia e, de 63 matérias analisadas, apenas oito foram escritas por repórteres fixos do Correio Braziliense. Isso pode significar que as notícias foram escritas por muitas pessoas diferentes, talvez jornalistas, talvez estagiários, e com base em quem escreve podemos inferir a importância do caso para a mídia naquele momento e também o rigor ético com que ele foi tratado.
As crianças não costumam ter espaço no jornalismo para falar de coisas que elas consideram importantes ou darem opinião sobre assuntos que impactam suas vidas. A tendência é mostrar crianças, especialmente meninas, apenas de duas formas: como santa ou como alguém que merece ser punido. A diferença entre esses dois tratamentos é a cor de pele: crianças negras são majoritariamente retratadas no jornalismo como ameaças. Ana, assim como outras meninas brancas assassinadas, é trazida de volta para o jornal para reafirmar sua santidade, mas não sabemos quem era ela a partir das 63 matérias analisadas.
Por Ana Beatriz Justino
