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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Por mais meninas cientistas na animação infantil
Desde 2015 o mundo comemora em 11 de fevereiro o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data, instituída pela ONU, incentiva o reconhecimento do papel fundamental das mulheres e meninas na ciência e na tecnologia, especialmente diante dos números baixos de mulheres dedicadas às STEM – ciências, tecnologia, engenharia e matemática.
Para as meninas, especialmente, o cenário historicamente não é animador. As representações típicas de “cientista” disponíveis a crianças eram masculinas. Dexter, o cientista, e DeeDee, a irmã chata (e hiper feminina). Phineas e e Ferb e a irmã mais velha dedo-duro, Candace… A lista é enorme e não vale a pena relembrá-la.
Em vez disso, vamos focar em alguns modelos contemporâneos de representações que apresentam meninas cientistas:



Ada Batista, cientista (Netflix, livre) é protagonizada por uma pequena cientista negra, sempre ajudada pelos melhores amigos.
O laboratório Secreto de Thomas Edison (AppleTV, livre), em que uma gênia de 12 anos, Angie, e os amigos usam o laboratório secreto criado por Edison.
O Show da Luna (Prime Video, livre) é uma animação nacional em que Luna e seu irmão, Júpiter, aprendem sobre ciência e natureza a partir de experiências cotidianas.
Os exemplos ainda são poucos, né? E isso é significativo. As mudanças vêm, mas são lentas. Mais lentas que deveriam, para transformar o panorama da presença feminina na ciência.
Por que é importante assistirmos a meninas protagonizando animações como cientistas? Porque historicamente o papel das personagens femininas em animações infantis ou é de coadjuvante aos homens brilhantes ou, pior: de inteligências menores que servem para ressaltar a genialidade masculina em comparação.
Se a infância é um momento tão importante para a construção de subjetividades, para o tensionamento de estereótipos de gênero, a animação infantil é um espaço privilegiado para desafiar a norma. Por mais meninas na ciência. Na animação e na vida.
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Azul é a cor mais quente: fetiche masculino disfarçado de representatividade sáfica

Créditos: cena do filme Azul é a cor mais quente é um filme francês, lançado em 2013 e dirigido por Abdellatif Kechiche. Com três horas de duração, o longa trata sobre o romance entre Adéle (Adèle Exarchopoulos), uma professora infantil, e Emma (Léa Seydoux), uma pintora que trabalha para expor suas artes em exposições.
No início da trama, Adèle se relaciona com um homem, mas percebe que, na verdade, não se sente atraída. Então, ela entra em um período de autodescoberta e conhece Emma, uma mulher de cabelo azul que chama bastante sua atenção. Depois disso, a professora começa a questionar sua orientação sexual e a fantasiar como seria um relacionamento com Emma.
Mas Adèle não passa por esse processo alheia ao preconceito: suas “amigas” praticam bullying com ela por ela ter ido a uma boate gay e começam a questioná-la sobre já ter sentido atração por elas enquanto trocavam de roupa. A discriminação é tamanha que Adèle fica confusa e se sente pressionada a negar seu processo de autodescoberta.
Infelizmente, esse contexto não se limita à ficção: como mulher lésbica, sei que o processo de autodescoberta pode ser confuso e, muitas vezes, solitário. Mas, voltando ao filme, Adèle começa a se relacionar com Emma e o longa retrata bastante as diferenças entre suas respectivas realidades e famílias. Enquanto Emma tem uma família que acolhe o casal, Adèle é filha de pais conservadores, que acreditam que a relação das duas se restringe à amizade.
Uma questão muito forte no filme são as excessivas cenas de sexo entre as personagens. Cenas tão frequentes, explícitas e claras que chegam ao ponto de deixar o espectador constrangido e desconfortável. Além disso, as atrizes revelaram em entrevista que sofreram diversos abusos nas gravações, desde serem forçadas a gravar as cenas de relação sexual por 10 horas seguidas, quando já estavam machucadas e sangrando, a terem seus corpos tocados pelo diretor, que “queria mostrar como era para ser feito”.
Ainda, Adèle comentou que se sentiu muito humilhada, vulnerável e exposta. Ela conta que teve que fingir um orgasmo por seis horas e, depois desse filme, ficou traumatizada em relação a protagonizar cenas de sexo.
O longa é, claramente, para satisfazer os olhares masculinos sobre os corpos de mulheres lésbicas: os movimentos de câmera lentos e romantizados sobre as personagens, as cenas explícitas e detalhadas de seus corpos, além do fato de serem mulheres brancas e magras, consideradas socialmente como “dignas de prazer”.
O filme poderia acrescentar muito socialmente, no sentido de trazer representatividade a mulheres lésbicas, mas, infelizmente, não foi isso que aconteceu: a produção apenas fetichizou os corpos de mulheres e as tratou como objetos sexuais. Dias atrás, por exemplo, conversei com uma amiga sobre essa produção e uma das frases ditas por ela me marcou. “Eu sei que o filme é péssimo, mas, por muito tempo, foi o que eu tive acesso como representatividade sáfica.”
Depois disso, fiquei pensativa sobre quantas meninas, assim como minha amiga, também se basearam nesse filme como uma forma de se entender e afirmar sua orientação sexual. Foi aí que tive a ideia de pesquisar as críticas da produção e, não surpreendentemente, a maioria dos resultados que encontrei foram de homens heterossexuais expondo sua misoginia, discriminação e fetiche erótico.
O Bruno, por exemplo, comentou na aba de críticas do site “adorocinema.com”: “ótimo filme! Talvez cause estranheza pras tias da assembleia, mas ninguém liga pra elas mesmo”.
Enquanto Romildo dá um “conselho” aos futuros espectadores: “Deveriam fazer o 2° filme. Recomendo assistir com sua companhia”.
Em meio a tantos comentários machistas e sexistas, encontrei o de Clara: “Achei horrível, só tem sexo. Cadê o amor? Não vejam isso, apenas se forem sexualizar as lésbicas! machistas e homofóbicos”.
Esses comentários deixam claro o quanto, estruturalmente, estamos inseridas em um sistema no qual as mulheres são sexualizadas e objetificadas como corpos com as únicas e exclusivas funções de dar prazer e servir aos homens. Homens esses que se sentem proprietários dos corpos femininos, de suas histórias e de suas experiências.
Além disso, o comentário de Clara – um dos poucos que fizeram uma crítica negativa ao longa – explicita o quanto grande parte das pessoas que está atenta a questões de violência de gênero é mulher, uma vez que, provavelmente, essa espectadora, assim como muitas, se sentiu incomodada e tocada ao ver o abuso que as personagens estavam sofrendo. Já os homens, infelizmente, pouco pensam nessas questões, muito pelo contrário, elas sequer são relevantes ou minimamente interessantes para a maioria deles.
Ah, e outro fator importante a ser comentado é que mesmo o filme contendo todos esses abusos e sofrimentos femininos, arrecadou 8 milhões de dólares na bilheteria da França e ganhou o prêmio Palma de Ouro em 2013. Afinal, para os grandes produtores e diretores, pouco importa o sofrimento de duas jovens atrizes, violentadas e vulneráveis.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: La vie d’Adèle
Onde assistir: Prime video
Classificação indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: Muitas cenas de relação sexual ao longo do filme, que, na verdade, são cenas de violência sexual a que as atrizes estavam sendo submetidas nas gravações.
Gênero: Drama e romance
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Por que as pessoas trans estão constantemente ligadas à violência?

Foto: Lia Junqueira No dia 19 de janeiro, Lua, Zuri e sua irmã, que não teve o nome divulgado, foram agredidas em uma casa de samba na Lapa, Rio de Janeiro, a “Casa do Firmino”. No local, as vítimas sofreram intimidações e constrangimentos e, além disso, não tiveram qualquer chance de se defender e foram hostilizadas inclusive por seguranças da casa noturna. O motivo? Duas delas são mulheres trans.
Com o intuito de preservar não somente a identidade dessas mulheres, mas também como forma de preservar mais uma vez suas integridades físicas, preferi não republicar as fotos desses corpos feridos. Sendo essa uma forma de (re)violentar e reviver traumas com os quais elas já estão lidando diretamente.
O Brasil lidera o ranking de países que mais mata pessoas trans no mundo e esse caso foi mais uma prova dessa virulenta realidade. Eram cerca de 30 homens batendo, chutando e tentando assassinar três mulheres, com uma única motivação: havia duas mulheres trans ali. Mas por que isso? Por que toda essa violência?
Não tem uma resposta certa para algo tão brutal como esse caso e tantos outros assassinatos de pessoas trans no país. No entanto, é possível traçar alguns caminhos que constroem e fomentam esse tipo de agressão por aqui – e também no mundo. Um conceito que pode ser abordado é o da “masculinidade hegemônica”, em que homens possuem privilégios e poder sobre as demais pessoas e demonstram isso com a força, virilidade e domínio másculo. Além disso, é traçado um ideal de como esse mundo deve funcionar: hétero, cisgênero e branco – qualquer coisa que fuja, está condenada.
Dessa forma, existe uma pedagogia da sexualidade e também dos corpos, como afirmado pela autora brasileira Guacira Lopes Louro em sua obra O corpo educado, que nos faz aprender e performar de acordo com essas “normas” impostas pela sociedade patriarcal. Porém, quem não possui essa performidade heteronormativa e cisgnênero, por exemplo, enfrenta uma realidade dura e penosa para sobreviver.
Propondo uma reflexão, o sistema em que estamos inseridas está errado ou, de fato, devemos encaixar todas as pessoas em lugares que, muitas vezes, não as cabem? Acredito que a resposta seja um tanto quanto fácil, porém, a solução precisa perpassar muitas coisas. As notícias de Lua e Zuri me fizeram relembrar um caso brutal de violência contra uma mulher trans, Dandara, que foi assassinada em sua cidade e o vídeo de sua morte circulou pelas redes sociais por todo o Brasil.
Enquanto esse corpo já estava morto, ele era assassinado mais e mais vezes enquanto as imagens de sua morte circulavam. Dessa maneira, Dandara era (re)violentada e (re)assassinada. Mas o que os casos têm em comum para além de serem mulheres trans? Bom, a reprodução de uma série de violências vai passando de um indivíduo para o outro até tomar uma proporção gigantesca – assim como observamos a vida “sem peso” de pessoas trans por aqui. Não só sem peso, mas também são vidas nuas, das quais são retirados os direitos, como propõe o pesquisador Carlos Magno Camargos Mendonça.
Sendo assim, o local de morte, agressão e direitos violados é constantemente atrelado a esse grupo, o que é reafirmado pela mídia, pela polícia, pela cultura e tantos outros, nos fazendo acreditar nessa falsa verdade. É preciso desmistificar e, de fato, reconstruir a dignidade e direito à vida de uma pessoa trans.
O dia 29 de janeiro é marcado como o “Dia da Visibilidade Trans”, em que é fundamental ouvir e aprender sobre como valorizar, respeitar e celebrar esses corpos e essas vidas. A violência não pertence a esse grupo, assim como não pertence às pessoas LGBTQIA+ ou às mulheres.
Por Lia Junqueira.
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Um olhar gendrado sobre a série “The Fall”

The Fall é uma série policial anglo-irlandesa lançada em 2015 e dirigida por Jakob Verbruggen. Com 3 temporadas e 17 episódios, o seriado trata sobre Paul Spector (Jamie Dornan), um serial killer e stalker, que persegue e assassina mulheres de um mesmo padrão: jovens, pele clara, cabelos morenos e que tenham uma posição de prestígio social.
A tortura começa com a primeira etapa do plano de Paul: a invasão. Ele invade a casa da vítima e rouba uma peça íntima para colecionar como lembrança da “conquista pessoal” que virá a seguir, o assassinato. Ao perceber que um item está faltando, as mulheres ficam apreensivas e em estado de alerta, o que deixa tudo ainda mais divertido e fascinante para o assassino.
Depois, vem a segunda invasão, mas essa, com o intuito de agredir e depois assassinar. As violências de Spector não se encerram no feminicídio; na verdade, este é o momento em que o psicopata começa a ter suas vítimas da forma como as quer: inconscientes, vulneráveis e completamente ao seu dispor. Ele as penteia, corta seus cabelos, pinta as unhas e as trata como se fossem verdadeiras bonecas. Por último, tira e coleciona fotos extremamente romantizadas dos corpos sem vida e moldados esteticamente para sentir prazer.
Ao contrário do perfil do psicopata construído no imaginário social de ser agressivo, violento e infrator de leis, Paul se escondia atrás da fachada de um homem de bem: responsável, pai de dois filhos, marido e psicólogo, o que deixou o caso mais complexo para as autoridades. Então, para solucionar os crimes ocorridos em Belfast, a investigadora responsável pelos casos, Stella Gibson (Gillian Anderson), também protagonista, trabalha a fundo para descobrir a identidade do assassino em série.
Há várias situações de embate entre os personagens Spector e Stella, como se o enredo fosse construído para ter confrontos entre dualidades: homem e mulher, bem e mal, crime e justiça. Quando questionado pela detetive sobre a motivação para cometer crimes tão violentos contra mulheres, Paul justifica que “sente-se renovado, como se corpo acendesse uma luz e ele tivesse posse completa sobre um corpo”, e caracteriza os feminicídios como “fantasias sexuais”.
Esse tipo de associação entre violência e suposta realização sexual é comum, infelizmente, não só na ficção como na realidade também. É como se, para os homens e a sociedade patriarcal, “vale tudo”, inclusive e principalmente a violência de gênero, como agressão, assédio, estupro e até o feminicídio, em prol do prazer sexual masculino. É o resultado de uma sociedade misógina que intitula os homens como donos e proprietários dos corpos femininos.
Em The Fall, embora a detetive seja bastante sexualizada, objetificada e constantemente vítima de assédio por seus colegas de profissão, é construída como uma personagem forte e bem resolvida em relação à sua imagem e seu desejo sexual. Ainda, sempre se impõe contra a violência de gênero que sofre, e sua inteligência e alta capacidade de lidar com os crimes que investiga são pontos de destaque na série.
Uma outra característica que diverge da norma social é que, de acordo com o artigo “Stella Gibson: Luminescência na escuridão invisível”, de Karina Gomes Barbosa e Rafael Pereira Francisco, na série, existe o mesmo modelo de domínio-submissão que na realidade, mas em The Fall, é a protagonista feminina quem ocupa o lugar de dominação, fugindo, assim, do estereótipo feminino de fragilidade física e emocional. Ainda, os autores complementam:
“A partir da afirmação de sua própria feminilidade, Stella articula desejo, poder e posição de sujeito no enredo, e erotiza, quando deseja, o masculino com seu olhar e suas ações”.
Mas, em contrapartida, como em diversos filmes e séries que têm mulheres empoderadas como protagonistas, a personagem Stella é punida por seu “atrevimento” e agredida com ódio e brutalidade pelo feminicida, após confrontá-lo sobre uma falsa perda de memória. Esse tipo de narrativa colabora para construir no imaginário social que mulheres fortes, empoderadas e defensoras de seus direitos serão penalizadas pela sociedade. Implicitamente, transmite a mensagem de: fiquem submissas, quietas e vulneráveis.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: The Fall
Onde assistir: Plataforma Vizer
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: Cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Policial
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Eu sou “A Pior Pessoa do Mundo” por fazer minhas próprias escolhas?

Cena do filme “A pior pessoa do mundo” O título causa impacto e curiosidade, afinal, quem é a pior pessoa do mundo? Nesse caso, seria Julie, personagem interpretada por Renate Reinsve, que está na casa dos 30 anos e enfrenta diversos processos da vida, como relacionamentos, estudos, carreira acadêmica e trabalho.
O filme norueguês, lançado em 2021 com a direção de Joachim Trier, conta com o aspecto das mudanças fortes e constantes da personagem principal, Julie, e as pessoas ao seu redor como principal fio narrativo da história. Ao observarmos as alternâncias não só de estilo de vida, mas de uma certa personalidade, vemos a angústia que se desenrola por não saber, ao final das contas, aonde ela deseja chegar.
No entanto, isso não quer dizer que ela é uma mulher frustrada, necessariamente, e sim que está passando por um conflito consigo mesma, quando estamos indecisas e inseguras do que temos ou para onde vamos – faço aqui a ressalva de que o filme trata de uma mulher branca, cisgênero, europeia e inserida na heteronormatividade, o que leva a personagem para um local de extremo privilégio.
O que a narrativa nos faz enxergar é que, levando-nos até a história ancestral de Julie, vemos que as mulheres de sua família não puderam escolher, nem ao menos foram instigadas a isso. Elas, ainda que com um possível desejo de mudança, seguiram à risca as normas que regiam suas épocas, com filhos e casamentos “felizes”.
A pior pessoa do mundo traz esse desconcerto entre a tamanha liberdade de escolha e o pleno gozo dos direitos de ser quem somos, após anos de conquista de algumas coisas básicas como voto, educação, trabalho, entre outros. E, em oposição a isso, o panorama que Julie tem sobre as mulheres à sua volta, que tiveram suas escolhas podadas por um determinado sistema que dita – ou ditava – o que elas podiam ou não fazer.
A crise existencial que permeia nossas vidas e juventudes se dá como uma das principais oponentes da suposta certeza que nossas mães, por exemplo, tinham no casamento. Certeza que não prometia garantir felicidade, mas status e estabilidade. No entanto, quando bell hooks fala em sua obra O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras sobre a importância da tomada de controle da própria narrativa das mulheres e da necessidade da compreensão geral disso, acredito que se relacione com o que Julie enfrenta.
Ela está perdida no meio de tantas opções, e nem de longe está errada por isso, até porque não devemos ser condenadas por nossas decisões. Mas, neste momento, suas expectativas a alimentam de uma maneira controversa, que dizem sobre suas paixões, seus cargos profissionais e seu sucesso.
A pior pessoa do mundo é sobre o mundo real de frustrações e de um longo caminho trilhado com direitos para que nós, mulheres, possamos ter a escolha e possibilidade de diversas frustrações, e não somente de amores passivos e, supostamente, tranquilos. Assim como no drama, a realidade nos ensina que a vida é penosa e complicada, mas que a mudança pessoal é algo que podemos promover de acordo com nossas vontades.
As lágrimas que derramei ao longo do longa metragem norueguês refletem a angústia de sermos tão pequenas e tão libertas num mundo cruel e exaustivo. Nem por isso sou a pior pessoa do mundo, nem mesmo a melhor, óbvio. Mas a capacidade de comparação junto com a liberdade de escolha me faz “fritar” nessa ideia de ser pior em tudo, de ser menos e de ser insuficiente, porém, isso não é reflexo da incapacidade de mulheres em lidar com tudo isso, e sim de um modelo capitalista e patriarcal que nos massacra a cada decisão tomada.
Por isso, de acordo com bell hooks, não existe uma luta que não esteja entrelaçada à outra, nenhuma luta está só, pois, são levados em conta diversos fatores, como o gênero, sexualidade, raça e classe, por exemplo. A interseccionalidade precisa ser considerada em todas elas e levar em conta a justiça social em seus eixos. Para que não só a minha luta pessoal evolua, mas também para buscar a compreensão de outros grupos, contendo crítica e avanço dessas pautas.
Serviço:
Título original: A Pior Pessoa do Mundo (The Worst Person in The World)
Onde assistir: Amazon Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Gênero: Romance/Drama
Por Lia Junqueira.
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Anjos do Sol: a dura realidade da exploração sexual infantil no Brasil

Créditos da imagem: cena do filme Anjos do Sol é um filme brasileiro, lançado em 2006 no cinema e dirigido por Rudi Lagemann. Com 90 minutos de duração, o longa trata sobre a questão do tráfico e exploração sexual de meninas e adolescentes por meio da personagem Maria (Fernanda Carvalho), que aos 11 anos, morava no interior do Maranhão quando foi vendida por sua família a um recrutador de prostitutas.
A família, de baixa condição financeira, não sabia desse recrutamento, achava que Maria iria para uma família que lhe daria melhores condições de vida. A menina, então, foi novamente vendida em um leilão de adolescentes que nunca tinham tido relação sexual e enviada a um prostíbulo localizado na Floresta Amazônica. Lá, conheceu Inês (Bianca Comparato), que era um pouco mais velha, mas também vítima da exploração sexual infantil.
As personagens viraram boas amigas, faziam o possível para proteger uma a outra no prostíbulo e, cansadas de serem tão abusadas e estupradas por inúmeros homens toda noite, resolveram fugir. Andaram por uma noite inteira, sujas, machucadas e famintas e, quando finalmente pararam para descansar, foram raptadas novamente pelo cafetão Saraiva (Antonio Calloni), que prometeu castigá-las e usá-las como “exemplo”, para que as outras meninas não cogitassem fugir.
O cafetão amarra as mãos de Inês em uma corda, que está presa no fundo do carro, e a arrasta pelo chão até a morte, enquanto todas as outras meninas, inclusive Maria, são obrigadas a assistir a essa cena de horror. Para mim, essa é a cena mais pesada do filme, uma vez que, além da brutalidade com que o feminicídio é praticado, ainda é muito cruel imaginar a maneira como Maria se sentiu ao ver a amiga sendo morta.
Depois disso, Maria continuou sendo vítima de inúmeros abusos por mais alguns meses, mas decidiu tentar fugir novamente e pediu ajuda de sua amiga Celeste (Mary Sheyla), que também era explorada sexualmente e estava grávida. Celeste deu à Maria o contato de uma mulher que morava no Rio de Janeiro e supostamente lhe ajudaria, mas na realidade, o número era de Vera (Darlene Glória), dona de outro prostíbulo.
Dessa vez a fuga foi bem sucedida, mas, após cruzar o Brasil, chegar ao Rio de Janeiro por meio de caronas clandestinas e descobrir que estava sujeita à mesma situação, Maria foge pela última vez e o filme termina com a jovem pedindo carona na pista e sendo coagida a vender seu corpo em troca. Com esse final, a mensagem passada é que, diante do contexto de total vulnerabilidade social que a personagem viveu ao longo de sua vida e de todas as violências a que foi submetida sem ter ninguém que a acolhesse, ela não tinha outra alternativa.
Infelizmente, o contexto da produção não se limita à ficção: o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de exploração sexual de crianças e adolescentes. De acordo com dados do Instituto Liberta – organização social que trabalha pelo fim da violência sexual infantil – os números estão em torno de 500 mil vítimas por ano e 320 por dia. No entanto, levando em conta que apenas 7 em cada 100 casos são denunciados, esse número pode ser bem maior. Ainda, o estudo feito pelo instituto esclarece que 75% dessas vítimas são meninas, e em sua maioria, negras.
Esse perfil das vítimas é muito esclarecedor, uma vez que, devido ao sistema patriarcal e misógino, os corpos femininos são sexualizados e objetificados desde a infância, além de serem vistos como propriedades dos homens. Além disso, a estrutura racista explica muito por que meninas negras são as principais vítimas desse tipo de violência, visto que, além de serem inferiorizadas devido ao gênero, sofrem também com o preconceito racial.
O diretor Rudi Lagemann contou em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), que estudou nove anos sobre o tema e, por isso, queria usar a mídia para dar visibilidade à questão da exploração sexual infantil e fomentar debates que pudessem instigar uma mudança estrutural, visto que, segundo ele, a sociedade brasileira sabe da existência desse problema, mas não conhece sua singularidade.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Anjos do sol
Onde assistir: Youtube
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Drama
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As festas de final de ano e as “saídas do armário”

Foto de divulgação do filme “Happiest Season” O período em que comemoramos o Natal, Ano Novo e os recessos que vêm com o final do ano podem trazer alegria e espírito familiar aflorado para muitas pessoas. No entanto, para sujeitos LGBTQIA+, essa época pode representar um retorno para o tão temido “armário”, em que somos obrigadas, obrigados e obrigades a retornar para uma realidade menos plural e repleta de preconceitos.
O filme norte-americano Alguém Avisa – ou Happiest Season – mais feliz para quem?- –, dirigido por Clea DuVall, trata exatamente desse momento, no Natal conservador de uma família do interior, em que sua filha Harper, interpretada por Mackenzie Davis, leva sua namorada, Abby – interpretada por Kristen Stewart – como uma “amiga”. Toda a trama tem o intuito de comédia, no estilo clássico estadunidense, quase uma “sessão da tarde”, mas, nesse caso, ressalto o retorno forçado ao contexto heteronormativo a que a personagem foi imposta.
No início do filme, o dia de Natal se aproxima e Abby iria ficar em seu apartamento na capital, cuidando de alguns animais no feriado, o que já era costume, pois, além de não ser uma grande entusiasta da data, podia ficar em um local mais confortável. Porém, ao conversar com Harper, ela a convida para celebrar o natal “como deve ser”; em família, prezando pelo espírito natalino e sentimento de comunidade.
Um detalhe – muito importante – que Harper não citou antes para sua namorada: ela não era assumida para seus pais. Além disso, Abby nem mesmo poderia ser uma amiga lésbica, o que a levava de volta para uma lógica violenta da heteronormatividade compulsória – conceito de Adrienne Rich que pressupõe que todos os seres humanos precisam seguir essa “normalidade” ou regra que é a heterossexualidade.
É claro que, na trajetória do filme, isso é visto como uma fatalidade natalina, do tipo: “Nossa, esqueci a torta!”, e é solucionado no final, com uma aceitação da família e do ciclo conservador de Harper. No entanto, o que está em questão não é uma banalidade qualquer e sim a sexualidade de uma pessoa, uma pessoa que não está sendo respeitada nem mesmo por sua companheira, que a surpreende no caminho para essa cidade distante, ao sugerir que ela precisaria performar algo que não é.
No texto “A epistemologia do armário*”, da teórica de estudos de gênero estadunidense Eve K. Sedgwick, ela nos alerta para essa “prática” de colocar pessoas LGBTQIA+ de volta no armário com as situações mais cotidianas possíveis. Por exemplo, em uma entrevista de emprego, uma ida ao mercado ou simplesmente voltando para casa de Uber somos forçadas a entrar nesse armário que não nos cabe.
Os armários não nos cabem, tampouco a sociedade inteira, que nos mata e condena por sermos quem somos. Porém, nos colocar de volta, sem consentimento ou um diálogo básico sobre a situação familiar, é um erro perigoso a se fazer – assim como ocorre em Alguém Avisa?. Nele, a chave do humor e da tamanha violência que a família conservadora de Harper comete com Abby ultrapassa essa linha tênue e fica somente a maldade.
Ao tratarmos a homofobia, ou crimes com motivação de gênero, com um tom de menosprezo ou até fazendo piadas, estamos legitimando discursos preconceituosos e reforçando uma série de estereótipos violentos com a população LGBTQIA+. Além disso, ao não possuirmos a possibilidade de demonstrar nossos sentimentos, é um tipo de agressão reiterada, pois pessoas hétero estão o tempo inteiro demonstrando afeto e amor publicamente, ou até mesmo mais de sua intimidade enquanto casal, por exemplo.
Enquanto isso, casais lésbicos, seguindo o exemplo do filme, são colocados em quartos diferentes pois “é impensável duas mulheres adultas dividindo a mesma cama!” – frase dita pela mãe de Harper quando as duas chegam na casa da família. Por isso, para além de uma sociedade que não respeita as diferentes expressões de amor, é preciso estar atenta, atento e atente dentro de nossos próprios relacionamentos e o ciclo próximo dessa pessoa.
Alguém Avisa? possui uma representação problemática do que é ser LGBTQIA+ nas festas de final de ano e retornar para casa com familiares e pessoas preconceituosas ao redor. Sabemos que muitas pessoas sofrem diversas violências não só simbólicas como também físicas, chegando a assassinatos e casos graves, sendo o Brasil o país que mais mata.
Assim, nos manter em uma bolha segura para garantir nosso bem-estar nas festividades de final de ano é fundamental. Caso essa não for uma opção, bom, esse é um debate extenso sobre as famílias existentes, mas tente se proteger como pode no momento, pois a realidade do filme – que tem final feliz – não se aplica, infelizmente, a todos os exemplos.
Título original: Happiest Season
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 12 anos (A12)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: Cenas que reforçam posicionamentos homofóbicos podem não ser positivas para pessoas mais novas, que possuem os filmes como base.
Gênero: Comédia/RomanceTexto por Lia Junqueira.
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“A Maldição da Mansão Bly” e o fantasma da repressão sexual feminina

Dani no velório de Eddie. Créditos da imagem: cena da série. A Maldição da Mansão Bly, lançada em 2020 na Netflix, faz parte da antologia da série A Maldição da Residência Hill. Ambas são séries de terror criadas por Mike Flanagan e inspiradas em livros clássicos do gênero. A Maldição da Mansão Bly é uma adaptação do livro A Outra Volta do Parafuso, escrito por Henry James e publicado em 1898.
Na trama do livro, uma jovem, filha de um pastor de província, aceita o emprego de tutora de duas crianças órfãs em uma casa de verão no interior da Inglaterra. Lá, ela descobre a presença de fantasmas de antigos funcionários. A protagonista testemunha eventos estranhos e é assombrada por esses fantasmas, que buscam “corromper” as crianças e a própria babá que reprime seus desejos sexuais, por ser uma mulher muito religiosa.
A série proporciona uma visão contemporânea da história do livro, trazendo para o contexto atual o suspense e o horror que permeiam o enredo original de Henry James. Na adaptação de Flanagan, a jovem Dani Clayton (Victoria Pedretti) também parte para o interior, um local chamado Bly, onde aceita o trabalho de babá de duas crianças. Ao chegar, fica deslumbrada com a beleza da mansão, mas logo vivencia acontecimentos estranhos. Embora haja semelhanças entre as duas obras, o livro e a série, algumas modificações foram feitas para se adequarem às suas respectivas épocas.
O autor Henry James, em seus clássicos livros de terror, utiliza frequentemente a alegoria de um fantasma para representar a manifestação de sentimentos negativos que assombram pessoas deprimidas por algum motivo, conceito conhecido como “fantasma moral”. No livro, o fantasma moral da babá é o desejo sexual reprimido, pois naquela época, na era vitoriana, a sexualidade era negada às mulheres, principalmente as da igreja. Já na série, ambientada no final dos anos 1980, Dani é atormentada por um fantasma de olhos grandes e brilhantes todas as vezes que se olha no espelho, que simboliza seu medo em aceitar sua orientação sexual. Ao se descobrir lésbica, ela passa por um evento traumático e desde então não consegue se relacionar, sendo perseguida por esse fantasma moral.
No 4º episódio da série, intitulado “Perdas e Culpa”, acompanhamos a história de Dani desde sua infância. Por meio de flashbacks, descobrimos que, no passado, ela tinha um noivo chamado Eddie. Quando crianças, eles eram melhores amigos, e essa relação evoluiu para um romance na adolescência. Contudo, à medida que a data do casamento de Dani e Eddie se aproximava, ela se sentia cada vez mais angustiada. Embora Eddie acreditasse que a causa da angústia fosse a pressão relacionada à festa de casamento, Dani, na verdade, estava descobrindo que não desejava se casar e buscava compreender os motivos. Ao perceber que ela tinha atração por mulheres e havia confundido o amor e afeto que sentia por Eddie, que eram apenas de amizade, decide contar a ele. Ao receber a notícia, Eddie fica irritado e incrédulo. Ele sai do carro para respirar um pouco e acaba sendo atropelado por um ônibus. A última visão que Dani teve dele vivo foram seus óculos redondos iluminados pelos faróis.
Desde a morte do noivo, a culpa assombra Dani, que, ao se olhar no espelho, vê atrás de si o reflexo do homem com olhos de faróis. No entanto, isso muda ao chegar na mansão Bly e conhecer a jardineira Jamie. Elas começam a nutrir sentimentos românticos uma pela outra. No início, é difícil para Dani, pois, durante o processo de descoberta e compreensão de sua sexualidade, seu noivo morreu, e ela acredita que causou isso e por isso não é digna de continuar sua vida. Mas, Jamie a faz sentir-se segura, e Dani consegue superar esse fantasma moral, deixando o passado para trás e acolhendo o futuro ao lado da pessoa que ela ama, sem precisar ignorar sua própria imagem no espelho.
É interessante considerar que, desde a infância, costuma-se dizer às crianças que, ao crescerem, se relacionarão com alguém específico, por exemplo, alguém da escola. Contudo, a outra criança é sempre do sexo oposto. Essa brincadeira “inofensiva” pode parecer simplista, mas nossa identidade é moldada por ela. Quando Dani confunde seus sentimentos por seu amigo Eddie, não se trata apenas de confusão infantil, mas também de uma pressão externa, sugerindo que só podemos nutrir afetos românticos por alguém do sexo oposto. Somente na idade adulta, Dani percebe que sua atração romântica é por mulheres, não por homens.
Monique Wittig, escritora e teórica feminista, no texto Não se nasce mulher , reflete sobre os pensamentos de Simone de Beauviur e questiona o mito da “mulher”como produto de uma construção social. Ela conclui que a heterossexualidade é a base da opressão, aplicando diferenças biológicas e históricas entre os gêneros masculino e feminino. “Recusar tornar-se (ou permanecer) heterossexual sempre significou recusar, consciente ou inconscientemente, tornar-se uma mulher ou um homem”. Assim, ao se aceitar como lésbica, Dani não apenas supera conflitos morais, mas também quebra o ciclo da heterossexualidade compulsória imposto desde a infância.
Por Ana Rodrigues.
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“Mulheres vulneráveis”: A arte como grito contra as violência de gênero

Participante do Ninfeias durante a ação “Mulheres Vulneráveis. Foto: Ana Luiza Rodrigues. No dia 30 de novembro, às 15h, aconteceu nas ruas do Centro Histórico de Ouro Preto-MG a ação coletiva “Mulheres Vulneráveis”, idealizada e organizada por alunas e professora do curso de Artes Cênicas e participantes do Núcleo de investigações feministas (NINFEIAS) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Na ação, mulheres se deitam nas calçadas, principalmente próximas às repúblicas masculinas, e simulam estar inconscientes. Outras pessoas do projeto, os “anjos”, ficam pelas proximidades vigiando e protegendo. É uma experimentação artística que referencia casos de mulheres violentadas em ambientes urbanos de acesso público, como forma de protesto, de incomodar e fazer pensar sobre essas questões. Fazer homens pensarem sobre essa questão.
A ação “Mulheres Vulneráveis” foi realizada como parte da disciplina de Artes e Contemporaneidade do Departamento de Artes Cênicas da UFOP. Surgiu da proposta de uma aluna em um momento delicado, após uma colega de curso ter enfrentado violência sexual e tirado a própria vida. Na mesma época, ocorreu o caso da jovem que foi abusada após sair de uma festa e ser deixada desacordada na rua durante a madrugada. Esse incidente motivou a realização da ação, levando as participantes a redigirem um manifesto contra a cultura do estupro para destacar ainda mais a questão.
É quase impossível olhar para a rua, ver corpos de mulheres caídos, frágeis e inseguros e não se lembrar do caso de estupro que ganhou repercurssão nacional e contribuiu para a idealização do projeto “Mulheres Vulneráveis”. Na madrugada de 30 de agosto, em Belo Horizonte, uma mulher de 22 anos, após sair alcoolizada de um show, foi deixada em um carro de aplicativo por um amigo. Ao chegar ao destino, com a mulher desacordada no veículo, o motorista tentou contato pelo interfone, mas não conseguiu. Ela, então, foi abandonada inconsciente no meio-fio em frente ao seu prédio pelo motorista e por outro homem que passava pela rua. Cinco minutos depois de ficar desacordada na calçada, um quarto homem passa, Weberson Carvalho da Silva. A coloca nos ombros e a leva para um campo de futebol. Onde a estupra. Em cenas que parecem retiradas de um filme de terror, captadas por câmeras de segurança, podemos acompanhar a mulher sendo carregada, como um objeto pelas ruas.

Parte final da ação “Mulheres Vulneráveis” nas ruas de Ouro Preto. Foto: Ana Luiza Rodrigues. Após a ação “Mulheres Vulneráveis”, as participantes fizeram uma roda de conversa para partilhar o que viram e escutaram nas ruas. Algumas pessoas ignoraram a situação, considerando-a apenas um “teatro”. Outras pararam por curiosidade, leram o manifesto contra a cultura do estupro que estava disponível próximo às mulheres deitadas, enquanto algumas observavam com receio e preferiam manter distância. Até mesmo a polícia fez uma parada, e uma policial desceu da viatura para entender a situação. Os “anjos” explicaram, e a questão foi resolvida. Muitas pessoas também pararam e insistiram em oferecer ajuda, em sua grande maioria mulheres. Esse conjunto de acontecimentos abre questionamentos. E se uma mulher tivesse cruzado o caminho da jovem antes de Weberson? Por que nenhum dos quatro homens demonstrou preocupação com a segurança da mulher?
Nas ruas de Ouro Preto, durante a luz do dia, cinco mulheres “desacordadas”. Com várias pessoas próximas a elas, ainda assim houve situações desconfortáveis. Um grupo de homens parou próximo à ação e começou a falar alto de modo a afrontá-las. “Essa aí eu não aguentava”, disseram para uma das mulheres, às 15h30 da tarde numa rua movimentada. “Deve estar chapada, é normal por aqui”, “Deve estar bêbada, vindo de uma festa, tá perto de uma república”, foram frases escutadas também. Não importa a hora, o local ou a roupa, mulheres em situação de vulnerabilidade merecem ajuda, sem serem questionadas. Seus corpos não são públicos e precisam ser respeitados e, em situações de fragilidade, mantidos íntegros e ilesos. Mulheres têm o direito de se divertir e ir a festas. É constitucional o direito ao lazer, nada justifica a violência e o abuso.
“Uma mulher não está vulnerável por estar bêbada ou usando batom vermelho. Uma mulher não está vulnerável por estar usando roupas curtas. Uma mulher só está vulnerável pois sempre, à espreita, há um homem.” Esse é um trecho do contra a cultura do estupro. Vivendo num mundo rodeado por essa cultura, mulheres não estão suscetíveis à violência apenas de madrugada sozinhas, desacordadas nas ruas. Estão suscetíveis à violência em casa, em festas de república e até mesmo dentro da universidade. Por isso, o Brasil registrou número recorde de estupros em 2022, com 74.930 vítimas no ano, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Se você foi vítima de abuso, procure ajuda. Na Universidade temos a Ouvidoria Feminina, que é um órgão oficial que atua no recebimento de denúncias de violência contra a mulher no âmbito da universidade, incluindo nas repúblicas federais e moradias estudantis, nos termos da Resolução Cuni nº 2.249.
O número para contato é (31) 9 8866-7678.
O e-mail: ouv.femininaufop@gmail.com
Manifesto contra a cultura do estupro:
file:///C:/Users/UFOP/Downloads/manifesto%20_compressed.pdf
Por Ana Rodrigues.
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“Depois da cabana”: a série que retrata a realidade monstruosa a que inúmeras mulheres são submetidas

Créditos da imagem: cena do filme De produção alemã e contendo seis episódios, Depois da Cabana é uma minissérie da Netflix que conta a história, por meio do drama e do suspense, de mulheres que eram sequestradas e mantidas em cárcere por anos, sendo abusadas e violentadas. O elenco é composto por Kim Riedle, Jeanne Goursaud, Naila Schubert, Haley Louise, Sammy Schrei e Christian Beermann.
O enredo gira em torno de solucionar o sequestro de Lena Beck (Jeanne Goursaud), desaparecida há 13 anos. A vítima é branca, loira, heterossexual e magra. A investigação do caso é retomada quando uma mulher, com essas mesmas características, foge de casa com sua filha e é atropelada. No hospital, os médicos perceberam que os dados da vítima correspondiam aos dados de um sequestro antigo, o de Lena.
Os supostos pais da vítima foram comunicados e convocados a comparecer no hospital, mas logo identificaram que aquela mulher, apesar de ter cicatriz, cabelo e nome idêntico, não era a filha deles, mas sim, uma outra vítima: Jasmim (Kim Riedle). Eles, então, notaram um fato curioso em relação à Hannah (Naila Schuberth), filha de Jasmim: ela era estranhamente igual à Lena quando tinha aquela idade. Após essas descobertas, vários exames de DNA foram coletados para compreender melhor a situação, o que trouxe à tona que Hannah era, de fato, filha da verdadeira Lena Beck, que ainda não tinha sido encontrada.
Com o avanço da investigação, mais informações são descobertas: o sequestrador fazia as mulheres sequestradas e as crianças viverem sob um sistema de horários rigorosamente estipulado. Isto é, tinham que comer, ir ao banheiro e dormir exatamente no horário ordenado pelo abusador, o que causou muitos traumas a todas essas vítimas, que encontraram dificuldades para agir fora desse controle.
Além disso, foi desvendado que Lena Beck morreu no parto de seu terceiro filho, também fruto de abuso sexual, como os outros filhos da vítima, Hannah e Jonathan, e foi enterrada no quintal da casa. O sequestrador e assassino Lars Rogner ficou desesperado com sua morte, já que precisava de alguém para cuidar das crianças e, sob essa justificativa, raptou outras mulheres e tentou alterar suas características físicas para que ficassem o mais parecidas possível com Lena.
Nos episódios finais da série, é revelado que Lars Rogner (Christian Beermann) foi abandonado por sua mãe quando era pequeno e, por isso, em seus crimes, ficou em busca de mulheres que eram parecidas fisicamente com ela, para tentar construir a família que nunca teve na infância.
O enredo desta série é muito comum em produções audiovisuais. Quando assisti, logo me recordei de O Quarto de Jack, que tem basicamente o mesmo cenário, mas, ainda assim, sentia que tinha uma familiaridade além dessa com esse enredo. Fiquei me perguntando de onde eu conhecia tais histórias, daí resolvi pesquisar e – não surpreendentemente – encontrei inúmeros casos parecidos com os retratados, mas, infelizmente, os que encontrei eram reais e nada ficcionais.
Elizabeth Fritzl, por exemplo, tinha 17 anos quando foi encarcerada no porão de sua casa por seu próprio pai, conhecido mundialmente como “Monstro de Amstetten”. Ela só foi liberada aos 42 anos, em 2008, quando uma de suas filhas teve complicações no pulmão e precisou ir ao hospital. A vítima teve seis filhos provenientes dos abusos sexuais do próprio pai, e precisou criar três deles escondidos da luz do sol na parte subterrânea e restrita de sua casa. Josef foi preso e condenado à prisão perpétua.
Outro caso é o que inspirou o longa Sequestro em Cleveland, lançado em 2015. A narrativa conta a história dos três sequestros cometidos por Ariel Castro, nos quais Michelle Knight, de 21 anos, Amanda Berry, de 16, e Gina de Jesus, de 14, foram raptadas. As jovens ficaram presas em cativeiro entre 9 e 11 anos e eram submetidas a espancamentos, estupros e abortos forçados pelo criminoso.
Essas mulheres viveram todos esses anos acorrentadas, sem mal ver a luz do sol e sendo obrigadas a assistir na televisão as buscas de suas respectivas famílias, como uma forma de tortura. Em 2013, Ariel saiu e esqueceu uma das portas destrancadas; foi quando as vítimas conseguiram sair e implorar por ajuda. Durante seu testemunho, o criminoso se descreveu como alguém “de sangue-frio, viciado em sexo e sem controle sobre seus impulsos sexuais”. Ele foi condenado à prisão perpétua por 329 crimes, mas pouco tempo depois do julgamento, cometeu suicídio.
Em condições semelhantes estava uma mulher romena de 29 anos. Trancada em um porão sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto, a vítima estava, junto com sua filha de três anos, em uma situação insalubre. Ela chegou à Itália em 2007, com 19 anos, em busca de trabalho e de uma vida melhor, quando, meses depois, foi contratada por Aloisio Francesco Rosario Giordano para cuidar de sua mãe doente.
Chegando no local, Giordano prendeu a vítima em cárcere e, por 10 anos, a espancou, abusou e cometeu outros atos monstruosos, como cortar sua genitália e depois costurar com linha de pesca. A polícia a encontrou em uma situação deplorável: no meio de ratos, restos de comida e excrementos fecais. Além disso, a romena contou que o criminoso obrigava seus próprios filhos – fruto dos abusos sexuais – a insultarem e cuspirem nela. Depois de tudo, a vítima estava tão traumatizada que não sabia reconhecer se estava ali contra sua vontade ou não e, por isso, foram necessários muitos tratamentos psicológicos para ela assimilar a situação de extrema violência.
Esses são alguns dos inúmeros casos de sequestro e violência sexual divulgados pela mídia, e demonstram como a cultura machista e patriarcal faz os homens acharem que são proprietários dos corpos das mulheres, de suas experiências, de seus prazeres e de suas vidas no geral. Mulheres que perderam anos trancadas e sob um sistema de controle, como se fossem objetos de posse e que, além disso, têm que carregar o imenso trauma de tantas violências e descobrir como retornar à vida “livre”, se é que é possível.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Liebes Kind
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: cenas de extrema violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Drama e suspense
