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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • O assédio acontece, as denúncias são feitas, mas, e as responsabilizações?

    Entrada da universidade. Foto: UEPB

    Na cerimônia de abertura de um evento internacional, uma aluna toma a palavra e relata, em alto e bom som, os diversos casos de assédio com ela e outras aulas que o professor Paulo Kuhlmann, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), cometeu. O que vem depois disso?

    A denúncia pública se deu no dia 22 de novembro, em João Pessoa (PB), na Conferência do Fórum Universitário Mercosul (FoMerco), no entanto, as práticas de assédio já vinham acontecendo há muito mais tempo. Ela, que prefere não se identificar, repete falas de Paulo que, ao ver a apresentação de uma outra aluna, diz que “vai gozar”, ou que ela, a denunciante, não poderia participar do evento por ser uma mulher e “por estar tendo um caso com o coordenador do curso”; ou ainda que declara ter “tesão” em outra aluna. 

     Aluna denuncia professor da UEPB por assédio em abertura de evento: ‘Foram muitas vítimas’

    Vídeo da aluna. Reprodução: Uol. 

    Infelizmente, a história não é única no Brasil e, muito menos, no mundo. Mas, por que esses homens não são devidamente culpabilizados?

    Esse questionamento é difícil de responder, pois, ao mexermos com as diversas estruturas de poder que existem dentro das instituições de ensino superior, por exemplo, encontramos hierarquias difíceis de serem quebradas com denúncias. O assédio se dá nesses locais justamente por essas relações de poder, entre professor e aluna, orientador e orientanda, professor e professora, professor e técnico, e tantas outras que vemos todos os dias. Além disso, há os “pactos de cumplicidade” entre pessoas que, a princípio, se dizem aliadas da luta, mas, quando as denúncias são efetivadas, se retiram. 

    Porém, as ouvidorias e canais de denúncia estão, efetivamente, fazendo o quê? Se seus serviços não estão sendo efetivos com as estudantes que as procuram. Como nesse caso na UEPB, relataram à ouvidoria e, como resposta obtiveram: “era sua palavra contra a do professor, e não tinha como provar que ele tinha dito aquilo”, como esse crime pode ser punido? 

    Na live  Como encaminhar as denúncias de assédio?, da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, as pesquisadoras discutem maneiras de nos fazermos ouvidas e capazes de provocar responsabilizações – mais do que devidas – e, além disso, propagar informações, o que torna-se fundamental nesse processo. É inaceitável que uma – ou várias – alunas estejam não só expostas, como também imunes nesse caso, às violências desse professor. 

    As ouvidorias fazem parte de uma grande estrutura, a Universidade, no entanto, é preciso romper com algumas barreiras para garantir a melhoria da convivência dentro das instituições. Um dos primeiros passos, como descreve Flávia Máximo na live, é conhecer as afetações do assédio e os motivos de se ter uma perspectiva de gênero, que combate a prática violenta que tanto nos afeta. 

    A UEPB disse, em nota, que o processo segue em tramitação desde 31 de outubro, quando foi inicialmente apresentado, e diz ainda que, em casos de assédio, é necessário mais tempo para estudar medidas cabíveis. Dessa forma, espera-se que o processo tramite e as devidas providências sejam tomadas, com justiça para esses corpos violentados e mudança no ambiente acadêmico, que já está exaurido de tanto trauma. 

    O assédio permeia nossas vidas e nossa existência, mas continuaremos lutando contra ele, juntas. 

    Por Lia Junqueira. 

  • Projeto Ariadnes participa do Encontro de Saberes 2023

    Apresentação na Mostra PIDIC no dia 22 de novembro de 2023.

    Nos dias 21 e 22 de novembro de 2023, a equipe do Projeto Ariadnes teve o prazer de participar da Mostra do Programa de Incentivo à Diversidade e Convivência (PIDIC) e do Seminário de Iniciação Científica (SEIC) da Universidade Federal de Ouro Preto. 

    Na Mostra PIDIC, Ana Luiza Rodrigues e eu, Lia Junqueira – bolsistas – apresentamos o Projeto Ariadnes e alguns de nossos resultados, discutindo, através da perspectiva de gênero, sobre outras formas de observar o mundo e a mídia. Além disso, trouxemos exemplos de filmes e séries que já analisamos aqui no site, assim como a coleta de relatos, que dão forma às nossas ações. 

    Foi um momento importante para realização de intercâmbio dessas experiências, para nós que estamos no retorno do Ariadnes após o período de pandemia, e pudemos vislumbrar o futuro das ações em conjunto com outras semelhantes. O projeto foi criado em 2018 e retomado em maio de 2023 com alguns aspectos diferentes, como a implementação de um site e uma página no Instagram.

    Citamos nossa primeira oficina, que ocorreu em 27 de setembro de 2023, na Semana de Integração do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), denominada “Como ler a cultura a partir da perspectiva de gênero?” e falamos da participação e cobertura em eventos relacionados aos estudos de gênero dentro da universidade. 

    Na Mostra SEIC, Lívia Labanca e Maria Clara Soares, integrantes do projeto, apresentaram a pesquisa de Iniciação Científica denominada “Violência, Corpo e Trauma: Um olhar interseccional e decolonial sobre imagens de mulheres e meninas no audiovisual”, que também compõe as características de um olhar gendrado que propomos no Projeto Ariadnes. 

    Apresentação na Mostra SEIC.

    O Encontro de Saberes é organizado pela UFOP, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig) e Fundação Educativa de Ouro Preto (Feop). Ele foi criado em 2009 e reúne mostras de trabalhos de pesquisa (Proppi), extensão (Proex) e graduação (Prograd).

    Por Lia Junqueira. 

  • Caso Maju de Araújo: assédio e capacitismo

    Imagem em preto e branco do rosto de uma mulher branca jovem de olhos fechados
     Reprodução: InVoga News

    A modelo e influencer de 21 anos Maria Júlia de Araújo Dias, mais conhecida como Maju de Araújo, tem conquistado cada vez mais espaço no mundo da moda, desfilando em eventos importantes tanto nacional quanto internacionalmente. Na sua conta do Instagram (@majudearaujo), ela possui 830 mil seguidores, tendo aparecido em veículos midiáticos de grande notoriedade, como Vogue e Forbes, nas edições brasileiras. Constantemente a jovem usa suas redes sociais para falar sobre moda e sobre sua carreira. Maju possui Síndrome de Down, e através do seu trabalho traz muita representatividade através das campanhas das quais participa no mundo da moda, rompendo os padrões da indústria que costuma representar apenas pessoas sem deficiência. Além disso, a modelo usa seu espaço na mídia para falar também sobre suas experiências enquanto uma PcD (Pessoa com Deficiência), assim como a importância da promoção de um espaço anticapacitista.

    Porém, no dia 27 de agosto de 2023, a empresária Adriana de Araújo, mãe da modelo, precisou intervir por meio das redes sociais e de uma nota de repúdio no perfil da filha para trazer ao público os assédios e ataques capacitistas que a garota vinha sofrendo. Ao longo dos anos em que Maju exibia seus trabalhos na internet, já existiam inúmeros ataques contra ela, e a família e equipe da influencer costumavam tentar blindar-lá dessas violências – como é dito na nota – mas, ao lançaram uma campanha publicitária com a jovem como protagonista, a situação alcançou um extremo. Os ataques chegaram a um número imenso, lotando os comentários da publicação com falas de teor sexual e capacitista, que ilustravam ameaças e discriminação com a desculpa de ser uma “brincadeira”.

    Na nota, a equipe de Maju expõe vários prints com dezenas de comentários preconceituosos e alerta que irá tomar medidas legais para solucionar a situação, além de pedir para que os ataques cessem. Após a publicação, Adriana e a modelo foram a programas de televisão para falarem do assunto e conscientizarem sobre a gravidade do ocorrido. O cruzamento das violências capacitistas e de gênero nos remetem ao que é dito por Juliana Santos Azeredo no texto Território virtual e a face da violação do direito das mulheres: “A desigualdade de tratamento para homens e mulheres não nasceu da tecnologia, apenas migrou do campo físico para o virtual, fato este se dá devido as pessoas acharem que a internet é um território livre e, com isso, fazer a violência contra a mulher, na vida real, ganhar novos formatos na rede de computadores”. 

    Seguindo essa linha de raciocínio, a desigualdade na forma de tratar mulheres e pessoas com deficiência é refletida nas redes sociais. As pessoas utilizam desse espaço para expor seus preconceitos reais como se através desse meio não fosse existir uma retaliação. Entretanto, ataques virtuais não deixam de ser enquadrados como crimes apenas por serem praticados em um ambiente online. O comportamento utilizado contra Maju em relação à deficiência é definido como uma forma de discriminação contra PcDs, um modo de inferiorizar e descredibilizar, seja através de falas ou ações. E segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência, no parágrafo único do Art. 5º, dentre os tipos de pessoas com deficiência consideradas especialmente vulneráveis, estão incluídas as mulheres, logo, ao se aliar os comentários capacitistas e misóginos sofridos por Maju, ocorre um processo de dupla violência, que através de ameaças sobre o seu corpo demonstra o entendimento de que ele não fosse é válido como qualquer outro. 

    Texto por Lívia Labanca

  • Cultura do silenciamento, bullying e violência sexual

    menina branca com olhos claros e cabelo liso castanho escuro preso em coque, ela está olhando para o próprio reflexo no espelho com uma expressão triste e tem desenhado traços sobre sua boca, como se estivesse com ela costurada
    Melinda em cena do filme

    O filme “O Silêncio de Melinda”, lançado em 2014, é baseado no livro “Fale!”que foi escrito por Laurie Halse Anderson, e conta a história de Melinda Sordino (Kristen Stewart), uma menina de 14 anos que começa a sofrer bullying e a ser ignorada pelos colegas da escola após ligar para a polícia durante uma festa promovida pelos veteranos. A ligação fez com que a festa acabasse e algumas pessoas fossem presas, por conta disso ela começa a ser isolada na escola, e vai aos poucos ficando cada vez mais silenciosa, por sentir que ninguém quer escutá-la de fato. Aos poucos ela vai se abrindo por meio das aulas de arte, e tentando entender o que realmente aconteceu naquele dia traumático, até conseguir compreender que havia sido estuprada por um dos meninos mais adorados do colégio.

    Ao longo da trama Melinda vai tendo que aprender a lidar sozinha com seus traumas e com o tratamento que recebe, voltando lentamente a usar a sua voz, primeiro por meio da arte, para depois começar a voltar a expor seus sentimentos publicamente. Em dado momento consegue retomar uma antiga amizade e decide revelar para ela o que aconteceu de verdade naquela noite, e que o seu estuprador era o namorado dessa amiga, mas após finalmente conseguir falar sobre o assunto, Melinda recebe como resposta uma acusação de que está mentindo, o que a deixa muito triste. No final do filme a protagonista consegue recuperar sua voz e voltar a viver de uma forma melhor, todos descobrem o que havia realmente acontecido e ela passa a ser tratada bem novamente. 

    Mas o tratamento recebido por ela depois do trauma nos mostra mais uma forma de violência, a que é provocada pelo bullying e o silêncio dos colegas, fazendo com que Melinda vá se isolando mais dia após dia, entrando em um quadro muito depressivo. Isso nos leva ao texto “Violência de gênero: o lugar da práxis na construção da subjetividade”, de Heleieth Saffioti, em que a autora realiza uma paráfrase ao dizer que: Chauí consiste em considerar violenta: a ação que trata um ser humano não como sujeito, mas como uma coisa. Esta se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo silêncio, de modo que, quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência. Logo, ao excluírem Melinda e podarem todas as suas formas de comunicação, há uma retirada da jovem o poder de se expressar em um dos momentos em que ela mais precisava.

    Por meio da história de Melinda nós conseguimos ver um comportamento semelhante ao que acontece na realidade, quando meninas/mulheres sofrem violências e são descredibilizadas ao tentarem expor o que aconteceu. A jovem ficou meses sendo maltratada pelos colegas que sequer se preocuparam em tentar ouvi-la para saber o que tinha acontecido, de modo a violentá-la mais uma vez através do isolamento, enquanto o menino que a havia estuprado era vangloriado. Quando ela finalmente consegue desabafar, uma das primeiras respostas que consegue é a da negação. Como se sua voz não fosse confiável, porque afinal era a palavra dela contra a de um homem que parecia ser o “menino perfeito”, o que nos leva a questionar sobre quais vozes são realmente ouvidas quando decidem se levantar.

    Por Lívia Labanca

    Serviço:

    Título original:
     Speak

    Onde assistir: Google Play

    Classificação indicativa: 12 anos (A12)

    Classificação da autora: 12

    Gênero: Drama

    Gatilhos:  violência de gênero, agressões físicas, estupro, bullying.

  • Inacreditável: uma história de violência para além da ficção

    Na foto, é mostrada Marie, com o semblante triste e apreensivo, em pé no julgamento. Atrás, há outras vítimas e participantes do momento sentados
    Créditos da imagem: cena do filme

    Inacreditável é uma minissérie americana, estrelada por Toni Collette, Merritt Wever e Kaitlyn Dever. Ela foi lançada em 13 de setembro de 2019, na Netflix, e produzida por Susannah Grant, Ayelet Waldman, Michael Chabon, Sarah Timberman, Carl Beverly e Katie Couric. Distribuída em 8 episódios, a série é baseada na reportagem de 2015: “Uma história inacreditável de estupro”, escrita por Christian Miller e Ken Armstrong. Depois, ainda, houve o lançamento do livro “Falsa acusação: uma história verdadeira”, pelos mesmos autores. 

    A trama gira em torno da vida de Marie Adler (Kaitlyn Dever) e de uma série de estupros que acontecem nos Estados Unidos. Na produção, Marie tem 18 anos e é uma menina que, quando criança, foi abandonada pela família, o que a fez passar por diversos lares adotivos e situações traumáticas. Em 11 de agosto de 2008, quando morava na cidade de Lynnwood, Marie foi estuprada por um homem mascarado, que apontava uma faca para seu rosto. 

    Como se essa violência já não bastasse, a vítima passou por outra relacionada ao interrogatório feito pela polícia: foi forçada a contar o abuso repetidas vezes e, ainda, descredibilizada. Os policiais que acompanharam o caso confrontaram tanto a menina que a fizeram duvidar de sua própria história e chegaram a dizer que “poderiam estar nas ruas protegendo pessoas, mas estão ali perdendo tempo com ela”. Irritados e convencidos de que Marie estava mentindo, os policiais a processam por falso testemunho. 

    Tal violação ocorreu devido ao despreparo dos policiais para atender a menina, uma vez que, segundo a visão deles, Marie não apresentava um comportamento que condizia com a violência que dizia ter sofrido. Mas, nesses casos, não há um padrão: cada pessoa pode reagir de uma maneira diferente diante de um ataque/trauma, e isso não deve ser um critério de confiabilidade na vítima.

    Marie foi extremamente prejudicada: teve que ficar sob liberdade provisória, perdeu o emprego, os amigos – que a xingaram por duvidar de sua história – a confiança de seus pais adotivos e precisou pagar uma multa de 500 dólares ao governo. Além disso, sofreu diversos danos psicológicos causados pelo trauma de não ter sido devidamente escutada e respeitada.

    Cerca de três anos depois, as detetives do Colorado Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette), de Golden e Westminster, respectivamente, conduzem investigações sobre um possível estuprador em série, que tem o mesmo modus operandi com suas vítimas. O agressor perseguia apenas mulheres que moravam sozinhas, as atacava pela manhã, estuprava, tirava fotos íntimas delas com uma câmera Cyber Shot rosa e as forçava a tomar longos banhos para eliminar qualquer vestígio de DNA.

    Por meio de uma das vítimas, Amber (Danielle Macdonald), as detetives descobrem pequenos detalhes que o agressor deixou escapar, que as aproximam de descobrir sua identidade. Ele contou a Amber que falava quatro idiomas e era viajado, além de deixar à mostra uma marca de nascença na panturrilha. Com essas informações, chegaram até Chris McCarthy, que tinha sido do exército americano: ao todo, ele recebeu 358 anos de prisão.

    Quando examinavam os pertences do criminoso, encontraram as fotos de todas as vítimas de quem ele tinha abusado, inclusive uma que não reconheciam: Marie. Após averiguar que aquele rosto era de Lynnwood, as detetives informaram a solução do caso para a polícia da cidade, que apenas ali – 3 anos depois – percebeu a violência catastrófica que havia cometido com a vítima. 

    A polícia, então, avisa Marie sobre a foto dela que foi encontrada nos pertences do estuprador e manda um envelope com 500 dólares para reembolsá-la. Revoltada, Marie processa o Estado, recebe uma indenização de 150 mil dólares, e exige um pedido de desculpas formal dos detetives responsáveis pelo seu caso. Com o dinheiro, Marie saiu do estado de Washington e foi trabalhar como caminhoneira, para ter a sensação de liberdade e independência. 

    Infelizmente, o contexto de violência da série relatada não é apenas ficcional, é baseado em um livro que conta a história verídica de Marie Addler, no qual ela é entrevistada por  Christian Miller e Kent Armstrong . Na realidade, Marie sofreu todas as violações citadas ao longo do texto, desde ter sido julgada, por investigadores homens, que seu comportamento calmo não correspondia ao de uma vítima de estupro, a ser processada e forçada a pagar 500 dólares. 

    Além disso, os jornalistas entrevistaram o criminoso Marc O’Leary e lhe dedicaram dois capítulos do livro. Isso porque, segundo Miller e Armstrong, eles pensaram como o FBI: é importante compreender como a cabeça do criminoso funciona, para mostrar como ele reconheceu as falhas no sistema e tirou vantagem disso para escapar por tanto tempo. Os entrevistadores contam que, na entrevista, focaram em descobrir como ele tinha tanto conhecimento sobre o trabalho da polícia e como sabia que, se cometesse um crime em diferentes jurisdições, teria menos chance de ser pego.

    Produções como essa, em que a ineficiência da elite masculina policial é exibida, são extremamente importantes para servir como alerta e tentativa de mudança social. Por exemplo, na cidade de Lynwood, onde aconteceu o caso de Marie, os detetives passaram a receber um treinamento melhor, para evitar que despreparos como esse aconteçam novamente. 

    Como o de Marie, há inúmeros outros casos mundo afora. Apenas no Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, há uma média de 75 mil casos de estupro por ano, o que corresponde a 205 por dia. Desses casos, a grande maioria não chega às autoridades policiais e, quando chegam, muitas vezes, não recebem a devida atenção em razão do sistema que combina poder e machismo. Isto é, que privilegia homens brancos e heterossexuais em cargos de chefia. 

    Esse sistema faz com que os homens, estruturalmente, se sintam proprietários dos corpos femininos, e donos até de suas histórias. A necessidade – tão frequente em casos de abuso sexual – de expor, ridicularizar e humilhar a vítima se dá em razão de tornar a mulher um objeto sexual descartável e inferior ao homem. Somado a isso, a falta de preparo/ interesse de muitos policiais para atender a esse tipo de vítima apenas potencializa a violência sofrida por ela.

    Por Maria Clara Soares

    Serviço:

    Título original: Unbelievable

    Onde assistir: Netflix

    Classificação indicativa: 16 anos (A16)

    Classificação da autora: 16 anos (A16)

    Justificativa: cenas de violência sexual e machismo explícitas, que podem causar gatilhos aos espectadores. 

    Gênero: Drama

  • Sobre ver/não ver imagens de meninas mortas no jornalismo

    Eu navegava no antigo Twitter na última segunda-feira, dia 23 de outubro, poucas horas após o ataque a tiros à Escola Estadual Sapopemba, no qual um jovem de 16 anos matou uma estudante de 17 anos e feriu outras duas – um estudante se machucou na fuga. O assunto dividia espaço com a tradicional pauta da minha bolha na rede social – frivolidades, virais, política, notícias, vídeos de animais, até que me deparei com uma imagem do site jornalístico Metrópoles: era um frame (um quadro, uma captura de tela) do vídeo do ataque. A cena mostra o atirador de costas, vestido de preto, encapuzado. Ele aponta a arma para a cabeça da estudante, de costas para ele, enquanto descia uma escada.

    Após uma escalada recente desse tipo de massacre no país, o jornalismo foi instado a tomar algumas decisões nesse tipo de cobertura, embasadas por estudos especializados. Uma delas é não divulgar o nome do assassino, pois a notoriedade costuma ser um dos objetivos deles. Outra é não exibir imagens ou vídeos dos momentos dos ataques ou dos corpos das vítimas. Além da revitimização brutal das famílias, há a profanação desses corpos inocentes.

    Daí meu espanto, horror, abjeção a essa imagem escolhida pelo Metrópoles para ilustrar o post (e o texto da matéria). Enquanto escrevia este texto, cliquei novamente no link e o post foi excluído. As imagens que agora constam na reportagem são da polícia na frente da escola e do prédio da instituição. Contudo, um vídeo perturbador de uma briga na escola anterior ao ataque, que contaria com o envolvimento do adolescente, continua lá (com o aviso de imagens fortes e imagens borradas).

    A conta do Metrópoles no ex-Twitter tem 1,9 milhão de seguidores. Não é possível saber quando a imagem foi excluída, quantas pessoas a viram na rede ou no site do veículo. Eu a vi. E, desde então, ela ressurge e ressurge de modo fantasmático, me assombrando como o tiro que não vi, mas sei que estava lá.

    No ensaio O alcance do luto, sobre o conflito na faixa de Gaza, a filósofa Judith Butler escreveu recentemente que “a violência que vemos é a única que conhecemos”. O Metrópoles pode dizer que não exibiu os tiros, que não havia sangue na imagem; que era apenas um instante anterior. Nada disso exime o veículo pela insistência em nos oferecer imagens de uma violência que conhecemos profundamente, cotidianamente. Pelo noticiário, pelas redes, pelas séries, pelos filmes.

    Meninas são mortas todos os dias no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, 16,1% das vítimas de feminicídio no país têm até 24 anos. Nos demais tipos de homicídios, as meninas somam 30,7% das vítimas. Em um processo de retroalimentação perverso, a mídia nos exibe essas meninas mortas, mas também mata meninas todos os dias. Vítimas preferenciais de seriados policiais, filmes de horror, corpos de meninas violentadas estão em contínuo display midiático.

    Por isso, a perspectiva de que a violência não estaria ali, naquela imagem, é enganadora. Não há tiro ou sangue, mas há ali um homem apontando uma arma para um corpo feminino, que não tem nenhuma possibilidade de reação (uma cena a que já assistimos vezes demais).

    Mais do que isso: nenhuma de nós precisa ver o tiro; por conhecermos intimamente essa violência, já sabemos do porvir daquela imagem, fabulamos o disparo e tudo que virá/veio com ele. O jogo entre ver/fabular aqui é cruel e não aponta para nenhuma saída além ou fora da violência.

    Assim, a violência dessa imagem pretensamente inócua atinge novamente Giovanna Bezerra, sua família. Me atinge como mãe, pesquisadora, mulher, feminista. Nos atinge continuamente pela banalidade com que um corpo-a-ser-morto de uma menina é circulado nas redes sociais.

    Qual seria a explicação para a escolha desta imagem? Que critérios teriam sido usados para exibir aquele frame, aquela cena carregada de violência misógina, em uma reportagem e nas redes sociais? As dificuldades do fotojornalismo contemporâneo em produzir (ou selecionar) imagens que deem conta da complexidade desses eventos violentos são evidentes, mas certamente não podem ser contornadas por saídas fáceis como o congelamento de uma imagem que contém uma expectativa de morte.

    Se o jornalismo não quer fazer parte desse circuito escópico que nos dá a ver violências em série contra meninas, é preciso um gesto veemente de recusa desse tipo de imagem em nome da ética jornalística, da afirmação da potência de vida para essas meninas, do compromisso com um luto digno a esses corpos.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • “A Lição de Moremi”: a procura por justiça gera revitimização

    Personagem Moremi em cena do filme.

    O filme A Lição de Moremi é baseado em fatos e inspirado no documentário Sex for Grades, do programa de TV investigativo Africa Eye, no qual jornalistas se disfarçaram de estudantes para registrar casos de assédio sexual por professores que ofereciam a troca de sexo por notas maiores em universidades da Nigéria e de Gana. No filme, a personagem principal, Moremi, é assediada sexualmente por seu orientador, mas omite os acontecimentos por medo, até que ele tenta estuprá-la e ela decide denunciar.   

    O filme é nigeriano e embora seja longo e eventualmente cansativo, consegue mostrar aspectos pouco explorados dos países africanos, como as universidades e o sucesso de pessoas que raramente são destacadas em projetos de audiovisual, além de retratar um tema que precisa ser mais discutido. Disponível na Netflix, a narrativa do longa se divide entre o passado e o presente. No passado acompanhamos flashbacks dos momentos que antecedem a denúncia, Moremi iniciando seu mestrado e lá conhece o renomado professor Lucien N’Dyare, que se aproxima muito dela ao longo da trama. No presente, acontece a audiência organizada pelo Conselho da Universidade para tratar o caso. Nessa parte vemos Moremi passar pelo julgamento sozinha, sem apoio de amigos ou pessoas próximas. Ao andar pela universidade, recebia olhares de desaprovação. Porque o professor, além de ter um extenso currículo em diversas universidades, era querido por todos os alunos e professores da instituição. 

    O documentário que inspirou o filme expõe os assédios sexuais e abusos de poder dos professores do ensino superior nas universidades da Nigéria, mas no Brasil não é diferente. São muitos os casos de violência no ambiente acadêmico, principalmente em relações hierárquicas entre docente e discente ou orientador e orientanda. Em A Lição de Moremi, Moremi não foi a primeira a ser assediada pelo professor N’Dyare, mas foi a primeira a denunciar. A relação de hierarquia no ambiente acadêmico é um dos motivos que dificulta  as denúncias, pois a palavra da vítima, comparada à palavra do assediador, não tem credibilidade. Acompanhar a trajetória de Moremi na Justiça é angustiante pois fica um sentimento de que no final o professor irá sair impune, mas diferente do esperado, N’Dyare é considerado culpado, não só do caso de Moremi mas de outros também, e é demitido da universidade.

    Porém, diferente do filme, na vida real a maioria dos acusados não saem como culpados ou são punidos no fim. Professores que já foram processados por assédio moral ou sexual continuam com seus cargos e às vezes os casos, ou o nome do abusador, nem vão a público. Em julho de 2023, a CNN publicou um levantamento sobre o quadro de denúncias de assédio sexual contra professores nas universidades brasileiras que indicam que apenas 6% dos processos resultaram em demissões dos docentes acusados desse tipo de conduta.

    Tendo isso em vista, não é difícil entender porque poucos casos são denunciados formalmente ou vão a julgamento, pois o processo de denúncia, além de revitimizar as vítimas, não pune ou divulga o nome do agressor.

    Ana Luiza Rodrigues

    Serviço:

    Título do filme: A Lição de Moremi

    Diretor: Kunle Afolayan

    Lançamento: 2020

    Onde assistir: HBO Max 

    Gatilhos: Violências sexuais, estupro, tentativa de estupro. 

    Classificação indicativa: 16 anos (A16)

    Minha classificação: 16 anos (A16)

    Gênero: Drama.

  • Relações Humanas X Relações Republicanas 

    Estar em um ambiente que nos causa desconforto é, logicamente, péssimo. Mas, acima disso, estar nesses lugares, com pessoas que tornam tudo pior, é como uma violência contínua para nós mesmas. 

    Situações assim já aconteceram comigo, em que nas “sociais” – momentos de interação entre duas ou mais repúblicas – os homens sentiam-se à vontade para fazer comentários ou até mesmo atos, como toques em meu corpo – o que hoje, entendo como assédio. Mas estar em eventos como esses eram obrigatórios para a estadia na casa, ainda que eu afirmasse meu desconforto e descontentamento.  

    Em uma noite de social, todas nós estávamos animadas e prontas para receber nossos convidados. Porém, quando eles chegaram, a conversa não fluiu e um ar de estranhamento pairou no ar. Me vi encurralada na sala de casa, com pessoas sem entrosamento que já me olhavam de forma esquisita. Ao final, beijei sem vontade, assim como minhas colegas, mas a sensação de desgosto ainda estava lá. 

    Apesar de tudo ser normalizado por pessoas ao meu redor, eu não era a única que me incomodava. Outras meninas relataram outros desconfortos com um mesmo grupo de meninos. No entanto, ao falar coletivamente sobre isso, foi ignorado e, ainda sim tínhamos que socializar e tratar com naturalidade aqueles que nos assediaram. 

    Fico refletindo sobre as relações que são estabelecidas no eixo Mariana e Ouro Preto, pois, afinal, o que importa mais, as Relações Humanas ou as Relações Republicanas? 

    Desde 2018 o Ariadnes escuta relatos anônimos sobre assédio.

  • Infantilização no protagonismo feminino de heroínas sob pressão

    Uma menina não branca de cabelos longos castanhos e lisos, presos em três laços, olha para frente enquanto usa as mãos para controlar água de um lado e fogo do outro formando um círculo.
    Korra em cena da animação

    Em Avatar: A Lenda de Korra, série de animação de 2012, acompanhamos a trajetória de Korra, jovem que vive em um mundo em que existem pessoas denominadas como dobradores (capazes de dominar um dos quatro elementos naturais) e não dobradores. Dentro desse universo, ela se enquadra como sendo uma Avatar, ou seja, alguém que consegue dominar os quatro elementos, além de ser responsável por manter o equilíbrio entre o mundo espiritual e o físico. Ao longo das 4 temporadas com cerca de 13 episódios cada, vemos a personagem em processo de amadurecimento, enquanto se torna uma adulta e enfrenta diariamente situações envoltas em muita violência para conseguir manter a paz no mundo.

    Korra é uma menina bissexual não branca. Pertencente à tribo da Água do Sul, ela é enxergada como alguém fora dos padrões por não performar a feminilidade da maneira esperada, pois além de se interessar muito por lutas, sempre está defendendo de forma assertiva o que acredita. Apesar de carregar a grande responsabilidade de ser uma “Avatar”, e logo, ter que dia após dia se preocupar em proteger o mundo de todas as formas possíveis. Acontece que mesmo sendo uma heroína, ela é vista como uma pessoa imatura e infantil, alguém que “explode” fácil e que se deixa levar pelas emoções. Algo que é relevado quando outros personagens têm a mesma atitude, como no caso de Bolin, um homem branco amigo da protagonista, que quando faz coisas semelhantes a ela, é apenas tomado como uma pessoa “engraçada”, enquanto no caso de Korra asa atitudes são interpretadas como uma espécie de defeito, que fazem com que ela seja vista de modo negativo. 

    O que nos leva ao que é dito por Lélia Gonzalez no livro Por um feminismo afro-latino-americano sobre o conceito de infância/infantilização e silenciamento, quanto ao tratamento recebido por mulheres como Korra: “O conceito de infans é constituído a partir da análise da formação psíquica da criança, que, quando falada por adultos na terceira pessoa, é, consequentemente, excluída, ignorada, ausente, apesar de sua presença. Esse discurso é então reproduzido e ela fala de si mesma na terceira pessoa (até o momento em que aprende a mudar pronomes pessoais). Do mesmo modo, nós, mulheres e não brancas, somos convocadas, definidas e classificadas por um sistema ideológico de dominação que nos infantiliza”. 

    O que significa que por conta das intersecções que compõem a protagonista, muitas vezes ela é descredibilizada ou inferiorizada, tendo sua voz vista como não responsável o bastante em alguns momentos para exercer o papel de avatar. Essa volta à “infância” como modo de atribuir características imaturas a Korra é tão presente que, em uma das últimas temporadas, quando a protagonista enfrenta um dos momentos mais difíceis da série indo ao mundo espiritual, ela literalmente volta a ser uma criança. Durante o período que passa nesse lugar, ela se sente extremamente vulnerável, e por isso sua forma corporal muda para representar esse momento, marcando não só a associação dela como sendo uma pessoa “infantil”, como também atrelando a vulnerabilidade como uma característica da infância.

    Por Lívia Labanca

    Serviço:

    Título original:  Avatar: A Lenda de Korra

    Onde assistir: Netflix

    Classificação indicativa: 10 anos (A10)

    Classificação da autora: 12

    Gênero: Animação

    Gatilhos:  violência de gênero, agressões físicas, manipulação, tortura e sequestro.

  • “Práticas Terapêuticas e Políticas de Enfrentamento ao Assédio”: quarta live da Campanha #AssédioZero

    Imagem: Captura de Tela da live

    As estratégias de enfrentamento, práticas terapêuticas e escuta atenciosa são elementos essenciais no combate ao assédio, e esse foi o tema da quarta Live da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas (RBMC), que faz parte da Campanha #AssédioZero. As participantes nos fazem uma recapitulação de lives anteriores e nos alertam para maneiras de combater esses casos. 

    Ela foi transmitida no dia 28 de setembro, em que é comemorado o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto – ponto ressaltado por uma das pesquisadoras presentes na união dessas lutas –, pelo Canal do Youtube da RBMC. A mediação foi realizada por Juliana Arruda, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e teve participação de Maria Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP), e Beatriz Wey, também da UFRRJ. 

    Durante a conversa, a professora Maria Ribeiro nos faz um panorama do que foi anteriormente discutido nas lives da campanha, sobre quem são os corpos subalternizados e como os direitos são retirados dessas pessoas – principalmente mulheres pretas, mulheridades, entre outras. Ela relembra ainda que o assédio se dá por relações de poder em que, infelizmente, os assediadores estão em locais de privilégio e pertencentes aos núcleos de decisão. 

    Além disso, Beatriz nos traz a informação de que o assédio é algo recentemente estudado – segundo ela, somente nos anos 80 começou uma produção sobre essa prática –, que, no entanto, pode ser observada como “naturalizada” pelas mulheres em diversos ambientes. Isso não é ao acaso, claro, tendo em vista que vivemos em uma sociedade machista e misógina que coloca as mulheres como seres subalternizados, o que as faz “normalizar” e passar por cima de situações como essas. 

    E, sendo assim, ao sermos expostas a diversos tipos de assédio, não somos encorajadas a denunciar e protestar contra, por saber como a sociedade se porta e saber que vamos perder espaço no mercado de trabalho, universidade, escola, etc. Por isso, a educação vem como esse fator chave na prevenção e controle do assédio, pois quando sabemos do que se trata, podemos agir de forma mais rápida e precisa. 

    As cientistas nos relembram de que as leis não dão conta da complexidade humana, pois, no dia a dia, acontecem uma série de eventos que nos distanciam da normalidade jurídica. No entanto, com a disseminação de informações de qualidade e verdadeiras, é possível alcançar um panorama ideal em que as denúncias de assédio são feitas e os assediadores responsabilizados.

    Para isso, é preciso desfazer algumas visões pré-concebidas do ambiente universitário, por exemplo, de que é um local de neutralidade e sem violências, por exemplo. Ao contrário disso, esses ambientes são compostos por pessoas que estão no mesmo mundo machista, logo, possuem reflexos e ações tão péssimas quanto. Estamos constantemente procurando um “lado de lá” para culpar, mas esse lado é o que já estamos. 

    O assédio adoece todos em sua volta, desde a vítima até o assediador, por isso, são necessárias ações dentro de um processo sistemático do enfrentamento dessa prática, que necessita de uma estrutura completa. É por meio da escuta, de ações como ouvidorias femininas, professores e professoras aliadas e um sistema de responsabilização eficaz que quebra esse ciclo do assédio.  

    Elas nos alertam, por fim, da necessidade do cuidado com quem presta esse suporte e, parafraseando o filósofo alemão citado por elas: “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” (Nietzsche). 

    Dessa forma, cuidemos de quem sofre assédio, de quem o combate e, quem sabe, por meio do afeto, mudar ações de possíveis assediadores que rompem com esse ciclo. 

    Serviço:  

    Título da Live: “Assédio na universidade pública: práticas terapêuticas e políticas de enfrentamento e acolhimento”

    Participantes: Juliana Arruda, Maria Ribeiro e Beatriz Wey.

    Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eze2Cj8RjG0 

    Minha classificação: A live aborda temas difíceis e sensíveis, com representações de violência e assédio. Não é indicado assistir com crianças.

    Texto por Lia Junqueira.